Críticas: 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo | Segunda Parte

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39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo terminou esta semana, trazendo ao Brasil parte dos filmes mais aguardados do ano. A seguir, confira o que achamos de algumas das produções, que tiveram grande destaque no mundo inteiro em 2015:

Tigres (Tigers, Índia/França)

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Tigres deixa aquela sensação um pouco decepcionante de ser um filme que está muito aquém do tema que retrata. Enquanto mostra a luta de Haiyan (Emran Hashmi), um representante comercial paquistanês que compra briga com grandes indústrias farmacêuticas ao denunciar uma fórmula que está matando bebês em países pobres, o longa se foca nas tentativas frustradas de trazer a verdade a público. Como a primeira grande chance de realmente apresentar esta narrativa, o longa poderia ir além e deixar um pouco de lado sua estrutura formulaica e previsível. Não é o que acontece e uma grande história se traduz em um filme apenas ok. 3/5

Fome (idem, Brasil)

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O filme é incrivelmente interessante quando está interessado em ridicularizar a apropriação e racionalização acadêmica da pobreza, feita por intelectuais que estão bem longe de entender do que estão falando. Quando se centra nos conflitos de seu protagonista (vivido por Jean-Claude Bernardet, figura chave para a formação do pensamento cinematográfico no Brasil), uma versão ficcionalizada do próprio ator, no entanto, as tentativas de metalinguagem soam tão artificiais e ridiculamente intelectualizadas quanto alguns de seus personagens, fazendo com que o filme caia no mesmo erro que se apressa em criticar. 3/5

Grande Pai, Pequeno Pai e Outras Histórias (Cha Và Con Và, Vietnã)

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O filme, que concorreu ao prêmio máximo no Festival de Berlim deste ano, acompanha um grupo de jovens vietnamitas que crescem em meio à pobreza e à violência e que têm sua sexualidade brutalmente reprimida. Ainda que toque em assuntos delicados para a realidade do país, como a homossexualidade, machismo e castração, a estrutura confusa, tediosa e desnecessariamente longa deixa a impressão de que estes temas e personagens são simplesmente jogados em tela e não levam a lugar algum. 2/5

Virgin Mountain (Fúsi, Islândia)

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Grande vencedor do festival americano de Tribeca, este longa islandês mostra a história de Fúsi (Gunnar Jónsson, em uma interpretação excelente), um ingênuo gigante de 43 anos ainda virgem e cujo maior passatempo é montar grandes estruturas relembrando batalhas históricas, com a ajuda do vizinho e único amigo. Sua jornada em direção ao comportamento adulto e o relacionamento comovente que mantém com a namorada/amiga Sjöfn (Ilmur Kristjánsdóttir) são contados de forma doce, incrivelmente sem cair na pieguice. É uma pena que o filme não invista mais em seus personagens na parte final, embora consiga montar um panorama realista, raro no cinema, sobre a metamorfose tardia do adolescente para o homem. 4/5

Paulina (idem, Argentina)

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Filmado em longos planos-sequência, Paulina é a história de uma mulher cujas ações são difíceis, se não impossíveis, de compreender. Essa personalidade irredutível, que deve desagradar não só a todos os personagens em volta dela como também a muitos dos espectadores, é na verdade um dos grandes trunfos do filme, que deve muito ao desempenho da ótima Dolores Fonzi no papel. O roteiro muito bem arquitetado, que em nenhum momento demonstra assumir um lado a favor ou contra a protagonista e que reveste suas motivações com uma aura de mistério, sustenta um longa muito mais complexo do que parece e cujas verdadeiras implicações podem ser sentidas ainda muito tempo após sua exibição. 4/5

O Verão de Sangaile (Sangailes Vasara, Lituânia)

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A história de um romance bem pouco inspirado entre Sangaile (Julija Steponaityte), uma jovem reprimida, propensa à automutilação, e Auste (Aiste Dirziute), uma garota alegre e criativa. É difícil não enjoar rapidamente com a metáfora óbvia, repetida cerca de duzentas vezes ao longo do filme, entre a libertação que essa relação traz a Sangaile e a superação de seu medo de voar. Talvez fosse melhor ter investido um pouco mais na personagem interessante da mãe amarga da garota, que aos poucos revela sua frustração por ter abandonado uma carreira de dançarina que tanto amava. 2/5

Vovó Está Dançando na Mesa (Farmor dansar på bordet, Suécia)

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Este drama sueco mistura animação e imagens fortes contendo violência psicológica e física para mostrar a história da jovem Eini (Blanca Engström) e das tragédias em sua família, que fizeram com que vivesse totalmente isolada da sociedade, ao lado do pai controlador. As sequências de sonho da garota são verdadeiramente intrigantes e assustadoras, ainda que o filme em si permaneça muito mais como uma promessa do que como uma obra completamente concluída. 3/5

O Culpado (Verfehlung, Alemanha)

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Ainda que bastante convencional em seu estilo, O Culpado é um thriller pesado e instigante, que mira os casos de abuso sexual de menores cometidos por membros da igreja a partir do ponto de vista de um padre, que aos poucos descobre os meandros de uma trama nauseante de mentiras e acobertamento. O que o filme tem de mais interessante é a oposição que os personagens fazem entre a religião como instituição e como um mecanismo para promover o bem, que ajuda a conferir algumas boas camadas de complexidade à narrativa. 3/5

The Here After (Efterskalv, Suécia)

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Após um período em um centro de detenção, um jovem (Ulrik Munther) retorna à comunidade onde vivia, na qual cometeu um crime horrível anos antes. Poucos filmes com enredo semelhante seriam capazes de contar esta história de maneira tão honesta e livre de maniqueísmos quanto The Here After. Uma coisa realmente rara, é possível compreender as reações de praticamente todas as pessoas mostradas na história e, ao mesmo tempo em que há uma empatia natural com o protagonista torturado pelo remorso e pela forma como os velhos companheiros passaram a tratá-lo, também é possível sentir na pele o medo e revolta que toma conta daqueles que são obrigados a conviver diariamente com uma lembrança assustadora. Complexo e comovente sem jamais apelar para o melodrama, essa pérola de origem sueca é uma das grandes surpresas da Mostra deste ano. 4/5

Visita ou Memórias e Confissões (idem, Portugal)

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O cineasta português Manoel de Oliveira, se foi em 2015, com impressionantes 106 anos de idade e até recentemente ainda fazendo filmes. Este longa, gravado originalmente em 1982, foi deixado com instruções expressas para só ser exibido publicamente após sua morte. E (surpresa!) trata-se de uma verdadeira obra-prima, absolutamente intimista em seu conteúdo e forma, em que a câmera visita pela última vez o casarão em que o diretor viveu com a família por mais de 30 anos e que teve de deixar por falta de dinheiro. Em depoimentos e imagens belíssimas, Manoel relembra parte da  juventude com um olhar autoral e melancólico que faz com que sintamos, ao menos por um momento, que vivemos as mesmas coisas que ele. Difícil encontrar uma maneira mais bonita de se despedir. 5/5

O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente, Colômbia)

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Este épico de dois aventureiros gringos pelas selvas amazônicas (que acabou sendo a escolha da Colômbia para representá-la no Oscar do ano que vem) tem ecos inevitáveis de outros filmes, como Fitzcarraldo e Aguirre, a Cólera dos Deuses, assim como de alguns menos óbvios, entre eles Apocalypse Now e 2001: Uma Odisseia no Espaço. Lindamente filmado em preto e branco, as jornadas representam a destruição das culturas indígenas locais, que não é necessariamente perpetrada pelos dois estrangeiros de passagem por ali, mas que iniciam seu curso constante a partir do momento em que se dá sua entrada nesta região em que nunca deveriam ter estado. 4/5

Lo Que Lleva el Río (idem, Venezuela)

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A história da índia warao Dauna (Yordana Medrano), que desafiou a cultura de seus ancestrais para estudar e aprender com o homem branco, rende um filme que lembra muito uma novela mexicana, com diálogos vazios e previsíveis, personagens caricatos e mal desenvolvidos, péssimas atuações de todo o elenco e limitações técnicas evidentes, embora este seja um aspecto perdoável pelos poucos recursos da produção. O roteiro parece se esquecer de pontos essenciais, como dar algum destaque ao importante trabalho de pesquisa desenvolvido por Dauna junto aos indígenas da região ou criar alguma empatia entre a protagonista e outros membros da comunidade, em especial seu marido, o que viria a dar algum peso e profundidade para os acontecimentos posteriores. Ao invés disso, o longa se torna uma tragédia maniqueísta que tem como principal vilã a própria cultura warao, que, em esforços ao menos historicamente justificados, luta para sobreviver em um meio que não a valoriza e ainda enfraquece seus preceitos através de iniciativas exteriores de catequização. 1/5

A Bruxa (The Witch, EUA)

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O longa, que levou o prêmio de melhor direção no Festival de Sundance, faz algo bastante raro para os padrões atuais. Consegue combinar no mesmo filme uma narrativa que desperta medo com reflexões mais profundas sobre o papel da mulher na sociedade medieval (que tem ecos bastante claros sobre como ela é vista em nosso mundo até hoje) e sobre os efeitos nefastos da obsessão com  o conceito católico de pecado. Isso tudo leva a um filme inteiramente tenso e assustador, cujo medo criado contrasta com a beleza das imagens internas, gravadas sob a luz de velas, lembrando as obras de alguns dos grandes mestres do Renascimento e também do período barroco. 4/5

As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto; Volume 2, O Desolado; Volume 3, O Encantado (idem, Portugal)

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O diretor português Miguel Gomes, que já tem no currículo o maravilhoso Tabu, de 2012, desta vez se lançou em uma adaptação livre dos contos de Xerazade (Crista Alfaiate) em que cada história usa seu espaço de forma inteligente e muitas vezes hilária para dar uma alfinetada nas políticas do governo português, que (segundo o próprio filme) estão levando o povo à pobreza. Aqueles de maior destaque são o brilhante “As Lágrimas da Juíza”, no segundo filme, e o engraçadíssimo “Os Homens de Pau Feito”, do primeiro. Grande parte deles consegue mostrar de forma simples que há toda uma série de pessoas e fatores por trás de cada problema e que ele não nasce isoladamente. Enquanto os dois primeiros longas da trilogia são verdadeiramente maravilhosos, no terceiro o diretor comete o erro de enveredar durante mais de uma hora por um tema que, ainda que marginalmente tenha ligação com o assunto tratado, é apresentado de maneira tediosa e parece ter sido incluído apenas por um capricho pessoal do cineasta, despertando muito pouco interesse em todos os demais. 4/5

Para Minha Amada Morta (idem, Brasil)

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Neste conto de vingança e, ao mesmo tempo, de construção de um reequilíbrio consigo mesmo, um homem descobre que a esposa morta o traiu com outro por um longo período de tempo. A partir dessa revelação, as ações do protagonista são moralmente bem questionáveis e constróem uma espécie de ponte com um passado que ele nunca viveu e do qual acabará reemergindo como uma pessoa diferente. Essa combinação entre vingança e amadurecimento é rara no cinema e o longa merece pontos por isso. Se contasse com um elenco e um roteiro mais afiados, certamente seria um filme memorável. 3/5

Dheepan: O Refúgio (Dheepan, França)

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Vencedor máximo de Cannes este ano, o filme do francês Jacques Audiard narra o cotidiano de três pessoas que concordam em formar uma família para conseguir um visto de imigração para a França. E é justamente quando revela aspectos íntimos da relação entre elas que o filme tem seus momentos mais tocantes e contundentes. Por outro lado, quando se foca na violência das gangues francesas, em dado momento se tornando um verdadeiro filme de ação, o roteiro perde o foco de seus personagens e termina desenvolvendo de forma apressada e desleixada seu relacionamento para um final previsível e muito pouco provável de acordo com o que nos foi mostrado até então. 3/5

Guerra (Krigen, Dinamarca)

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Não é nenhuma surpresa saber que toda guerra deixa marcas profundas em seus participantes. Milhares de filmes foram feitos e livros escritos sobre o tema. O que Guerra traz de diferente é seu foco em um aspecto pontual do conflito, cuja importância pode ser frisada por acontecimentos recentes envolvendo o exército norte-americano no Oriente Médio. Até que ponto vai a culpa de um general pela morte de civis em uma região em conflito? Dependendo das circunstâncias, poderia ser algo moralmente aceitável? A Justiça está preparada para puni-lo neste caso? São todas questões que o filme levanta (e, corajosamente, não responde) de maneira sutil, sem utilizar recursos chocantes ou sensacionalistas. Ainda que aparentemente inofensivas, no entanto, as últimas imagens vão fazer você refletir por um bom tempo. 4/5

Confira aqui a primeira parte do post.

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