Spotlight: Segredos Revelados | Crítica

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O jornalismo costuma ser tratado de duas formas opostas e extremas no cinema: ou o repórter é um Bob Woodward (Todos os Homens do Presidente), herói pronto para derrubar governos e desmascarar esquemas gigantescos com a força de sua caneta, ou é um Chuck Tatum (A Montanha dos Sete Abutres), um sujeito mal pago (ok, essa parte é verdade) e inescrupuloso capaz de qualquer coisa para subir na vida. Em outras palavras, um verdadeiro abutre sobrevoando a carniça.

Esse dualismo maniqueísta só ajuda a valorizar o que o diretor Tom McCarthy, um roteiro esperto escrito em parceria com Josh Singer e uma equipe de atores fenomenais fazem em Spotlight: Segredos Revelados.

A história enfoca o dia a dia de uma equipe especial de jornalismo investigativo do Boston Globe, que em 2001 descobriu a existência de uma rede organizada para acobertar padres da Igreja Católica envolvidos em casos de pedofilia.

Com um tema tão passível de emoção, impressiona o quanto McCarthy é capaz de puxar as rédeas e manter a sobriedade da narrativa, deixando arroubos dramáticos para momentos-chave da história (o que se mostra bastante recompensador quando o filme se aproxima de seu clímax).

Fica claro desde o início que a preparação por trás das câmeras foi muito além de uma simples visita aos personagens de carne e osso. A julgar pela proximidade do que se vê com o ambiente real de uma redação, é de se pensar que a direção, a produção e os atores passaram semanas e até meses trabalhando como “focas” em algum veículo de comunicação, pelo menos até pegar os hábitos e manias típicos da profissão.

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Todos parecem estar sempre em movimento, falam andando, param em suas mesas apenas brevemente para fazer alguma ligação importante e logo seguem para a rua atrás de novas fontes. Se há algo urgente a apurar, adeus jantares e noites bem dormidas.Levar portas na cara é uma constante. Ainda assim, arranjam tempo para discutir entre si nos bastidores com um certo cinismo inerente à profissão, de quem não é capaz de acreditar completamente em nada.

O filme adentra pouco a vida pessoal dos personagens e, quando o faz, praticamente só reforça sua dedicação integral ao trabalho. Michael Rezendes (Mark Ruffalo), por exemplo, diz ser casado, mas sua esposa não aparece em momento algum. Ao invés disso, ele é mostrado sempre em casa preparando uma refeição solitária enquanto tenta tirar informações de uma ou outra fonte relutante.

Esse retrato detalhado da rotina da profissão tende a deixar o filme um pouco mais tedioso do que o comum no cinemão americano, até mesmo em relação a outros longas que tratam de temas relevantes. A repetição de situações cotidianas ajuda a sentir a frustração que é estar na pele de repórteres atrás de um assunto que se revela cada vez mais absurdo, para além de qualquer perspectiva.

Neste caso específico, o tema da reportagem está próximo dos jornalistas, já que muitos deles nasceram e cresceram na cidade de Boston, que tem raízes fortemente católicas. O diretor enfatiza esse aspecto ao fazer com que parte da ação se passe na rua, geralmente à sombra de grandes catedrais.

Planos que contrapõem parquinhos infantis ou ônibus escolares e edifícios de igrejas chocam não apenas porque são inesperados, mas por causa da habilidade com que a direção construiu emocionalmente pedra por pedra o caminho até ali.

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Por ser algo que atinge pessoalmente os envolvidos, há uma carga de interesse próprio na apuração jornalística, além de uma óbvia busca por reconhecimento que faz com que a equipe decida em diversos momentos adiar as revelações.

O elenco principal é incrivelmente afinado. Ruffalo e Michael Keaton são os destaques, mas Liev Schreiber e Rachel McAdams também estão ótimos, se apropriando das características de seus personagens como se já estivessem inseridos naquele mundo há anos.

Além de um retrato do trabalho jornalístico, o filme é também uma crônica assustadora sobre uma cidade que vive no limiar de uma síndrome de Estocolmo, cujas instituições (o Boston Globe incluído) foram coniventes por décadas com abusos contra os próprios cidadãos dessa comunidade.

“Pegue aspas do cardeal Law [responsável por acobertar os casos] para fingir que somos imparciais”, diz o personagem de John  Slattery quando a equipe está finalmente pronta para publicar os resultados da investigação. Imparcialidade de fato não existe. Nem heróis nem vilões, bons jornalistas são simplesmente profissionais tentando fazer seu trabalho da melhor forma possível, assim como pessoas capazes de se envolver emocionalmente com tragédias humanas e de revelar o lado podre de uma questão. Sem apelar para saídas fáceis, Spotlight é o primeiro filme em muito tempo que consegue mostrar tudo isso na prática.

Cotação-5-5

Spotlight: Segredos Revelados - poster nacionalSpotlight: Segredos Revelados (Spotlight)

Direção: Tom McCarthy

Roteiro: Josh Singer e Tom McCarthy

Elenco: Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Brian d’Arcy James, Stanley Tucci, Elena Wohl, Gene Amoroso, Doug Murray, Sharon McFarlane, Jamey Sheridan, Neal Huff, Billy Crudup, Brian Chamberlain, Duane Murray, Michael Cyril Creighton, Paul Guilfoyle, Robert B. Kennedy, Martin Roach.

Gênero: Drama/Suspense

Duração: 128 minutos

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