Pequenas Joias do Cinema | O Amor em Cinco Tempos

5x2 3

Antes de começar a falar sobre o filme em questão, deixe-me esclarecer um pouco sobre quem é o diretor e roteirista François Ozon. Começou a carreira no final dos anos 1980 escrevendo e dirigindo curta-metragens, e quando passou para os longas, conquistou a crítica e um público fiel a suas obras muito humanas, mas por vezes com toques de surrealismo, por assim dizer, afinal quem esperava Catherine Deneuve cantando e dançando de repente numa cena até então cheia de tensão e suspense em 8 Mulheres (2002)? Ou o drama de uma operária francesa, mãe solteira, cujo bebê de repente cria asas (literalmente), em Ricky (2009)?

Mas o cinema de Ozon não é só feito de humor negro e realismo fantástico, sua filmografia é extensa, é um dos diretores mais prolíficos atualmente na França, e são seus dramas que mais cativam (inclusive teve lançado recentemente por aqui seu novo drama, Uma Nova Amiga). E o filme sobre o qual escrevo é um desses dramas realistas, que apesar de ser um de seus longas menos conhecidos, é provavelmente um dos que mais causam identificação no público. Sua obra mais subestimada, uma pequena joia do cinema.

5x2 1

O Amor em Cinco Tempos (um título que pode enganar o público leigo), é sobre cinco fases de um relacionamento amoroso ao longo de alguns anos, do começo ao fim, só que ao contrário. Ozon subverteu a edição tradicional e montou sua história com cinco partes distintas, cada uma com seu desfecho, separadas por uma trilha sonora peculiar, com música clássica e uma trilha mais pop dentro das histórias, como a canção Sparring Partners, do italiano Paolo Conti. Como o título original mostra, 5×2 (cinco vezes dois), vemos cinco momentos da vida de Gilles (Stéphane Freiss) e Marion (Valeria Bruni-Tedeschi), só que começando pelo divórcio e voltando no tempo até pouco antes do início do relacionamento.

Essa subversão da linha do tempo pode frustar algum romântico que espera por finais felizes Hollywoodianos, mas hello! Estamos falando do cinema francês! E justamente começar pelo fim nos instiga a descobrir o que aconteceu para chegarem àquele fim de história tão depressivo. Na primeira/última fase da história vemos o casal com aspecto abatido, como se carregassem um fardo pelo relacionamento malsucedido, estão assinando os papeis do divórcio, divindo bens e custódia do filho. Mas há uma surpresa, nada é tão trivial no cinema de Ozon. O casal vai a um hotel de aspecto barato para uma última transa, mas é claro que aquilo não acaba bem.

5x2 4

Depois voltamos para o momento em que os primeiros sinais de crise aparecem, aquele momento de um relacionamento em que pequenas coisas são usadas para ferir o outro, desde ações banais, como não passar água nos pratos antes de colocá-los na lavadora, até declarações constrangedoras e humilhantes na frente de terceiros. Tudo muito sutil, mas que vai envenenando um relacionamento aos poucos. Uma morte lenta. Vemos então que a primeira (?) crise aparece no nascimento do filho. Gilles parece tentar fugir da responsabilidade, mas em vão, é claro. Sabemos que depois (que vimos antes), ele é amoroso com o menino. Mas seu nascimento faz surgir alguma mágoa ali, que nunca é discutido abertamente. E ressentimentos sufocados são portas para crises. Mais uma elipse, e vamos ao casamento, a fotografia então já é mais colorida e o casal está genuinamente feliz. Mas como nada é trivial, há uma escapadela de Marion que termina de forma sinistra.

A história é sobre o casal, mas vemos claramente como a vida pesa muito mais para Marion, afinal, ela é a mulher, sempre a parte mais julgada e agredida, aquela que tem que aguentar tudo, inclusive “estupros consentidos”. E Gilles é aquela figura de homem que foge a todo custo de encarar os problemas, mesmo que viva miseravelmente triste, que mantém uma relação por comodismo até encontrar outra mulher com quem possa se sentir seguro, mesmo que jamais admita insegurança. Oa atores estão perfeitos nos personagens, dão uma veracidade inigualável a Gilles e Marion, inclusive no aspecto físico, nos olhares que transmitem ora jovialidade, ora o peso da experiência.

5x2 2

Por último vemos como o casal começou a se envolver, aí sim, de uma forma trivial, como qualquer casal, e termina com uma estranha sensação de esperança, imaginando o que poderia ter dado certo. Este é o grande feito do filme, que não acaba com a esperança de ninguém sobre relacionamentos, eles começam e terminam, seja por falta de amor, por fatores externos, seja até que a morte os separe, e isso é a bagagem que carregamos para outros relacionamentos e pela vida, algo que todo mundo passou ou um dia passará. E afinal todo relacionamento humano tem seus mistérios, e François Ozon sabe explorar isso como ninguém.

 

5x2 posterO Amor em Cinco Tempos (5×2, França, 2004)

Gênero: Drama

Direção: François Ozon

Roteiro: François Ozon, Emmanuelle Bernhein

Elenco: Valeria Bruni-Tedeschi, Stéphane Freiss, Geraldine Paillas, Françoise Fabian,Michael Lonsdale

Produção: Olivier Delbosc, Philippe Dugay, Marc Missonier

Trilha Sonora: Philippe Rombi

Duração: 90 min.

Ano: 2004

One comment

Deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s