Cinquenta Tons de Cinza | Crítica

Fifty Shades of Gray

Muitos criticam a trilogia literária Cinquenta Tons por supostamente incentivar a violência contra a mulher, mas muitos destes confundem os ponteiros e acham que a violência está presente lá no tal “quarto vermelho da dor” durante as sessões de sexo BDSM. Mas o que acontece por lá é o de menos, pois é feito com consentimento, e daí né, cada um faz o que lhe dá tesão entre quatro paredes. E vamos combinar que o erotismo tão alardeado dos livros de E. L. James não chocam quase ninguém, não por acaso é chamado de “mommy porn” (pornô de mamãe).

Mas há sim uma relação de abuso nos livros, e claro, no filme também. Mas é uma violência psicológica. Christian Grey, que muitas mulheres consideram um príncipe encantado, é sim um grande babaca. Possessivo, controlador, autoritário e que ludibria suas submissas a assinarem um contrato com romance comprado no seu cartão de crédito platinum-vip-shine-master-gold. Sendo lindo, milionário, te levando pra passear de helicóptero e comprando macbook, roupas e carros, quem não seria submissa?

Eu não, desculpem. E acho que ninguém deveria. Amor não se compra, já diziam as canções românticas mais antigas e bregas. Até os Beatles disseram.

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No livro, a protagonista Anastasia Steele é uma boboca, que conquista Grey com sua suposta ingenuidade e pureza. Há uma sucessão interminável de clichês e tentativas de fazer parecer tudo muito leve e engraçado, mas a autora não consegue. Além de tudo, os livros são incrivelmente mal escritos, e a edição brasileira é tão porca que nem se deu ao trabalho de melhorá-los um pouquinho. De qualquer forma, imaginava que poderia sair um filme razoavelmente bom daquele material, se houvesse liberdade criativa por parte dos realizadores e assim alterassem quase todas as falas e cortassem sequências. Uma pena que o estúdio, para conseguir os direitos, deu todo o poder para a autora, uma criatura sem a menor sensibilidade artística.

Mesmo assim o filme conseguiu uma melhora, afinal, um longa nunca conseguiria transpor 100% de uma obra literária, e neste caso isso contou à favor. Sendo assim não teve a cafonérrima deusa interior na consciência de Anastasia, e as cenas mais clichês de comédia romântica foram apenas jogadas de forma bem rápida (bem, quase todas as cenas são). Mas a melhora mais substancial mesmo foi graças ao entedimento do potencial cômico da obra pela diretora Sam Taylor-Johnson e ao talento da atriz Dakota Johnson, que mostrou na tela o que a autora não conseguiu nas páginas do livro (muito provavelmente nem foi sua intenção), e conseguiu fazer de sua personagem simpática e com um toque de humor sarcástico que dão uma quebrada em toda a cafonice do roteiro.

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Jamie Dornan não teve a mesma sorte com seu Christian Grey. Em muitos momentos ele demonstra um certo constrangimento, afinal, coitado, ele ficou com as piores falas, do tipo – “Se você fosse minha, Anastasia, ficaria uma semana sem sentar” e “Eu não faço amor, eu fodo. Com força.” Ele parecia pouco à vontade, mas a plateia ri muito. Na reunião para discutirem o contrato, mesmo com uma bela fotografia, parecia uma auto-paródia. Quem leu o livro ainda se diverte com referências, como a cena de Anastasia com a cara toda molhada depois de um banho à dois na banheira.

E sobre as tão aguardadas cenas de sexo, bem, pra quem nunca assistiu 9 1/2 semanas de amor, O Último Tango em Paris ou Secretária, pode até gostar, elas são sim de bom gosto, e a sequência no quarto vermelho ao som de Crazy in Love da Beyoncé é o ponto alto do filme, mas é tudo tão entrecortado que mal se vê os movimentos sexuais, não excita. O corpo de Dakota é bem explorado durante o filme sim, mas o de Jamie, que decepção, mal vimos sua bela bundinha. Isso porque é um filme voltado ao público feminino.

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Mas no fim, todo esse humor, mesmo que involuntário, aliado à ceninhas de romance e ao sexo sadomasô “limpinho” são um perigo, pois é aí que se camufla o abuso. Por trás de todo o romance comprado com dinheiro e a beleza, o que tem Christian Grey a oferecer? Além de tudo, seu fetiche ainda é tratado como uma patologia. Isso é de um moralismo vergonhoso para uma obra que se diz tão moderna.

Não, garotas, um cara que fica puto por você viajar para visitar sua mãe sem pedir para ele antes não é bonitinho.

Cotação-2-5

Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey)

Cinquenta Tons de Cinza - poster nacionalDireção: Sam Taylor-Johnson

Roteiro: Kelly Marcel, baseado no livro de E.L. James

Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Jennifer Ehle, Eloise Mumford, Victor Rasuk, Luke Grimes, Marcia Gay Harden, Rita Ora, Max Martini, Callum Keith Rennie, Andrew Airlie, Dylan Neal, Rachel Skarsten, Emily Fonda, Anthony Konechny, Bruce Dawson, Tom Butler, Christine Willes, Chris Shields, Anna Louise Sargeant, Megan Danso, Jason Cermak, Brent McLaren, Steven Cree Molison, Elise Gatien, Reese Alexander, David Orth, Julia Dominczak, Anne Marie DeLuise, Peter Dwerryhouse, Chad Fortin, Jordan Gardiner, Matthew Hoglie, Raj Lal, Ann Wu-Lai Parry, Kirt Purdy, John Specogna, Jason Verner, Jo Wilson.

Gênero: Drama/Romance

Duração: 125 minutos

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