Chico: Artista Brasileiro | Crítica

“O meu pai era paulista, meu avô pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano…”

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Chico Buarque de Hollanda é filho de um dos grandes historiadores do Brasil: Sergio Buarque, por acaso autor de “Raízes do Brasil”, obra que deveria ser de leitura obrigatória em qualquer escola do país. De lambuja, é também parente distante do célebre Aurélio Buarque, autor desse dicionário que você provavelmente tem por aí em alguma prateleira de casa.

Portanto, não seria nenhum exagero dizer que Chico tinha a língua, e não somente ela, mas a própria história do Brasil, entranhada dentro de si desde o nascimento. A origem de sua música, porém, é um mistério. E é desse mistério que Chico: Artista Brasileiro trata de falar.

As músicas são feitas de resquícios de memórias verdadeiras e inventadas, diz um sorridente Chico no início do documentário. Contado quase inteiramente a partir de um longo depoimento do próprio artista, o filme é estruturado ao redor de imagens de arquivo e reinterpretações de canções do compositor pelo gogó de outros cantores, que variam de Ney Matogrosso a Péricles, do Exalta.

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Existe uma certa lógica temporal ao longo do filme, mas o roteiro foge de detalhes da vida do cantor que não tenham muito a ver com sua arte. O casamento com Marieta Severo, por exemplo, é mostrado por um ângulo que destaca o quanto ela foi importante para o Chico compositor, pois era a primeira pessoa que lia e ouvia suas músicas. Porém, evita citar as polêmicas relativamente mais recentes relacionadas à separação.

A estrutura simples permite que a genialidade do artista aflore naturalmente, sem que o filme incorra em grandes momentos que endeusem seu talento (ainda que, sim, haja alguns destes também). A narrativa é fluida, misturando bem depoimentos cômicos típicos do perfil despreocupado e gente boa de Chico com momentos emocionantes, em geral embalados por alguma música hoje clássica.

O resultado é leve, com as imagens da Europa e do Brasil na época da ditadura (bastante explorada no filme como fenômeno que moldou sua obra ao longo de décadas) mediando o tom entre saudoso e progressista. O artista se apresenta na carne, com seus problemas e angústias delineados com uma humanidade rara nesse tipo de filme. É resultado do foco que o diretor dá no depoimento do próprio, ao invés de picotar a história pelos pontos de vista de quem o conheceu.

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Como fica claro, Chico: Artista Brasileiro não é sobre a vida de Chico Buarque, mas sobre a vida da música de Chico Buarque. A diferença pode não parecer tão grande a princípio, quando a gênese do artista e de sua obra acontecem como uma coisa só, mas o desenrolar do filme mostra que, por mais interessante que tenha sido sua biografia (e tudo indica que realmente foi), o diretor Miguel Faria Jr. tomou a decisão mais acertada.

Assim como a banda que deu nome ao primeiro grande sucesso de Chico, o artista chega e passa. Sua arte, nem sempre. Muitas vezes vem de mansinho, estende sua canga sobre a areia da praia de Copacabana e vai se deixando ficar, admirando o sol, como em uma bossa de Jobim e Vinicius, de que Chico tanto gosta.

Cotação-4-5Chico: Artista Brasileiro - posterChico: Artista Brasileiro (Chico: Artista Brasileiro)

Direção: Miguel Faria Jr.

Roteiro: Miguel Faria Jr.

Elenco: Chico Buarque de Hollanda.

Gênero: Documentário/Musical

Duração: 110 minutos

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