Videogame não é pra todo mundo

No fim dos anos 90 eu era um dos poucos meninos da rua a ter um videogame em casa. Jogava Mario Bros praticamente todo dia no meu Super Nintendo e trocava as fitas que já tinha zerado com um vizinho. Muitas vezes eu passava horas na locadora escolhendo um jogo pra passar o fim de semana jogando, mas muitas vezes acabava voltando pra casa com o mesmo “Sunset Riders” de sempre. O jogo era simples, você controlava um cowboy e tinha que superar alguns obstáculos. Outro jogo extremamente comum entre eu e meus amigos era Power Rangers, no qual podíamos jogar de dupla e assim superar as fases enfrentando os bonecos de massa e usando superpoderes quando a gente juntava energia suficiente pra morfar.

sunset-ridersQuase vinte anos depois, muita coisa do que relatei no parágrafo acima já não é mais a mesma. Apesar do videogame ter se tornado mais comum hoje em dia, ainda não é todo mundo que pode pagar R$2.000,00 num console ou gastar bem mais que isso pra montar um PC adequado para games. Entretanto, os jogos que outrora tinham controles fáceis e era mais descomplicados deram lugar a jogos cada vez mais pesados, com comandos mais complexos e com histórias bem mais profundas, a ponto de parecer apenas uma desculpa pra aumentar a duração do jogo e justificar o preço de capa.

Não que haja problema nisso, pelo contrário. Quem leu minha review de The Last of Us sabe o quanto gostei da atmosfera do jogo e de como os temas foram tratados, mas entre os gamers criou-se uma espécie de clube do bolinha em que somente game hardcores (e jogadores de games hardcores) são verdadeiros gamers. Essa cultura bairrista tende a desconsiderar qualquer um que não goste ou simplesmente não tenha habilidade pra jogar perfeitamente um jogo longo como é The Last of Us, por exemplo. É fácil de entender, ninguém nasce um gamer nato, isso se adquire com anos de experiência, jogando desde o jogo da cobrinha até os infinitos Marios Bros. do Wii.

Eu já discuti aqui sobre como o videogame deve ser considerado como uma arte. Entretanto, não se pode desconsiderar que para que você possa acompanhar esse tipo de arte é preciso um grande esforço seu. É necessário ter um console (ou mais de um já que há diversos títulos exclusivos), tempo, habilidade e dinheiro (um lançamento não sai por menos de R$ 150,00). Aparentemente ninguém vê problema nisso, pelo contrário, estimulamos esse hábito e quando vemos alguém reclamar de um console de R$ 4.000,00 é porque são pobres e ponto.

“Na verdade, os nossos jogos são muito difíceis de aprender e um jogador médio demora provavelmente duas horas para dominar os comandos de um jogo mais básico. Pedir duas horas do tempo de alguém para se concentrar em aprender como jogar um videogame é um grande pedido levando em conta que os nossos clientes têm suas vidas e famílias para cuidar” , Richard Hilleman, chefe de criação da Electronic Arts

Para que eu possa acompanhar minimamente os lançamentos do cinema basta eu ser regular frequentador de locadoras (acredite, elas ainda existem), ter um plano de TV a cabo (cada vez mais acessível) ou ainda manter uma assinatura da Netflix. Se você curte música, Spotify e Youtube estão aí ao seu serviço. Essas e outras mídias se adaptaram ao mercado a fim de se tornarem mais populares, alcançando um maior número de pessoas, e portando obtendo mais lucro.

Porém, quando se trata de games, estamos falando de um grupo bem mais reservado. É comum você perguntar pra qualquer pessoa qual tipo de música, história ou programa ela gosta de acompanhar. Mas é extremamente raro a sua primeira pergunta ser que tipo de game ela gosta de jogar. Muito disso vem de uma questão cultural e educacional, afinal aprendemos desde criança a ler, escrever e a ouvir, mas não nos ensinam a matar zumbis com um controle nas mãos.

jogos difíceisA questão é: nós queremos mais diversidade de jogos ou queremos continuar jogando os mesmos tipos de jogos lançados todos os anos? Por que criticamos empresas e desenvolvedoras que tentam criar títulos acessíveis a qualquer público, como se somente jogos complicados de serem jogados fossem “jogos de verdade?” Quantas vezes sua namorada, seus pais ou colegas de trabalho se sentiram um peixe fora d’água vendo você dominar um jogo aparentemente difícil? Se o videogame é uma arte, e eu acredito que seja, a subjetividade é papel fundamental em sua formação e portando jogo X pode não servir pra você, mas se encaixa perfeitamente com um público Y que acabou de baixá-lo no tablet.

Com a tecnologia que temos hoje é possível que haja espaço pra todo mundo, então por que me incomoda a forma como o outro joga? Por que não ser mais aberto àquelas pessoas que por ventura queiram se juntar ao grupo de jogadores? Com toda certeza o fato do aumento de jogos mais simples não irá sequer afetar os lançamentos mais complexos, então o que de fato há pra se perder?

Nada.

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