Para Sempre Alice | Crítica

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Alice Howland (Julianne Moore) é uma Professora Doutora da prestigiada Universidade de Columbia, em Nova York. Ela é linguista, trabalha pesquisando a aquisição da língua materna pelas crianças, quando o cérebro está em formação e o ser humano não tem nenhuma referência para se apoiar no aprendizado do idioma, e é quando marcamos em nossa mente os fonemas e suas marcas fonológicas. E os bebês fazem isso de forma brilhante, já quando crescem e vão aprender uma segunda língua, ficam presos a referências com o idioma materno, além de ter dificuldades em reproduzir acentos diferentes.

O estudo de linguística aplicada é talvez a área mais científica das letras, e essa mistura de ciência humana com lógica, o estudo tão aprofundado sobre como nosso cérebro funciona para uma das ações mais corriqueiras de nossas vidas – a fala – torna mais interessante o fato de uma especialista no assunto seja justamente acometida pelo Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa que vai apagando a memória da pessoa, desde as lembranças recentes, chegando à demência, quando o paciente não consegue mais reconhecer nada nem ninguém a sua volta e assim perde a capacidade de cumprir as tarefas mais banais do dia a dia sozinho. É praticamente uma regressão àquele momento da vida que não temos nenhuma referência de mundo.

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Alice recebe o diagnóstico do desenvolvimento precoce da doença, devido a uma mutação genética. Vemos sua reação observando-a diretamente, como se estivéssemos na posição do médico, e as nuances das expressões faciais da atriz, tão precisas, nos fazem quase ler seus pensamentos e sentir o que ela está sentindo.

É assim durante toda a trama. Os diretores Richard Glatzer (falecido recentemente) e Wash Westmoreland optaram por desenvolver toda a trama sob o ponto de vista de Alice, e assim nós, o público, percebemos junto com ela suas primeiras falhas de memória e a reação das pessoas a sua volta ao longo da deteriorização de sua mente. É de fato um ponto de vista interessante, fica bem claro quando a câmera está atrás da cabeça de Alice, que está deitada no sofá, e vemos e ouvimos de longe, junto com ela, a família discutir sobre sua vida. Este ponto de vista sem dúvidas é o lado mais arriscado do filme.

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E justamente por ser o mais arriscado, o risco de dar errado era maior. Apesar de ser a segunda coisa que o filme tem de melhor – depois da atuação de Julianne – não foi executado de maneira tão precisa. Os problemas no roteiro e no desenvolvimento dos personagens coadjuvantes enfraquecem este tipo de ponto de vista narrativo. As reações dos familiares ao saber da doença beira o novelesco, ainda assim tudo soa demasiado superficial, parecendo que todos estão meio distantes. O marido, John (Alec Baldwin), parece continuar levando a vida e pensando mais no trabalho – ok, pode ser uma fuga do problema, é uma opção para quem não aguenta enfrentá-lo de frente – mas o problema maior são com as filhas. A mais velha, Anna (Kate Bosworth), descobre que tem o mesmo gene que causa a doença, mas sobre isso há apenas um telefonema. Já a filha caçula, Lydia (a sempre insossa Kristen Stewart), a princípio parece ter um conflito com a mãe, que insiste que ela faça faculdade enquanto ela quer apenas ser atriz (mais uma profissão correlacionada ao tema, pois necessita de boa memória), porém este conflito nunca atinge um clímax antes da resolução.

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Mas Julianne Moore salva qualquer roteiro, sua carreira é assim. Uma das atrizes mais versáteis de Hollywood, ela sempre se arrisca e topa qualquer desafio, seja qual for o gênero. Aqui ela escapa com classe das armadilhas de um roteiro que por vezes chega a ter discursos piegas deixando sequências melodramáticas que forçam a barra em querer fazer o público chorar, às vezes ela mesma parece um pouco over. É uma atriz que ganhou o Oscar não por ter feito seu melhor trabalho na carreira – ela tem muitos papéis magníficos – mas por sair de forma digna e louvável de um filme menor.

Ganhou pelo conjunto da obra, mas ela merece.

Cotação-3-5

Para Sempre Alice (Still Alice)

Para Sempre Alice - poster nacionalDireção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland

Roteiro: Richard Glatzer e Wash Westmoreland, baseado no livro de Lisa Genova

Elenco: Julianne Moore, Kate Bosworth, Shane McRae, Hunter Parrish, Alec Baldwin, Seth Gilliam, Kristen Stewart, Stephen Kunken, Erin Drake, Daniel Gerroll, Quincy Tyler Bernstine, Maxine Prescott, Orlagh Cassidy, Rosa Arredondo, Zilah Glory, Caridad Montanez, Caleb Freundlich, Charlotte Robson, Erin Darke, Jean Burns, José Báez, Takako Haywood, Diane Kimbrell, Cat Lynch, Kristin Macomber, Jamie Lee Petronis, Nancy Ellen Shore, Eha Urbsalu, Gail Yudain.

Gênero: Drama

Duração: 101 minutos

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