As Sufragistas | Crítica

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Filmes sobre temas considerados importantes costumam ser uma dor de cabeça para Hollywood e o cinemão de uma maneira geral. É difícil conter acusações de maniqueísmo, manipulação emocional, sentimentalismo, entre muitas outras, quando seu tema central é e foi repleto de exemplos reais de todas essas coisas.

Porém, se existe alguma fórmula mágica para escapar desse estigma, ela não pode ser encontrada em As Sufragistas, um filme que segue tanto essa cartilha em sua estrutura que corre o risco de se transformar em uma experiência esquecível do início ao fim.

Isso só não acontece porque quem está quase o tempo todo à frente das câmeras é Maud, vivida por uma das atrizes mais carismáticas e seguras da atualidade. Carey Mulligan, em uma das melhores performances de sua carreira, defende com unhas e dentes uma personagem escrita a toque de caixa, que tinha tudo para se tornar caricata.

Ela é o nosso ponto de entrada nesta história sobre movimentos feministas surgidos na Inglaterra em meados do século passado, que reivindicavam o direito de voto e outras garantias fundamentais para as mulheres. O diferente é que, após anos de protestos pacíficos sem resultados, muitos desses grupos passaram a recorrer a meios violentos para chamar a atenção das autoridades e da mídia.

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Inicialmente uma dona de casa oprimida, Maud divide a maior parte de seus dias entre o trabalho estafante em uma lavanderia e a criação do filho. Quase sem querer, acaba se envolvendo com sufragistas e é engolida espontaneamente de tal maneira pela causa que a vida como conhecia sofre sérias mudanças, algumas delas terríveis.

Para uma obra tão calcada em experiências de abuso, As Sufragistas se mostra incrivelmente vazio de conteúdo. Falha ao fornecer profundidade a qualquer dos personagens, que estão ali apenas para cumprir papéis predeterminados, mais como representações do que como pessoas de carne e osso.

Brendan Gleeson, por exemplo, representa a lei dura e implacável. Meryl Streep, como uma versão da líder Emmeline Pankhurst, figura chave para o movimento na vida real, encarna o ideal de mudança para as mulheres. Natalie Press, como Emily Davison, tem talvez a missão mais importante, e não desenvolver o mínimo de sua personalidade é um dos maiores pecadores do roteiro.

A forma rasa com que o longa trata todas essas pessoas torna quase impossível se envolver com sua luta de uma maneira que fuja do puramente racional: nós sabemos que as mulheres sofriam abusos terríveis e que mereciam ter seus direitos reconhecidos, mas não sentimos isso na pele por meio de suas histórias de vida.

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Essa estranha escolha sobrecarrega Maud (que é uma personagem totalmente ficcional) com uma quantidade de abusos e perseguições que parece no mínimo excessiva. Dói vê-la passar por tudo aquilo, ainda mais porque Mulligan é ótima atriz e transmite sensações que vão muito além das palavras, mas o filme não evita que sua vida soe falsa, como uma colcha de retalhos costurada dentro da cabeça de alguém com uma vaga noção do que o movimento significou.

E, num todo, em sua busca por causar mais e mais impacto com uma narrativa requentada e contada de forma burocrática, As Sufragistas perde seu potencial de novidade para o público de hoje. Se a história tem o hábito de se repetir continuamente, os filmes, principalmente quando tornados mais palatáveis para o público, têm copiado esse comportamento através dos anos.

Cotação-2-5

As Sufragistas - poster nacionalAs Sufragistas (Suffragette)

Direção: Sarah Gavron

Roteiro: Abi Morgan

Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Ben Wishaw, Anne-Marie Duff, Brendan Gleeson, Meryl Streep, Adam Michael Dodd, Adam Nagaitis, Adrian Schiller, Amanda Lawrence, Annabelle Dowler, Catherine Tomelty, Clive Wood, Col Needham, Daniel Tatarsky, Drew Edwards, Finbar Lynch, Geoff Bell, Grace Stottor, Jacob Krichefski, John Cummins, Jonathan Cullen, Lisa Dillon, Lorraine Stanley, Matt Blair, Morgan Watkins, Natalie Press, Nick Hendrix, Romola Garai, Ross Green, Samuel West, Sarah Finigan, Shelley Longworth, Simon Gifford.

Gênero: Drama

Duração: 106 minutos

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