Boi Neon | Crítica

boi_neonO Nordeste brasileiro historicamente ganhou espaço no cinema e literatura como uma presença que concentra nossas misérias e diferenças sociais. É possível, aliás, que por muito tempo tenha sido difícil contar uma história sobre a região sem que esses temas surgissem de uma forma ou de outra, ainda que marginalmente.

Embora isso não tenha exatamente sumido nas últimas décadas – já que o passado sempre deixa marcas importantes no presente -, ganhou corpo uma leva de novos filmes e cineastas que têm uma espécie de centro no Recife (PE).

Gabriel Mascaro, nascido na cidade, é um dos expoentes desse cinema. Apesar de já ter feito alguns filmes antes, foi com o documentário Doméstica, que enfoca a vida de empregadas domésticas pelo ponto de vista dos filhos dos patrões, que ganhou mais reconhecimento. Depois vieram Ventos de Agosto, seu primeiro ficcional, que logo de cara já ganhou visibilidade em festivais pelo mundo, e por fim este Boi Neon, provavelmente seu trabalho mais notório e divisivo até agora.

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O filme confronta e também reforça estereótipos normalmente relacionados aos trabalhadores braçais da região. Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro que trabalha cuidando dos bois de vaquejadas. Por uma questão de comodidade, divide sua vida itinerante com Galega (Maeve Jinkings), que faz apresentações sensuais para os vaqueiros usando uma máscara de cavalo, e a filha dela, Cacá (Alyne Santana).

Como um trabalho extra e um hobby, Iremar desenha e produz os figurinos que Galega usa em suas apresentações. Seu sonho, algo raramente relacionado ao tipo de brutalidade necessária para esse tipo de trabalho, é se tornar um estilista. Apesar de viver em meio aos bois, mexendo frequentemente com esterco e lama, revela toques de refinamento intelectual e estético em certos pontos do filme, como quando diz usar somente perfumes de marca.

Ao mesmo tempo, Mascaro faz alguns paralelos incômodos entre os animais e os próprios humanos com quem dividem o espaço. Além do mais óbvio, de colocar uma personagem vestida como um cavalo (algo que de fato acontece, segundo relatos do que os próprios atores presenciaram em ambientes reais de vaquejada), a câmera captura com frequência os corpos nus dos personagens em intensa semelhança com os bois ao seu redor.

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Cenas de sexo ou até um banho em grupo revelam a proximidade entre as ações dos animais e dos humanos, sugerindo que a atividade dos personagens é capaz de despertar uma certa animalidade nas pessoas, ainda que estas não sejam imunes ao consumismo ou ao menos a uma boa dose de publicidade.

Uma belíssima fotografia, que destaca os vestígios de modernidade em uma paisagem de outra forma desolada e ainda assim repleta de cores, ajuda a coroar um filme que não tem exatamente uma mensagem a passar nem constrói trajetórias sólidas para seus personagens, mas que reflete o próprio cinema ficcional de Mascaro, fortemente influenciado pela visão naturalista que veio com os documentários do início de sua carreira.

Cotação-4-5

 

Boi Neon - posterBoi Neon (Boi Neon)

Direção: Gabriel Mascaro

Roteiro: Gabriel Mascaro

Elenco: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Josinaldo Alves, Roberto Berindelli, Marcelo Caetano, Samya De Lavor, Vinícius de Oliveira, Abigail Pereira, Carlos Pessoa, Alyne Santana.

Gênero: Drama

Duração: 101 minutos

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