Perdido em Marte, de Andy Weir

book-martian-weir-650Correndo o risco de ser extremamente conciso, pode-se resumir a história de Perdido em Marte, do autor americano Andy Weir como uma mistura de Robson Crusoé e a história dos 33 Mineiros presos numa explosão numa mina no Chile em 2010. Ambas as histórias tratam de um isolamento involuntário e sobre o instinto de sobrevivência do homem.

O autor estreante Andy Weir é filho de um físico e tem estudo em ciência da computação, ele começou a fazer pesquisas para o livro em 2009 e todo esse trabalho somado à sua experiência com campo científico permitiu que o romance fosse bem realista, tanto em termos técnicos quanto nas reações e reviravoltas nas histórias.

Tendo dificuldades em encontrar uma editora para publicar seu material, Weir decidiu criar um site e distribuir gratuitamente aos poucos o livro em capítulos. Rapidamente o autor começou a ganhar uma pequena base de fãs, que o solicitaram a juntar todos os capítulos divulgados e lançar o livro pela Amazon. A edição online, vendida a um dólar (o preço mínimo no site da Amazon) vendeu cerca de 35.000 cópias em três meses, o alcance foi bem maior do que quando o livro estava disponível gratuitamente pelo seu site pessoal. O sucesso chamou a atenção de algumas editoras, que posteriormente lançaram o livro em versão de áudio e impressa e, novamente, foi um sucesso comercial em ambas as mídias.

Voltando as atenções para o conteúdo do livro, Perdido em Marte relata a história do astronauta Mark Watney que, bem… se perdeu em Marte (duh!). Após uma severa tempestade de areia no planeta vermelho, Watney sofre um acidente e é dado equivocadamente como morto pelo resto de sua tribulação (e consequentemente pela NASA e pelo resto do mundo), que não tem outra escolha senão abortar a missão e voltar para a Terra sem o companheiro.

DIÁRIO DE BORDO: SOL 69

Marte não é desconhecido para mim. Estou aqui há muito tempo. Trata-se de um deserto estéril e estou completamente sozinho aqui. Eu já sabia disso, é claro. Mas existe uma diferença entre saber e de fato vivenciar algo. À minha volta, não há nada, apenas poeira, pedras e um infinito deserto em todas as direções.

Assim, o personagem terá que usar todo o seu conhecimento em botânica, química e física para improvisar condições que lhe permitam sobreviver num planeta com ar rarefeito, gelado e completamente deserto. E é nesse momento que o leitor percebe a carga de pesquisa que Weir fez antes se sequer começar a escrever a primeira página do livro. Termos técnicos, reações químicas e veículos da NASA passam a ser um vocabulário comum nos diários de bordo do astronauta. A princípio, esse seria um fator negativo, já que o público-alvo passa longe de conhecer os termos científicos, e eles estão presentes a todo momento, porém, a forma como Weir relata-os torna a leitura mais agradável, sem desmerecer a inteligência do leitor.

Acrescido a isso, temos um protagonista com um bom senso de humor, aliás, em certos momento percebe-se que Weir hesita em mostrar um lado mais dramático do personagem, o que seria de se esperar em alguém numa situação como essa, e talvez esse tenha sido o único deslize do livro, o protagonista Mark é basicamente um nerd que curte RPG e odeia disco music, mas que raramente demonstra o peso de estar sozinho num ambiente extremamente inóspito e sujeito à morte a qualquer passo mal calculado.

Mark percebe essa situação, e a deixa clara em diversos momentos ao leitor, mas parece não se preocupar de fato com a possibilidade de se tornar o primeiro homem a morrer em Marte. A tranquilidade e o humor sarcástico a todo o momento leva o leitor até a questionar se uma situação como aquela seria de fato traumática. É, em suma, um livro de sobrevivência que não tem foco em dramas, mas somente na tensão da situação e na expectativa de como Watney irá resolver este ou aquele problema que aparecem na narrativa.

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Uma espécie de mapa que acompanha o livro para que possamos nos situar em Marte

Surpreendentemente o livro possui muitas reviravoltas durante toda a estadia de Mark em Marte, e a principal delas é acompanhada de uma mudança no estilo de escrita do autor. As 50 primeiras páginas são dedicadas aos relatos de Mark Watney tentando se comunicar com a Terra e sobreviver nos primeiros dias após o acidente. Até aí a narração é em primeira pessoa, e só temos noção do que está acontecendo pela visão do personagem.

Assim que a comunicação com a NASA é feita, e a Terra passa a saber que o astronauta sobreviveu, Weir começa a intercalar a narração em primeira pessoas (exclusiva para o protagonista) e a narração em terceira pessoa (para os acontecimentos na Terra e eventualmente alguns relatos em Marte).

Weir ainda dedica uma parte do seu livro para tratar de pontos de vistas diferentes da situação. A primeira é a da imprensa, que passa a olhar cuidadosamente o trabalho da NASA após a confirmação de que o astronauta, anteriormente tido como morto, estava na verdade vivo e pedindo socorro a milhares de anos-luz daqui. A atenção lembra aquela que a imprensa mundial teve com os 33 mineiros do Chile, como citei no início desse artigo, e chega a ser ainda mais incisiva quando esta passa a pressionar e questionar algumas medidas tomadas pelo órgão espacial.

Um outro ponto de vista que o livro ainda destaca é o da tripulação que abandonou Mark em Marte. Os demais astronautas, que recebem pouca atenção no começo da história, passam a ter um importante papel no resgate do companheiro, incluindo aí missões potencialmente suicidas (São astronautas!” diz um personagem em um dado momento pra demonstrar alguns atos heroicos).

Embora o final do livro não se dê muito ao trabalho de concluir todos esses pontos de vistas (e o “mais prejudicado” é o da imprensa mundial), a solução encontrada deixa inevitavelmente uma desejo de saber o que acontece depois. Não é um desejo que justifique uma continuação, e portanto é algo que o autor poderia ter incluído sem muitos problemas.

Os direitos do livro foram vendidos para a Fox, e Ridley Scott irá dirigir a versão que terá Matt Damon (pessoalmente, a melhor escolha para o personagem) como o astronauta Mark Watney. O filme ainda conta com Jessica Chastain, Kate Mara, Michael Peña, Kristen Wiig, Donald Glover, Jeff Daniels e Naomi Scott. A estreia está prevista para o dia 1 de outubro aqui no Brasil.

Cotação-3-5

PERDIDO_EM_MARTE_capaTítulo Original: The Martian

Autor: Andy Weirandy weir

Tradução: Marcello Lino

Páginas: 336

Formato: 16 x 23 cm

Peso: 450 g

Acabamento: Brochura

Lançamento oficial: 17/10/2014

3 comments

  1. […] Pouco tempo antes da estreia de Perdido em Marte nos cinemas, vi na minha timeline uma das primeiras resenhas internacionais, cujo título dizia que o longa de Ridley Scott era uma espécie de “anti-Interestelar“. Acho que estava sem tempo de abrir o artigo para lê-lo na hora, e depois não lembrava mais a sua fonte, mas fiquei encucada com aquilo, já que eu também não tinha lido o livro do qual se origina e nem a resenha sobre ele de meu colega Thiago Melo, que você encontra aqui. […]

    Curtido por 1 pessoa

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