Clássicos | Casablanca

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Nós sempre teremos Paris…

As pessoas geralmente não percebem, e por vezes se guardam em nostalgia, mas muitas histórias de amor só o são por terem tido um fim, mesmo que aparentemente precipitado. Histórias de amor de verão, de viagens, de encontros e desencontros diversos. Elas talvez só sejam memoráveis e especiais por serem curtas, porque não chegou ao estágio das primeiras crises, do tédio, da banalidade…a chama da paixão não se apagou, como ocorre naturalmente, explicando numa metáfora tosca. E Casablanca é um clássico do cinema tão inesquecível por isso, por contar uma história de amor interrompida no auge, sem tempo para cultivar mágoas, e um beijo será sempre um beijo, e um suspiro é apenas um suspiro, à medida que o tempo passa.

Mas Casablanca não é de forma alguma tão sentimentalóide quanto este primeiro parágrafo. O que o torna único é o fato de ser uma história de amor ainda hoje fora dos padrões, de uma mulher casada que se envolve com outro homem, e nenhum dos dois é canalha, pelo contrário, são homens honestos e engajados em seus ideais. Ideais estes aliás, que fundamentaram o mundo que conhecemos hoje. Casablanca é um filme que critica o fascismo, o nazismo e levanta a bandeira em que se baseou a Revolução Francesa (e deveria ser a causa de todo o mundo), liberdade, igualdade e fraternidade.

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Agora imagine mostrar tudo isso, fazer um filme que se passa no auge da II Guerra Mundial, estando no auge da mesma? Sim, se hoje celebramos os 70 anos do fim desta guerra e a consciência dos horrores passados ainda chocam, filmar esta história contemporaneamente em 1942 foi deveras corajoso. Muitos dos atores representando soldados nazistas e franceses refugiados na colônia Marroquina eram de fato gente que conseguiu fugir do Holocausto rumo à América. Na sequência em que os frequentadores do Café cantam a Marseillaise sobre a canção alemã entoada pelos nazistas, Watch on the Rhine, as lágrimas nos olhos dos figurantes são verdadeiras.

E talvez seja este realismo que faça do filme tão verdadeiro, mesmo que as cenas de amor pareçam tão idealizadas. Casablanca narra a história de Rick Blaine, um norte-americano misterioso que abriu um café (que na verdade é um bar/cassino) em Casablanca, no Marrocos, no momento em que a cidade era um porto seguro para os franceses que fugiam da guerra e aguardavam o visto para Lisboa, em Portugal, a fim de imigrar para os EUA. O Marrocos foi uma colônia francesa, e no período da guerra era um território livre, onde não se sofriam as represálias do Reich.

Rick convive com contrabandistas de vistos, jogadores, militares e civis, seus affairs não duram mais do que uma noite e ele mostra-se sempre neutro – quase apático, se não fosse o charmoso cinismo – em relação à guerra. Aliás, Humphrey Bogart, que o interpreta, e era um dos grandes galãs da Era de Ouro de Hollywood, tem como grande trunfo o charme no sarcasmo, característica fundamental desta época que abandonou definitivamente a inocência. O mundo estava mudando.

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Rick vê sua vida virar de ponta cabeça com a entrada de Ilsa Lund (a maravilhosa Ingrid Bergman) em seu Café, pedindo para o pianista Sam (Dooley Wilson, rompendo paradigmas) tocar uma velha canção, As Time Goes By, tão clássica quanto o filme em si. Mas Ilsa não está sozinha, veio com o marido, um refugiado dos campos de concentração, Victor Lazlo (Paul Henreid), e aos poucos, o mistério sobre o passado de Ilsa e Rick vai se mostrando na mesma medida que a trama de fuga se desenrola.

Há também muito humor em Casablanca, tão bem colocado durante as sequências e diálogos repletos de falas memoráveis que parecem simples, mas são geniais, jamais ofensivos, a não ser algumas piadas machistas, principalmente quando se referem ao Capitão Louis Renault (Claude Rains), um personagem que parece desprezível, mas se mostra tão ambíguo que é impossível não admirar. Mas sobre essas questões de sexismo tem que ser levadas em conta o contexto e a época.

Casablanca, dirigido por Michael Curtiz, não foi um filme autoral, Curtiz era um dos maiores diretores da Warner Bros. nas décadas de 1930 e 40, mas não era um autor como Billy Wilder, para citar um contemporâneo, e Casablanca é tratado até hoje como um “acidente feliz”, pois reuniu o elenco perfeito, foi realizado no momento certo e tornou-se o filme de estúdio aclamado tanto pela crítica quanto público. Nasceu para ser clássico.

humphrey bogart & dooley wilson - casablanca 1943

*Casablanca está em cartaz na rede Cinemark, consulte a programação.

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