Cinderela | Crítica

Cinderella 6

Cinderela foi o primeiro livro que “li”, digo isso entre aspas porque na verdade eu ainda não era alfabetizada quando entrei em contato com o livro. Mas me encantou tanto, principalmente pelas belas imagens dos lindos e coloridos vestidos do baile, que de tanto pedir para meus pais lerem pra mim, logo acabei decorando cada passagem, que adorava “ler” ou encenar pra todo mundo. E não teve jeito, fui pega pela Síndrome de Cinderela. Por muito tempo meu subconsciente (ou talvez minha consciência mesmo), achava que eu deveria me enquadrar num certo padrão de beleza e que um dia um príncipe encantado apareceria e me “salvaria”, tornando minha vida perfeita.

Mas príncipes encantados não existem, e não, não temos obrigação nenhuma de nos encaixarmos em qualquer padrão imposto pela sociedade ou pela mídia para sermos aceitas onde quer que seja, não somos princesas passivas e indefesas. We can do it!

Cinderela também foi o primeiro filme que assisti em VHS no primeiro videocassete da minha família, lá nos anos 1980. A animação, que é de 1950, já poderia ser antiquada na época, mas era muito mais aceita do que hoje em dia, apesar do clássico ainda afetar muitas menininhas que desejam ser princesas (é só olhar os produtos infinitos com a marca por aí). E depois das adaptações em live action de Branca de Neve e A Bela Adormecida, como ignorar a que é certamente a mais popular de todas?

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Depois das versões feministas e cheias de ação de suas colegas, que dispensaram os príncipes e foram à luta (bem, Aurora continuou dormindo enquanto Malévola ganhou destaque e fez todo o trabalho, mas mesmo assim), todos esperavam algo parecido com Cinderela. Contudo, os filmes anteriores, por terem subvertido tanto as histórias imortalizadas por Walt Disney, acabaram sempre se perdendo no meio do caminho por tentarem se modernizar demais, mas sem um roteiro consistente. Talvez por isso o diretor Kenneth Branagh e os roteiristas não se atreveram a grandes mudanças, pois reconheceram o peso do clássico e optaram pela simplicidade nas alterações que eram necessárias para tornar a história menos machista.

Todo o cerne da fábula está intocado, o que faz com quem cresceu influenciada pela animação de 1950 ou pelo livro volte à infância e se derreta pelo desbunde visual das transformações da abóbora em carruagem e dos ratinhos em cavalos. A fotografia é mesmo impactante, com uma escolha de cores de encher os olhos. Os “50 tons de azul” que representam a pureza de Cinderela e os de verde da inveja e maldade da madrasta se incorporam com perfeição na composição das personagens. Os figurinos, aliás, são dignos de Oscar, principalmente os de Cate Blanchett, que, claro, está fantástica no papel da madrasta má, dando nuances à personagem, uma mulher na verdade amargurada devido aos reveses da vida e que faz suas escolhas pela sobrevivência numa sociedade patriarcal.

CINDERELLA

A novata Lily James, mesmo tendo sido ofuscada na divulgação do longa, brilha no papel da gata borralheira, conseguindo transmitir ao mesmo tempo delicadeza e força com o olhar, não à toa conquistou o disputado papel, mesmo sendo naturalmente morena e portanto sua loirice ter ficado um tanto quanto artificial (o mesmo ocorreu com a linda Hayley Atwell, que faz sua mãe), mas é algo que deixamos passar facilmente. As irmãs postiças, com destaque para Drisella (vivida pela atriz Sophie McShera), estão ótimas e divertidas. A fada madrinha de Helena Bohan-Carter então, é puro amor, sua única sequência é o ponto alto do filme, de fazer rir e chorar de emoção.

O príncipe (Richard Madden), que nas representações anteriores era apenas um cara bonito e rico, mas sem personalidade, agora ganha mais espaço, já que encontra e encanta-se por Cinderela devido à sua personalidade, antes do famoso baile, e vai atrás de seu amor, não apenas mandando os outros fazerem o trabalho. Nas versões anteriores, Cinderela era apenas a eleita (como diria a revista Caras), por ter encantado o príncipe por sua beleza. Já ela era recompensada por ter sido sempre tão subserviente. Nesta nova versão, Ella aprende desde criança a ser sempre boa e corajosa, e essas duas qualidades são lembradas o tempo todo (o que é perdoável por ser um filme voltado à crianças).

CINDERELLA

Cinderela pode não ser um manifesto feminista, Ella não empunha uma espada para lutar contra um exército para mostrar sua força, sua coragem vem justamente em decidir não se submeter mais, e sua bondade é sua empatia e capacidade de perdoar, algo que toda a sociedade precisa (re)aprender. E de forma competente e despretensiosa o filme moderniza uma fábula imortalizada no imaginário popular, e faz meninas e mulheres sonharem num momento de escapismo sem culpa.

Cotação-5-5

Cinderela (Cinderella)

Cinderela - poster nacionalDireção: Kenneth Branagh

Roteiro: Chris Weitz

Elenco: Cate Blanchett, Lily James, Richard Madden, Helena Bonham Carter, Nonso Anozie, Stellan Skarsgård, Sophie McShera, Holliday Grainger, Derek Jacobi, Ben Chaplin, Hayley Atwell, Rob Brydon, Jana Perez, Alex Macqueen, Tom Edden, Gareth Mason, Paul Hunter, Eloise Webb, Joshua McGuire, Matthew Steer, Mimi Ndiweni, Laura Elsworthy, Ella Smith, Ann Davies, Gerard Horan, Katie West, Daniel Tuite, Anjana Vasan, Stuart Neal, Adetomiwa Edun, Richard McCabe, Joseph Kloska, Andy Apollo, Craig Mather, Jonny Owen-Last, Nari Blair-Mangat, Michael Jenn, Josh O’Connor, John W.G. Harley, Leila Wong, Bhanu Alley, Elina Alminas, Scherrikar Bell, Francesca Bennett, James Butcher, Laurie Calvert, Arielle Campbell, Janet Dawe, Andrew Fitch, Robert J. Fraser, Edward Lewis French, Melissa Galloway, Monique Geraghty, Alexander Gillison, Riley Halden, Ant Henson, Rajesh Kalhan, Sayed Kassem, Joe Kennard, Victoria Ann Kenway.

Gênero: Aventura/Drama/Romance

Duração: 105 minutos

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