Que Horas Ela Volta? | Crítica

que_horas_ela_voltaPoucas relações da sociedade brasileira são tão complexas ou reveladoras sobre nós mesmos quanto a que existe entre patrões e empregadas domésticas. Em uma das cenas de Que Horas Ela Volta?, drama brasileiro que foi sensação nos festivais de Sundance e Berlim este ano, angariando prêmios de atuação e do público, a doméstica Val (Regina Casé), que mora no serviço, recebe pela primeira vez na casa dos patrões a filha Jéssica (Camila Márdila), que não vê há mais de 13 anos.

Quando Val sai da sala de jantar para buscar a filha, momento que precede uma sequência desconfortável em que a jovem é tratada mais como um objeto de curiosidade que como uma pessoa, sua patroa Bárbara (Karine Teles) solta o seguinte comentário: “Que bonitinho, ela fica toda feliz.”

Esse breve momento é emblemático da relação de Val com a família, da qual a doméstica “praticamente” faz parte, como Bárbara faz questão de lembrar. É difícil, no entanto, definir esse status, já que todos os outros membros da família (com a notável exceção de Fabinho, para quem Val atuou mais como mãe que a própria Bárbara) só se dirigem a ela para ordenar ou pedir algo, sempre com calculada educação. Seu quarto é o menor da casa e a patroa fala com ela, ainda que inconscientemente, em um tom próximo do que muitos utilizam com crianças, como se sua capacidade de compreensão estivesse abaixo da dos outros.

No filme, o código dessa relação de trabalho é apresentado como algo estabelecido há muito tempo e cujas regras, ainda que não estejam inscritas em nenhuma grande tábua sagrada, são bem conhecidas por ambas as partes. Nesse sentido, a diretora e roteirista Anna Muylaert parece acreditar de forma esperançosa que a juventude, impactada pelas mudanças sociais ocorridas no país nas últimas décadas, ainda desconhece as nuances desse jogo e pode ser o principal agente da mudança.

que_horas_ela_volta2É exatamente por isso que a chegada de Jéssica, acolhida inicialmente com a mesma boa vontade condescendente com que Val é sempre tratada na casa, revela as brechas existentes no discurso de integração repetido por Bárbara. Ao aceitar inadvertidamente o convite do pai, Carlos (Lourenço Mutarelli), para tomar um sorvete de marca mais cara, ao invés daquele reservado para o paladar dos empregados, Jéssica comete uma falta grave da qual não se dá conta.

“Quando eles oferecem alguma coisa, é por educação, é porque eles têm certeza que a gente vai dizer não”, afirma Val, mostrando uma amarga lucidez sobre sua situação na casa, ao mesmo tempo em que tenta ensinar uma lição à filha.

Casé e Márdila, ambas em performances excepcionais, constróem uma relação tanto crível quanto emocionante em tela. Regina como uma mulher que, apesar de expansiva e de pender às vezes para o cômico, traz dentro de si uma série de contradições e sofrimentos que nunca pode externar em seu dia a dia, presa como está àquela família e ao seu pequeno quarto nos fundos do casarão. Não é à toa que Muylaert a retrata simbolicamente atrás das grades em uma cena inicial.

Já a atuação de Márdila acontece mais a partir de olhares, nos quais se revelam tanto sua confiança em si mesma quanto o desconforto frente a diversas situações, assim como uma espécie de melancolia. Quando a mãe diz que ela é arrogante, a jovem se defende e explica sua rebeldia em relação à forma como a mãe age e é tratada: “Não me acho melhor que ninguém, só não me acho pior”.

que_horas_ela_volta3Se o filme possui algum problema, porém, é justamente pesar um pouco demais a mão ao retratar os membros da família, que vivem em uma casa em formato de pirâmide no Morumbi, bairro de classe alta de São Paulo, deixando de lado a sutileza de que o drama se utiliza no início.

Fabinho (Michel Joelsas) e o pai refletem uma realidade herdada dos tempos mais antigos da escravidão: o desejo de dormir com a filha da empregada. No caso do primeiro, pela pressão existente para que comece a namorar e perca a virgindade; no do segundo, devido à frustração com a própria carreira e com um casamento infeliz. Assim, ao sentir que Jéssica admira seu trabalho, usa o dinheiro e sua elevada posição social (“Todo mundo dança, mas sou eu que ponho a música”), únicos atrativos que conhece e acredita ter, para unir-se a ela de alguma forma.

A construção de Bárbara é ainda mais unidimensional, já que ela é apresentada desde o início com uma certa aura de falsidade, que não demora muito a evoluir para um quadro doentio de nojo e preconceito. Por mais maniqueísta que seja a personagem, no entanto, é difícil discordar que, de fato, há uma parcela expressiva da população que pensa e age da mesma maneira.

Durante parte da vida em que deveria ter cuidado de Jéssica, Val foi praticamente uma mãe para Fabinho. E é tratada por todos como praticamente da família, ainda que nenhum deles tenha se dado ao trabalho, ao longo de 13 anos, de perguntar o nome de sua filha. Ou mesmo que sempre cuidem das necessidades da doméstica de forma displicente, como algo de segunda linha.

que_horas_ela_volta4Ao final, o maior mérito de Que Horas Ela Volta? é mostrar, sem tentar criar nenhuma grande tese social, o quanto de distância da realidade pode caber dentro desse “praticamente” e ainda apontar um futuro de esperança em relação à quebra de um círculo vicioso de pais que delegam a terceiros a criação dos próprios filhos.

Cotação-5-5Que Horas Ela Volta? - posterQue Horas Ela Volta (Que Horas Ela Volta?)

Direção: Anna Muylaert

Roteiro: Anna Muylaert

Elenco: Regina Casé, Michel Joelsas, Camila Márdila, Antonio Abujamra, Helena Albergaria, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Luis Miranda, Theo Werneck.

Gênero: Drama

Duração: 112 minutos

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