Pequenas Joias do Cinema | Jogo de Cena

“Eu sei que eu me amo tanto, eu me adoro tanto, que já nem esquento mais com essa coisa de amor.”

“…e ai eu entendi o que era Candomblé: era Freud na prática.”

“Deus é bom, mas não comigo. Ele não chega a me convencer ainda porque ele não me respondeu até hoje o porquê ele tirou meu filho.”

“Eu não conseguia falar com meu pai porque eu achava que ia fazer mal pra ele”

“Eu tenho tantas pessoas que eu queria acreditar que estivessem vivas em algum lugar. Tantas.”

Marília Pêra e Coutinho em Jogo de Cena
Marília Pêra e Coutinho em Jogo de Cena

“Jogo de Cena”, documentário-ficção dirigido por Eduardo Coutinho em 2006, começa com um anúncio publicado num jornal: “CONVITE: Se você é mulher com mais de 18 anos, moradora do Rio de Janeiro, tem histórias para contar e quer participar de um teste para um filme documentário, procure-nos.” Essa é a única informação prévia que temos do que irá acontecer nos minutos seguintes. Em junho de 2006, 23 mulheres que responderam ao anúncio foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Três meses depois, Coutinho chamou algumas atrizes para interpretarem, à sua maneira, os relatos das mulheres escolhidas.

Acontece que a não-linearidade do filme faz com que por diversas vezes a gente se confunda e não saiba perceber se aquela história é contada por uma atriz ou pela pessoa que de fato a viveu. E esse é a primeira razão pela qual costumo indicar o filme pra quem se interessa por atuação: a linha que separa o real e a ficção, o ponto em que o ator deixa de vender aquela verdade e não convence mais, ou o contrário, que consegue te enganar durante toda a projeção. Em uma entrevista sobre o filme, a atriz Fernanda Torres confessou:

Subi as escadas concentrada e sentei na cadeira em frente à câmera em estado de representação. Coutinho soltou uma exclamação em tom alto: “Nossa, você falou igual a ela”. Eu tentei seguir em frente, mas ele insistiu em me chamar pelo meu nome. Pânico. Coutinho não percebeu e continuou a me perguntar sobre o melhor lugar para ele se posicionar, mencionou a sua falta de jeito, pediu que eu dissesse a hora de começar, mas a hora já havia passado. Esfriei. Não teve mais volta. Tentei atacar a fala, mas um diabo insistente me sussurrava no ouvido: “É mentira!”. Parei. Foi melhor parar, admitir que eu não acreditava no que estava dizendo. Tirei zero na prova.

É nesse momento de frustração de Fernanda Torres que o filme tem uma virada importante, e o foco deixa de ser a simples brincadeira de identificar quem é atriz e quem não é, e se aprofunda num verdadeiro estudo do ser humano, explorando e escancarando histórias comuns que acontecem com algum conhecido nosso, mas que nem sempre damos a devida atenção.

Representando o elo que liga todas essas histórias, está Coutinho, que “interpreta a si mesmo” em diversos momentos quando está entrevistando as atrizes, e “sai do personagem” quando se interessa em saber o que elas acharam do depoimento das candidatas escolhidas, representando a figura do espectador que ao mesmo tempo está curioso e encantado com o que está acontecendo.

xavier_aleta-jogodecenaEmbora não tenha uma “história” por assim dizer, Jogo de Cena já valeria a pena somente pelos relatos contados, afinal, todas ali são a mesma personagem, são mulheres que decidiram ser protagonistas de suas vidas, que possuem problemas como todo mundo, mas que não desistem e seguem a vida com esperança de alcançar um objetivo. São mulheres que possuem suas fragilidades, suas vergonhas e seus puderes, mas que ao mesmo tempo mostram coragem em expor suas fraquezas diante das câmeras.

Seja uma relação fragilizada entre mãe e filha, uma perda de um filho ou uma gravidez precoce, todas essas histórias tem sua validade e, uma vez externadas, elas não possuem mais donos, e podem ser contada de diversas maneiras, por diversas pessoas. É por essa razão que os nomes das personagens não são revelados em momento algum.

Em um determinado momento do filme, Fernanda Torres diz que quando se interpreta alguém real, sempre haverá aquela “pessoa de verdade” pra esfregar na tua cara o que você está fazendo de diferente. E isso fica claro com a montagem intercalada de certas histórias, mas ao mesmo tempo Coutinho mostra quem, independente de verídica a história que estamos vendo, a partir do momento que ela é contada, ela passa a ser verdadeira.

jogodecena-posterJogo de Cena (Idem, 2007)

Direção: Eduardo Coutinho

Elenco: May Sheyla, Gisele Alves Moura, Andréa Beltrão, Débora Almeida, Fernanda Torres, Sarita Houli Brumer, Marília Pêra, Lana Guelero, Jeckie Brown, Maria de Fátima Barbosa, Alela Gomes Vieira, Maria d’Élia, Claudiléa Cerqueira de Lemos

Fotografia: Jacques Cheuiche

Produção: Matizar, VideoFilmes

Cor, 105 min

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