Peter Pan | Crítica

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Clássicos são clássicos porque suas histórias não envelhecem, são contadas e recontadas por gerações, influenciando pessoas das mais diferentes culturas. É o caso de Peter Pan, que virou até nomenclatura de síndrome, sobre aquelas pessoas que se recusam a amadurecer e assumir que são adultas (o que vem acontecendo com frequência nas últimas gerações). A fábula infantil de J. M. Barrie, que data de 1904, sobre o menino que vive na Terra encantada do Nunca, não cresce jamais e vive em guerra com o capitão Gancho, é claro que ganhou adaptações nos cinemas, isso desde a animação da Disney de 1953, algumas outras menores, até que nas três últimas décadas grandes estúdios vem tentando criar outras histórias baseadas no personagem.

Bem, é aí que mora o perigo, criar algo original a partir de um clássico é um risco. Hook (1991), de Steven Spielberg, foi talvez a mais ousada, ao mostrar que Peter (Robin Williams) se apaixonou pela filha de Wendy (Maggie Smith) e voltou a viver na Terra, cresceu e se esqueceu de como era ser criança, mas precisa retornar à Terra do Nunca quando o Capitão Gancho (Dustin Hoffman) sequestra seus filhos. Como era comum nas obras infanto-juvenis de Spielberg, a trama gira em torno do conflito pai e filho e na valorização da família e da simplicidade da vida. Já na década seguinte, em 2003, foi a Inglaterra que produziu sua adaptação da obra (afinal é o país da qual se origina), e resolveram não ousar, a contam da forma como está no livro. Sem um elenco estelar como o dos anos 90, consegue transmitir a essência da história com mais competência.

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E eis que Hollywood tenta novamente agora, mas para quê contar uma história que todo mundo já conhece, não é mesmo? É melhor usar os personagens famosos para chamar a atenção do público e criar uma história de origem! Muito original. Só que não.

Peter Pan é mais uma daquelas produções absolutamente desnecessárias para explicar algo que não precisava ser explicado. Usa e abusa dos efeitos visuais e sequências de ação intercaladas num fiapo de história, o roteiro parece que não saiu do esboço: Peter é um menino que foi abandonado pela mãe e cresce num orfanato de freiras malvadas durante a Segunda Guerra, num dia é sequestrado com outros meninos pelo pirata Barba Negra, chega à Terra do Nunca e vai traballhar para ele, descobre que é “o escolhido” e deve salvar o mundo encantado.

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O elenco apresenta Levi Miller como o protagonista, que não compromete, mas também não entrega muito além de sua carinha linda. Personagens conhecidos, porém secundários da história original aqui ganham mais espaço, afinal não temos ainda Wendy e seus irmãos, Sininho (que até faz uma ponta), ou os meninos perdidos. No lugar deles vemos mais de Tiger Lilly, ou princesa Tigrinha, que foi uma das piores escalações dos últimos tempos, já que a personagem, indígena, é representada pela caucasiana Rooney Mara, que deve continuar a fazer seus dramas sérios e esquecer os blockbusters, já que não tem carisma algum para esse tipo de filme. Mais uma prova de que os grandes estúdios ainda não aceitam a diversidade étnica em protagonistas.

Uma das maiores alterações da hstória com certeza é a origem do Capitão Gancho, que aqui ainda não é capitão, e acaba tornando-se parceiro de Peter em suas empreitadas, inclusive salvando-lhe a vida (mais de uma vez). Garrett Hedlund tenta brincar com o personagem, mas perde a mão. O único do elenco que realmente se sobressai é o vilão Barba Negra de Hugh Jackman, que parece estar se divertindo. Afinal não teria como não se divertir cantando Smells Like a Teen Spirit do Nirvana ou Hey, Ho, Let’s Go! dos Ramones para um monte de crianças, ser cruel com elas usando um figurino e maquiagem tão extravagantes.
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O diretor, Joe Wright, é conhecido por suas adaptações literárias, mas antes havia transposto para as telas apenas romances adultos, como Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação. É conhecido por fazer filmes visualmente belíssimos, com fotografia e direção de arte primorosos. Não deixou de fazer um filme plasticamente belo novamente, porém os efeitos de CGI são tantos que parece que estamos vendo apenas imagens criadas em computador em mais da metade do tempo. A direção foi toda pensada em 3D, e junto aos efeitos e sequências de ação confusas, podem causar dor de cabeça ao final da seção.

Destarte, o Peter Pan da década de 10 do século XXI é um retrato de nossa época, lindas imagens e muita ação, porém, vazio. O mito da eterna criança ficou só para as sessões de terapia daqueles que não conseguem amadurecer.

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Peter Pan (Pan)

Peter Pan - poster nacionalDireção: Joe Wright

Roteiro: Jason Fuchs, baseado nos personagens criados por J.M. Barrie

Elenco: Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Levi Miller, Amanda Seyfried, Cara Delevingne, Aaran Mitra, Aaron Monaghan, Adeel Akhtar, Adnan Mustafa, Alexander Bracq, Ami Metcalf, Amy Morgan, Anastasia Harrold, Andres Austin Bennett, Ben Smith, Chris Marchant, Clem So, Deborah Rosan, Debra Leigh-Taylor, Emerald Fennell, Gabriel Andreu, Harry Lister Smith, Jack Charles, Jack Lowden, Jacob Greener-Tofts, Jamie Beamish, Jamie Wilson, Jimmy Vee, Joe Kennard, Julian Seager, Kathy Burke, Kurt Egyiawan, Kwame Augustine, Leni Zieglmeier, Lewis MacDougall, Nicholas Agnew, Nicholas Marshall, Nonso Anozie, Oliver Payne, Oscar Hatton, Paul Kaye, Phill Martin, Rafael Pereira-Edwards, Spencer Wilding, Tae-joo Na, Tomislav English.

Gênero: Aventura

Duração: 111 minutos

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