Pegando Fogo | Crítica

pegando_fogoÉ quase tão difícil avaliar um filme em que o personagem principal é a comida quanto tentar escolher o melhor cozinheiro de um reality show estando deste lado da tela. Então, como seres humanos que somos (salvo engano), tendemos a fazer essa seleção pela simpatia.

Por esse ponto de vista, é muito fácil entender por que Adam Jones (Bradley Cooper) não tem nenhuma pretensão de se tornar um desses chefs estrelas de TV e até mesmo reluta em participar de algum programa televisivo. Ele não é simpático e muito menos carismático. De fato, é bem o oposto disso.

Uma das dificuldades de Pegando Fogo é justamente essa: tornar interessante a história do retorno ao estrelato (ou o que quer que isso signifique para o mundo da alta gastronomia) de uma pessoa inconsequente, desagradável, mal educada, egoísta… em suma, insuportável como de fato é Jones.

Infelizmente, o filme não sai totalmente vitorioso da empreitada, em primeiro lugar porque falha em construir qualquer tipo de jornada para seu protagonista, tornando fáceis demais seu objetivo de fazer com que seu novo restaurante conquiste três estrelas no guia Michelin e as dificuldades que enfrenta pelo caminho. E meio bestas demais também.

Isso poderia ter sido evitado caso o filme não insistisse em transformar o personagem em um Midas da comida. Um de seus empregados em certo momento diz para a namorada: “Se você é um chef, ele é como os Rolling Stones”. Essa é uma declaração curiosa, já que grande parte da mídia e de outros personagens que aparecem ao longo do filme demonstram não dar a mínima para o cara.

Mais adiante, Reece (Matthew Rhys), por algum motivo o arquirrival de Jones no mundo gastronômico, admite: “Você é o melhor de nós. Se soubesse disso, não tentaria tanto.” Isso certamente não ajuda a tornar sua luta para chegar no topo mais emocionante.

O roteiro é também uma salada grega (juro que o trocadilho culinário saiu sem querer) que, na impossibilidade de escolher um caminho a seguir, joga em cena umas quatro ou cinco linhas narrativas desconectadas e, é claro, não desenvolve bem nenhuma delas.

Enquanto você assiste, é difícil entender se o filme é sobre um homem buscando a redenção por seu passado, se é uma história de amor, se é sobre uma pessoa tentando se livrar dos vícios, sobre alguém obcecado por alcançar a perfeição, sobre um homem que precisa aprender a se tornar menos egoísta e controlador ou que precisa aprender a se conectar com os novos tempos, etc. Até mesmo mãos mais habilidosas teriam dificuldade para costurar todos esses elementos de forma orgânica e as mãos do diretor John Wells, infelizmente, não são lá grande coisa.

O segundo ponto que derruba o filme, talvez até mais do que todos os problemas já citados, é que o mesmo demonstra uma falta de interesse quase criminosa por seus personagens. Todos eles, aliás, estão ali por um único propósito e não se desviam dele por um único segundo que seja. Deus nos livre demonstrar alguma profundidade!

Isso também significa desperdiçar atores a torto e a direito. Sienna Miller é o interesse amoroso que inicia meio selvagem, mas logo cede aos encantos culinários de Jones; Daniel Brühl está constrangedor como o ricaço que patrocina o chef enquanto nutre um não tão secreto amor platônico por ele; Omar Sy é um amigo do passado que se torna braço direito de Jones, apesar de mal aparecer ou falar, cumprindo uma única função pré-programada; Uma Thurman é uma crítica de gastronomia e literalmente só isso; Alicia Vikander é um amor do passado e só isso; e Emma Thompson, pobre Emma Thompson, é uma psicanalista com quem o protagonista troca farpas amigáveis, mas que não tem lá muito a fazer. Poderia ser cortada do filme sem problema algum, mais ou menos o que aconteceu com o personagem de Jamie Dornan na edição.

O protagonista não escapa dessa sina de superficialidade e irrelevância, ainda que o roteiro tente dotá-lo do máximo de clichês de passado conturbado/gênio autodestrutivo/herói antipático possível. Por trás dessas obviedades mais do que reconhecíveis, não sobra absolutamente nada. E é mais ou menos a mesma coisa que se pode dizer do filme como um todo: um malsucedido esforço de transformar o nada em algo esperto e interessante.

Cotação-2-5Pegando Fogo - poster nacionalPegando Fogo (Burnt)

Direção: John Wells

Roteiro: Steven Knight, baseado em história de Michael Kalesniko

Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Daniel Brühl, Riccardo Scamarcio, Omar Sy, Sam Keeley, Henry Goodman, Matthew Rhys, Stephen Campbell Moore, Emma Thompson, Alicia Vikander, Uma Thurman, Lily James, Sarah Greene, Bo Bene, Elisa Lasowski, Julian Firth, Lexie Benbow-Hart, John Macdonald, Richard Rankin.

Gênero: Comédia/Drama

Duração: 101 minutos

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