Chatô: O Rei do Brasil | Crítica

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Não tem coisa mais sem graça que cinebiografia nacional. Estrutura quadrada, roteiro preguiçoso, exaltação exagerada do protagonista. É difícil lembrar de algum filme recente que se enquadra no gênero que tenha empolgado ou ao menos permanecido na memória por algum tempo.

Por essas e outras, Chatô: O Rei do Brasil é uma gloriosa exceção (ainda que o filme não seja exatamente recente, já que começou a ser rodado há 20 anos).

De seu início amalucado -no qual imagens de memórias, alucinações e situações completamente inventadas pela mente pulsante do amoral protagonista se sucedem em uma espiral hipnótica quase incompreensível- ao final exultante, em que o suspiro de adeus de Assis Chateaubriand (Marco Ricca, em uma performance deliciosamente exagerada) é dado de forma no mínimo inusitada, o filme exala um tipo de simpatia tipicamente brasileiro e uma louca ousadia que, dizem, sempre foi uma das marcas inconfundíveis do personagem.

No entanto, não espere aprender muito sobre a história do país ou do próprio Chateaubriand através do filme. Esse está longe de ser o objetivo. Como o próprio diretor Guilherme Fontes já adiantou, o longa capta sentimentos e uma atmosfera que cercavam o magnata das comunicações e pelos quais ele é conhecido até hoje. Porém, não se dá muita importância em seguir de forma veemente os cursos reais da história -o atentado da rua Tonelero, por exemplo, aqui é protagonizado não por Carlos Lacerda, mas por Rosemberg (Gabriel Braga Nunes), personagem fictício, assistente e amigo/desafeto constante de Chatô.

Alucinações do protagonista já no fim da vida, no período em que precisou conviver com uma trombose que o deixou parcialmente paralisado, misturam-se a fatos reais, contados de forma propositalmente exagerada e farsesca. A montagem truncada faz cortes aparentemente aleatórios e é difícil saber quanto disso é ditado por uma visão ágil e entrecortada da história e quanto foi feito simplesmente devido ao parco material que se tinha em mãos.

O homem que amou apenas três coisas na vida -o poder a arte e a mulher pelada-, é retratado como um bufão, um excêntrico espalhafatoso que tem dentro de si o sublime e o profano, e leva a cultura popular brasileira, em especial a nordestina, para ambientes tradicionalmente refinados, escandalizando de forma correspondente a elite da época.

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Seus métodos pouco ortodoxos para conseguir tudo o que queria incluíam chantagear magnatas em troca de doações de obras de arte para o Masp, museu que construiu em São Paulo para preencher seu recente interesse pela arte, assim como publicar mentiras em seus jornais para atrair (também através de chantagem) patrocinadores de peso.

O longa não economiza na terceira das paixões de Chatô. Mesmo quando não é o tema principal, o sexo está sempre presente, seja quando um de seus empregados abre a porta e o encontra em uma posição indiscreta com a secretária ou em festas frequentes em seu jornal ou ainda na relação quase platônica que mantém por décadas com a socialite e femme fatale Vivi Sampaio (Andréa Beltrão), em um triângulo amoroso que conta ainda com Getúlio Vargas (Paulo Betti, caricato e funcionando bastante bem com o tom geral da produção) e que é o responsável por mover muitas das principais peças do filme.

É o sexo, aliás, que traça com o fim da vida deste Chatô ficcional um paralelo poético, ainda que as palavras dessa poesia estejam mais para Boccaccio que para Allighieri.

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Tudo isso, é claro, não esconde que se trata de um filme altamente imperfeito e falho. Sua maior virtude, porém, é incorporar esses aspectos a seus personagens e a sua própria estrutura, transformando-o em um longa interessante, que faz lembrar as velhas e boas chanchadas, ainda que de vez em quando se mostre  exibicionista e autoindulgente demais.

Considerando o que se vê em tela -um protagonista que incorpora o que há de melhor e pior na visão que fazemos de nós mesmos como brasileiros, a devassidão misturada ao progresso, a inovação por meio de tradicionais métodos criminosos- não é de se espantar que o diretor Guilherme Fontes tenha se envolvido tanto na produção deste filme que se deixou levar por uma espiral de megalomania com resultados desastrosos: o cineasta foi condenado a pagar dezenas de milhões de reais por supostas irregularidades na verba captada para as filmagens.

Sem entrar em méritos de culpabilidade, o que ocorreu por trás das câmeras é uma ironia que só ajuda a dar ainda mais sabor a um filme em que tempero é o que não falta.

Cotação-4-5

Chatô: O Rei do Brasil - posterChatô: O Rei do Brasil (Chatô: O Rei do Brasil)

Direção: Guilherme Fontes

Roteiro: Fernando Morais, baseado em seu próprio livro

Elenco: Marco Ricca, Andréa Beltrão, Letícia Sabatella, Leandra Leal, Paulo Betti, Gabriel Braga Nunes, Eliane Giardini, Zezé Polessa, Marcos Oliveira, Alexandre Régis, Ricardo Blat, Tião D’Avilla, Walmor Chagas, José Lewgoy, Ingrid Borgoin, Nathália França, Tatiana Monteiro, Luís Antônio Pilar, Diego Kelman Ajuz.

Gênero: Drama

Duração: 102 minutos

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