Os Oito Odiados | Crítica

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Há algumas semanas, o diretor Quentin Tarantino se envolveu numa treta que ganhou destaque na mídia do mundo todo. Ele participou de uma passeata em Nova York pelo fim da brutalidade da polícia norte-americana, movimento este que foi ganhando força depois de sucessivos homicídios de jovens negros – desarmados – por policiais. Tarantino fez duras críticas à polícia, o que gerou até um outro movimento, o de boicote ao filme pelos cops.

Quem conhece o cinema de Tarantino pode até achar paradoxal ele participar de portestos anti-violência sendo ele um artista que sempre usou e abusou da violência em seus filmes de forma estilizada. Quem pensa assim, desculpe o pedantismo, mas não compreende seus filmes. Tarantino sempre escancarou a violência de forma tão substancial e explícita para justamente subverter o tema e fazer o público não só se entreter, mas também refletir sobre a banalização destes atos de terror que nos acostumamos a ver todos os dias nas ruas e nos noticiários.
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Tarantino quer tirar o público de seus estado de alienação e bater na cara de todos com sangue e vísceras, mas tudo isso, claro, com muito estilo. Diálogos longos e afiadíssimos, personagens excêntricos, um conflito que vai se desenrolando aos poucos até atingir um clímax apoteótico, por assim dizer. Seu tema preferido é vingança, mas nos últimos filmes tem aliado à isso questões políticas e sociais de discriminação, como a misoginia (À Prova de Morte), antissemitismo (Bastardos Inglórios) e racismo (Django Livre).

E eis que chegamos a seu oitavo filme. Em Os Oito Odiados, Tarantino volta ao gênero western e à temática do conflito racial, tal qual em Django, porém, aqui, aborda o tema de forma muito mais eficiente, se não contundente. Estamos aqui situados nos Estados Unidos pós-guerra civil, quando o exército Yankee de Abraham Lincoln derrota os confederados do Sul e assim consegue acabar de vez com o regime de escravidão em todo o país. Mas se hoje em dia ainda é difícil ser negro nos EUA, imagina naquela época?

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É por isso que o personagem de Samuel L. Jackson anda com uma carta do presidente guardada no bolso, para qualificar sua própria vida numa época em que no velho oeste valia a lei do mais forte, não que ele não seja um personagem capaz de tudo, como um bom herói Tarantinesco. O filme aborda novamente também a misoginia, com a personagem de Jennifer Jason Leigh, uma prisioneira do caçador de recompensas vivido por Kurt Russell, sendo espancada a todo momento por seu atrevimento.

Há tantos termos, diálogos e piadas machistas e racistas o tempo todo, que a plateia não sabe se pode rir mesmo ou assume o constrangimento, pois é isso mesmo que ele quer, Tarantino não é politicamente correto, mas também não dá voz aos personagens para eles reforçarem preconceitos, ele usa o desconforto para justamente subverter os padrões e jogar na cara da plateia: Olha querido, sabe aquele caso de violência doméstica ou daqueles meninos negros da favela mortos pela polícia no asfalto? Então, é tipo isso aqui, legal né? Só que não! Peguei vocês!

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Muitos acusam Tarantino de estar se repetindo, de seguir uma “fórmula”, mas é seu estilo, sua assinatura. Não se pode negar que ele é um baita diretor visual, e Os Oito Odiados é sem dúvida seu filme mais lindo visualmente, ter filmado em 70mm só ajudou. Mas os enquadramentos precisos e a exploração da natureza gelada das montanhas de Wyoming, agregada ao som da estupenda trilha sonora de Ennio Morricone torna a experiência única vista no cinema. Então, meus caros, se querem uma obra de Quentin Tarantino em sua pura essência, encontrarão, e não deixem de refletir um pouquinho depois, faz bem.

Cotação-5-5

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

Os Oito Odiados - poster nacional

Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino

Elenco: Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Walton Goggins, Tim Roth, Bruce Dern, Michael Madsen, Demián Bichir, Channing Tatum, Jennifer Jason Leigh, Belinda Owino, Craig Stark, Dana Gourrier, Gene Jones, James Parks, Keith Jefferson, Lee Horsley, Zoë Bell, Arnar Valur Halldórsson, Quentin Tarantino.

Gênero: Drama/Faroeste

Duração: 167 minutos

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