Adeus à Linguagem | Crítica

“A ideia é simples: Uma mulher casada e um homem solteiro se encontram. Eles amam, brigam, trocam socos. Um cão vaga entre a cidade e o campo. As estações passam. O homem e a mulher se encontram de novo. O cão fica entre eles. O outro está em um, o um está no outro e eles são três. O primeiro marido quebra tudo. Um segundo filme começa: o mesmo que o primeiro, e ainda assim não. Da raça humana passamos à metáfora. Isso termina em latidos e choro de bebê. Ao mesmo tempo, teremos visto pessoas falando sobre a falência do dólar, a verdade na matemática e a morte de um pintarroxo.”

adeus_a_linguagemSe a sinopse de Adeus à Linguagem pelo próprio Jean-Luc Godard parece um pouco vaga, ela certamente não chega aos pés do que se vê em tela. Desde que iniciou sua carreira no cinema em 1960 com Acossado, um filme surpreendentemente inovador até mesmo para os padrões atuais, o diretor tem sido um cineasta experimentalista e que busca fugir de algumas regras preestabelecidas não só em sua forma de filmar, mas também de uma maneira geral no exercício de contar histórias.

Na realidade, seus experimentos com diferentes linguagens talvez não tivessem como desembocar em algo muito diferente de Adeus à Linguagem, que, como o nome já diz, é uma experiência radical sobre um tipo de não linguagem.

O próprio uso das três dimensões no filme é o mais transgressor já visto no cinema, com Godard e seu diretor de fotografia, Fabrice Aragno, quebrando diversas regras de uso da tecnologia. Palavras são projetadas umas sobre as outras, imagens são filmadas tão próximas que é impossível vê-las nitidamente na tela e, em alguns momentos, o filme sobrepõe duas cenas diferentes, causando um efeito no mínimo perturbador na mente do espectador.

adeus_a_linguagem2Algumas sequências impressionam pelo uso certeiro da profundidade, raramente encontrado de forma tão contundente em qualquer outro lugar. Um dos melhores elogios que se pode fazer ao filme é que este talvez seja o primeiro longa da história em que o 3D é verdadeiramente indispensável.

A transgressão, porém, não fica apenas por aí. É muito difícil saber o que está acontecendo durante a maior parte do longa. Ou mesmo se deveria estar acontecendo algo que fizesse sentido. O filme conta a história de dois casais que se apaixonam e vivem juntos (e pelados) por algum tempo em uma casa. As cenas aparecem de forma não-linear e não há nenhuma sequência narrativa coerente ligando os acontecimentos, o que deixa a interpretação da história a total cargo do público.

Em meio a tudo isso, há cenas em que outras pessoas, que aparecem de forma aleatória na tela, filosofam ou falam sobre a vida ou qualquer outro assunto. Belíssimas imagens de um barco sobre as águas, de plantas com cores manipuladas, de crianças andando sobre um gramado, de uma floresta desabitada são mostradas também de maneira aparentemente fortuita.

adeus_a_linguagem3De fato, o diretor faz jus ao título de seu filme. Não há qualquer sistema ou forma organizada de comunicação que constitua uma linguagem, em sua concepção mais aceita. Um dos pontos mais interessantes, no entanto, é que nos locais da Suíça em que o longa foi gravado a palavra adieu pode ser usada tanto como adeus quanto como olá.

Isso pode significar que se despedir de uma linguagem instituída representa também abrir as portas para uma nova, que apenas possui códigos com os quais ainda não estamos familiarizados. De certa forma, todos têm a chance de construir significados próprios a partir do filme, através de diferentes interpretações.

É possível que Godard tenha encontrado algum tipo de elevação psíquica ou emocional através do abandono da linguagem. Quando o cãozinho Roxy (que pertence ao próprio cineasta) entra em cena, e começamos a ver as coisas por seu ponto de vista, é possível entender um pouco melhor o que o diretor pretendia. Do ponto de vista do experimentalismo cinematográfico e do resultado alcançado a partir dele, é bastante compreensível que o diretor considere este seu melhor filme.

Cotação-5-5Adeus à Linguagem - poster nacionalAdeus à Linguagem (Adieu au Langage)

Direção: Jean-Luc Godard

Roteiro: Jean-Luc Godard

Elenco: Héloïse Godet, Kamel Abdeli, Richard Chevallier, Zoé Bruneau, Christian Gregori, Jessica Erickson, Marie Ruchat, Jeremy Zampatti, Daniel Ludwig, Gino Siconolfi, Isabelle Carbonneau, Alain Brat, Stéphane Colin, Bruno Allaigre, Alexandre Païta, Jean-Philippe Mayerat, Florence Colombani, Nicolas Graf, Roxy Miéville, Dimitri Basil, Jean-Luc Godard.

Gênero: Drama

Duração: 70 minutos

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