Críticas: 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo | Primeira Parte

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Passamos da metade da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e já veio muita coisa boa (e outras nem tanto) por aí. Na mostra, foram exibidos alguns dos filmes mais premiados em festivais pelo mundo todo, entre eles o aguardado Son of Saul, favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, assim como surpresas vindas de diversos países.

A seguir, veja pequenas críticas de alguns dos principais filmes que passaram por aqui. Você também encontrará uma cotação ao final de cada parágrafo.

A Senhora da Van (The Lady in the Van, Reino Unido)

Maggie Smith raramente decepciona e quando pega um papel saboroso como este é capaz de fazer rir e chorar na mesma medida. É ela que eleva a qualidade do material, por vezes excessivamente irônico e maldoso e que em outros momentos investe sem muito sucesso em incursões metalinguísticas. Nada disso, no entanto, atrapalha a ótima química entre Smith e o empolado Alan de Alex Jennings, que constitui o verdadeiro coração da história. 3/5

Aferim! (idem, Romênia)

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É incomum encontrar filmes que fazem piada com alguns dos preconceitos mais esdrúxulos, e ainda mais raro caso se trate de um épico histórico que se passa na Romênia do século 19. Que o filme funcione e ainda faça pensar sobre o ridículo de alguns preconceitos que resistem até hoje é um dos muitos méritos da produção, que ainda conta com um excelente trabalho de reconstituição histórica e uma belíssima fotografia em preto e branco. 4/5

Coração de Cachorro (Heart of a Dog, EUA)

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O documentário da artista britânica Laurie Anderson traça uma série de reflexões filosóficas sobre a vida e nosso lugar no mundo a partir da história de sua cadelinha. Além de comovente, é um filme que induz um estado de quase transe a partir de imagens hipnóticas, uma trilha sonora diversificada e a voz embriagante de Anderson. Uma experiência imperdível. 5/5

Ixcanul (idem, Guatemala)

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Ixcanul é apenas o segundo filme enviado pela Guatemala para concorrer ao Oscar, mas, a julgar por sua qualidade, pode-se questionar por que o país não o faz com maior frequência. O longa conta a história de uma bela jovem prometida a um senhor de terras local, mas que faz de tudo para fugir de seu destino. De maneira por vezes engraçada (muito também devido à ótima personagem da mãe da protagonista) e por vezes dramática, a narrativa evolui para uma história de drama familiar que toca em alguns aspectos sociais bastante interessantes. 4/5

Virgem Juramentada (Vergine Giurata, Itália)

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No papel de uma mulher que assumiu a identidade de um homem através de uma promessa de virgindade, a ótima Alba Rohrwacher constrói uma personagem atormentada por um passado bruto, mas que também pode ser doce e dedicada. Ainda que o filme em si não traga nada de muito diferente, a mensagem positiva e esperançosa não deixa de surpreender e é muito bem-vinda dentro de uma história que tinha tudo para ter um final muito diferente. 3/5

Olmo e a Gaivota (idem, Brasil/Portugal)

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Petra Costa já havia demonstrado que seus documentários não seriam convencionais com o ótimo Elena. Olmo e a Gaivota, é claro, não foi diferente. Apesar de concebido inicialmente como a narrativa de um único dia na vida de uma atriz de teatro grávida, mudanças bruscas no estado da personagem fizeram com que o longa se tornasse um relato sobre sua crescente solidão e alheamento, em que se inserem diálogos ficcionais e uma narração em off baseada nas angústias reais da protagonista. Mesmo sem causar o mesmo impacto que Elena, o filme é ótimo e merece ser visto. 4/5

A Terra e a Sombra (La Tierra y la Sombra, Colômbia)

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O drama colombiano mescla elementos familiares e sociais em uma história sobre o presente, o futuro e certos fantasmas do passado. Filmado com elegância pelo estreante César Augusto Acevedo, o filme traz uma sensação de déjà vu ao apresentar o cotidiano de uma família castigada pelo tempo, pela terra e por condições exploratórias de trabalho. A trama central é menos envolvente que os poucos e ótimos momentos entre o patriarca (Haimer Leal) e a matriarca (Hilda Ruiz), separados há décadas por um passado que só é visto em tela por meio do pouco que restou dele. 3/5

Armadilha (Taklub, Filipinas)

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A narrativa desencontrada do diretor filipino Brillante Mendoza busca reconstituir o cotidiano conturbado dos habitantes pobres da região devastada pelo furacão Haiyan em 2013. Ainda que tenha boas intenções, a edição confusa e o excesso de personagens fazem com que a história sobre os destroços das famílias que restaram no local e a perda de fé em um futuro melhor tenha muito menos impacto do que deveria. 2/5

Que Viva, Eisenstein! – 10 Dias Que Abalaram o México (Eisenstein in Guanajuato, Holanda/México/Bélgica/Finlândia)

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Os trabalhos do diretor britânico Peter Greenaway podem ser tudo, menos convencionais. Nesta ficcionalização do período que o cineasta russo Eisenstein passou no México gravando um filme que nunca veio a público, Greenaway usa a montagem frenética e simbólica (um dos trunfos dos filmes do próprio Eisenstein) para contar o romance tórrido vivido entre o cineasta (Elmer Bäck), mostrado como um tolo espalhafatoso e sexualmente reprimido, e seu guia no país (Luis Alberti). As firulas visuais acabam cansando a partir da metade do longa, mas não deixa de ser um experimento estético bastante belo. 3/5

Desde Allá (idem, Venezuela)

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Este drama venezuelano imprevisível, que levou para casa o prêmio máximo do Festival de Veneza deste ano, é um suspense bastante eficiente e com resultados dramáticos impressionantes. Os atores Alfredo Castro e Luis Silva estabelecem um jogo de personalidades em constante mudança que deixa o espectador literalmente na ponta do assento, sem saber exatamente o que está acontecendo em momento algum. Mais do que o final, que pode surpreender alguns e confirmar a desconfiança de outros, é esse embate entre os dois, muito bem dirigido por Lorenzo Vigas, outro diretor estreante, que faz de Desde Allá uma experiência memorável. 5/5

Campo Grande (idem, Brasil)

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Com um roteiro simples e “previsível”, o filme nacional de Sandra Kogut, também diretora de Mutum, encanta principalmente pela naturalidade de suas atuações. Além de ter encontrado nos pequenos Ygor Manoel e Rayane do Amaral intérpretes surpreendentemente seguros, a atriz Carla Ribas, como uma mãe amargurada, dá um verdadeiro show de atuação. Nesses momentos mais naturais e nas situações reconhecíveis do dia a dia, o filme ganha peso e se torna absolutamente delicioso de se ver. 5/5

Cordeiro (Lamb, Etiópia)

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A escolha da Etiópia para representar o país ao Oscar é um singelo conto sobre um garoto pobre (Rediat Amare), deixado pelo pai para viver com um tio distante, e sua cabrinha de estimação, última lembrança da mãe morta. Ainda que a narrativa não se aprofunde suficientemente na personalidade e sentimentos dos personagens, o longa é interessante como crônica de uma infância despedaçada pela pobreza e pela tradição duramente imposta pela família e que, ainda assim, consegue encontrar uma fagulha de esperança no futuro. 3/5

Mate-me Por Favor (idem, Brasil)

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É admirável o que a diretora Anita Rocha procura fazer ao tentar mesclar os anseios e brincadeiras da juventude carioca com misteriosos assassinatos de mulheres na região e ainda com religião, funk e cultura pop. Pena que a mistura não dê liga e se perca em um emaranhado de cenas desnecessárias ou repetitivas e em atuações fracas de grande parte do elenco, diluindo a história em uma confusão desordenada de temas que pouco ou nada dizem. 2/5

Pardais (Þrestir, Dinamarca/Islândia/Croácia)

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Pardais já é lindo quando se foca na tentativa de adaptação do protagonista (Atli Oskar Fjalarsson) a um ambiente que não vê desde a infância.Velhos conhecidos, a antiga melhor amiga, as paisagens deslumbrantes, a claridade eterna. O que parece a narrativa de uma espécie de rito de passagem dele na comunidade, no entanto, sofre uma reviravolta inteligente e inesperada que redimensiona sua relação com os outros personagens e com o mundo à sua volta, obrigando-o a tomar uma decisão que pode afetar toda a sua vida. 4/5

Son of Saul (Saul Fia, Hungria)

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Possivelmente o filme mais elogiado de Cannes este ano e já cotado para vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro, Son of Saul é um daqueles raros longas que fazem jus a uma reputação estelar. Todo filmado em uma resolução mais achatada que a habitual, este é um filme claustrofóbico sobre um judeu, trabalhador de um campo de concentração durante a Segunda Guerra, que tenta dar um enterro digno a seu filho. A câmera que se foca quase exclusivamente em Saul  (Géhza Röhrig) mostra os horrores em torno do protagonista de maneira casual, em longos planos-sequência orquestrados com maestria pelo diretor estreante László Nemes (que já havia sido assistente do húngaro Béla Tarr), em que a situação vai se escalonando de forma desesperadora. A verdade é que, ao final, o filme deixa a sensação de ser um verdadeiro e inquestionável clássico instantâneo. 5/5

The Paradise Suite (idem, Holanda)

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Uma espécie de Crash – No Limite versão holandesa, este longa cruza os destinos de seus vários personagens em uma trama morna e esquecível. Ao mesmo tempo em que tenta conectar histórias sobre tráfico de mulheres e exploração social com outras um pouco menos polêmicas, o filme não consegue evitar cair no sentimentalismo barato e até mesmo no preconceito em alguns momentos. Além de não trazer nada de novo para um estilo narrativo que já se tornou mais do que batido, ele passa longe de ser um de seus exemplares mais interessantes. 2/5

La Memoria del Agua (idem, Chile)

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Não é nada que não tenha sido feito antes em filmes melhores, mas o longa do chileno Matíaz Bize ao menos mostra de maneira eficiente as diferentes formas que o luto pode assumir e, sem fazer concessões a reconciliações irreais, acompanha os tortuosos caminhos que um pai (Benjamín Vicuña) e uma mãe (Elena Anaya) precisam trilhar para superar (se é que esta é a palavra certa) a morte de um filho. O longa não evita totalmente a pieguice em certas cenas, mas o resultado geral acaba sendo positivo. 3/5

O Esgrimista (Vehkleja, Estônia)

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O Esgrimista é basicamente tudo que se poderia esperar de uma história emocionante que se passa em plena Guerra Fria dentro de um país dominado pela União Soviética. É um conto sobre medo e coragem que tem sucesso principalmente graças ao carisma de um elenco mirim bastante afiado. O longa não inventa a roda, mas, para ser justo, em nenhum momento se propõe a fazê-lo. 3/5

Príncipe (Prins, Holanda)

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Esta bizarra história sobre um garoto pobre que sofre preconceito por ser filho de um viciado e que está perdidamente apaixonado pela namorada do membro de uma gangue local pode não oferecer um profundo estudo de personagem, mas diverte com um visual colorido e músicas agitadas. Em grande parte inspirado por aspectos da cultura pop e ícones de consumo da moda, é difícil saber quando o filme está falando sério e quando parte inteiramente para a caricatura. De qualquer forma,  a jornada vale a pena. 3/5

Chronic (idem, EUA)

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Se a estratégia de puro choque deu certo (ao menos para alguns) no filme anterior do cineasta Michel Franco, o controverso Depois de Lucía, ela parece um patinho fora d’água neste filme sobre pacientes terminais, estrelado por um ótimo Tim Roth. O longa ganha pontos ao construir um protagonista crível, que deixa sua vida se envolver demais com a dos pacientes que trata. Porém, perde grande parte deles ao apostar em um final desnecessário, feito para impressionar, mas que acaba retirando grande parte do impacto que havia sido desenvolvido anteriormente. 2/5

Boi Neon (idem, Brasil)

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Ao exibir um recorte ficcional da vida dos peões que existem por trás das vaquejadas deste Brasil, o diretor Gabriel Mascaro investe em visuais esplendorosos sobre um pano de fundo de desolação, em que as carnes dos animais explorados se confundem com as dos seres humanos que dividem o espaço com eles. O filme, premiado em festivais no exterior, mostra o cotidiano difícil porém belo de Iremar (Juliano Cazarré) e Galega (Maeve Jinkings), enquanto faz comentários sutis sobre família, amor e consumismo, quase sempre com muito bom humor. 4/5

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