Alguém Qualquer | Crítica

alguem_qualquerOs créditos iniciais de Alguém Qualquer devem causar alguma estranheza no espectador. Isso porque o cineasta Tristan Aronovich aparece não apenas como diretor do filme, mas também como protagonista, produtor, editor, roteirista e até mesmo compositor da trilha sonora. Nesse cenário, o público pode pensar em duas possibilidades: ou se trata de um verdadeiro diretor autoral, do naipe de um Charlie Chaplin ou Woody Allen, responsável por praticamente todas as etapas do projeto, ou então a grana da produção estava curta.

A grana, é claro, estava curta. Assim como o talento e o bom senso. As próximas duas horas de Alguém Qualquer são responsáveis por esclarecer muito bem este fato. O drama sobre um homem que parece ser invisível em nossa sociedade é tudo menos original, e se torna ainda mais dolorosamente ineficaz ao ser pontuado por péssimas atuações de absolutamente todo o elenco e por um roteiro que parece ter sido escrito por alguém com o mesmo nível de inteligência de Zé (Tristan Aronovich), o protagonista.

A história é a seguinte: Zé trabalha como faz-tudo em um prédio residencial. A chegada de uma parente desconhecida do interior se confunde com a descoberta de que ele tem apenas mais seis meses de vida, devido a uma doença do coração (que, estranhamente, se traduz em soluços do protagonista, como se o mesmo sofresse crises de asma).

alguem_qualquer2Zé jamais soube viver sua vida. Ele não apenas nunca viu o mar (um dos maiores clichês possíveis para esse tipo de personagem) como também é virgem, nunca saiu de sua cidade, nunca foi ao parque nem ao zoológico nem, aparentemente, a um churrasco, a julgar pela forma como analisa e cheira seu espetinho de carne em dado momento do filme. Tudo que sabe dizer é “amanhã tem serviço”. E pronto, não se fala mais nisso.

Para ser justo, o personagem parece ter algum nível de deficiência mental, pois resmunga palavras ininteligíveis bem baixinho sempre que está perto de alguém, além de levar uma eternidade para responder a qualquer pergunta que lhe é feita. Em seu vocabulário, além do mantra do serviço no dia seguinte, também estão frases como “tem problema não, né”; “é a vontade de Deus, né” e a profunda reflexão sobre nossa condição como seres humanos neste mundo: “A vida é assim, né? A gente nasce e morre, né?”

O “né”, aliás, não está ali por acaso, já que o roteiro coloca a expressão ao final de 9/10 de todas as frases ditas ao longo do filme. Ele parece acentuar ainda mais a estupidez de Zé e de todos à sua volta. Como se o cabelo lambido, os óculos tortos, o bigode, a postura bizarra, o hilário estilo de comunicação e o sorrisinho permanente que leva na cara, que parece mais algo tirado de uma esquete do saudoso humorístico Hermes e Renato, ainda não tivessem conseguido passar a mensagem.

alguem_qualquer3A coisa mais estranha de Alguém Qualquer, porém, é o fato de ninguém envolvido na produção ter percebido o potencial cômico do filme, que claramente se pretende um drama intenso e envolvente. As caracterizações e performances extremamente caricatas, que têm o ponto mais alto (ou mais baixo, dependendo do ponto de vista) no sotaque caipira absurdamente irritante de Jandira (Amanda Maya), impedem que haja qualquer ligação com aqueles personagens que não o riso. Até mesmo a conclusão, que tenta extrair lágrimas a qualquer custo, apresenta resoluções desajeitadamente hilárias para seus conflitos. Aliás, é assim que nascem as melhores comédias involuntárias.

Mas talvez a maior piada de todas esteja ligada aos alardeados prêmios internacionais que o filme ganhou. Não que sejam de pouca importância, longe disso. É que esse acontecimento talvez revele que as barreiras linguísticas e culturais interfiram mais na apreciação de filmes do que costumamos pensar. Sim, por que para que este seja considerado um bom filme é preciso que a plateia não tenha sido capaz de apreciar os elementos que o compõem em toda a sua glória cômica.

Cotação-1-5 Alguém Qualquer (Alguém Qualquer)

Direção: Tristan Aronovich

Roteiro: Tristan Aronovich

Elenco: Tristan Aronovich, Amanda Maya, Renata Souza, Vaner Micalopulos, Luis Panini, Maísa Magalhães, Ana Maria Saad, Polyana Lott, Günther Mittermayer, Luciana Stipp, Celina Chrispin, Jessé Henrique, Túlio Ferreira.

Gênero: Comédia/Drama/Romance

Duração: 124 minutos

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37 comentários

  1. Não vou criticar o filme, porque além de ser muito bom e mesmo que fosse ruim, eu não acredito que o “crítico” acima, faria melhor.
    Digo mais, o pseudo crítico parece-me mais débil que o “Zé que só falava né.”

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  2. só em São Paulo existem milhões de “Zés” como o do filme, numa vida sem sentido e sem rumo. O filme poderia ser melhor? poderia, os atores poderiam ser melhores? poderiam, mas a história está na cara de todo mundo e muito pouca gente vê, Infelizmente os “Zés” seguem invisíveis, inclusive para o “crítico” acima.

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    • Quem fez estes comentários sobre o texto deve ser alguém ligado a produção do filme! O filme é bizarro, tentaram criar um personagem simples e tímido, até entendo a intenção do autor de tentar transmitir a introversão do personagem através de seus grunhidos , mas saiu algo totalmente caricatural e fora da realidade( já que o “Zé ” já morava e trabalhava na cidade há tempos…

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  3. Bem ter sensibilidade aguçada é para bem poucos, parece que, quanto mais metidos a intelectuais, ou falso intelectuais, maior dificuldades terão para alcançar toda a realidade, todo o lirismo transmitida pelo filme. Nada inesperado, quando se mantém num patamar acima dos reles mortais, fica difícil compreender a trágica comédia vivida pela humanidade, Teriam que descer muito fundo nos recônditos da alma. O grande problema talvez resida nisso: não há profundidade e nem alma, para os que são rasos.

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  4. Amei o filme e principalmente a interpretação do ator/diretor; Só não entendi as palavras do critico acima??? Longe de mim ser critico de alguma coisa, principalmente do cinema, o que sei é que um bom filme, é aquele que nos comove e nos ensina alguma coisa de bom e positiva. E este filme, (para mim), foi comovente e de maneira surpreendente dá um tapa na cara de uma sociedade que fecha os olhos para os milhões de (zé) que estão a nossa volta!

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  5. Acabei de assistir o filme (é uma da madrugada) e não me arrependi nem um pouco. Ele prendeu minha atenção desde o início. Lamento muito que ainda existam críticas tão destrutivas e desrespeitosas como a que foi feita aqui. Gente, cinema é diversidade e a simplicidade dessa história me fez lembrar de sentimentos que lamentavelmente estão adormecidos na maioria da população do Brasil.

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  6. Comecei ver esse filme na Fox terça feira mas infelizmente não pude ver o final…Até a parte que eu vi onde a Jandira pede explicações de tudo que aconteceu ao Zé fiquei muito encantada c o filme e gostaria muito de ver o final dele porém não consigo baixar nem compra não achei em lugar nenhum….Alguém pode me ajudar???? Tem onde baixar ou comprar?

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  7. Acabei vendo o filme sem querer
    Deixei no canal enquanto estava ocupada, mas o enredo chamou minha atenção. Vi até o fim e não me arrependi. Chorei ao final. Simples – como as boas coisas na vida – que poucos dao o devido valor. Para quem foi catequizado pelos filmes americanos, é difícil apreciar. Desafio o crítico acima a fazer melhor. Parabéns ao autor/ator/diretor.

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  8. Assisti o filme com muita atenção, ele pedi isto, observação.
    Muito bom, ao contrário do crítico achei o filme excelente, prendeu minha atenção do principio ao fim. Muito delicado, Só quem já pode conviver com muitas pessoas, poderá identificar que não é deficiencia o que o protagonista possui, mas um jeito de ser.

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  9. Existe um canal de filmes nacionais e sempre passo por ele. Certo domingo, passei pelo canal e havia de começar o Alguém Qualquer. A cena me chamou a atenção então segui o filme.
    A minha impressão sobre o filme é a melhor possível. Muitas vezes, um bom filme não precisa de muitos atores ou de atores de renome, aliás, muitas produções milionárias apresentam filmes péssimos.
    Alguem Qualquer traz uma mensagem de pura sensibilidade do diretor que ao meu alcança o seu objeto ao emocionar com uma história simples e personagem do cotidiano as pessoas que realmente sabem apreciar a sétima arte.
    Ótimo filme!

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  10. Acabei de assistir o filme, e sabe o que me surpreende? A cada dia a falta de sensibilidade deste mundo! Quem disse ‘crítico’ que um bom filme tem que ser moderno, tecnológico ou recheado de cenas sexuais? Talvez você não tenha se identificado com alguns que também deixaram o seu comentário, porque realmente você não faz questão de olhar para o lado e ver que sim, existem muitos ‘Zés’ todos os dias a todo momento que passam por nós. Somente quem tem essa sensibilidade vai se lembrar que aquela pessoa introvertida no trabalho, na faculdade ou até mesmo dentro daquele ônibus que pegamos todos os dias, está muito bem representada neste maravilhoso filme e sinceramente de ótimo bom gosto. Prêmios estrangeiros mais que merecidos, pena que infelizmente aqui no Brasil o ‘filme top’ pra se concorrer a algum prêmio tenha que ter atores e atrizes celebridades e algumas cifras para investir. Ah! E não esquecendo, dos corações de pedra que são muitos como deste ‘magnífico crítico e seus apreciadores’ .

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  11. Ridícula a crítica deste Leonardo Maran. Filme pra ser bom não precisa ter cena de perseguição de carros ou conotação sexual. Eu devo ter visto outro filme ou o critico dormiu no filme. Achei ótimo o filme e o trabalho do ator e diretor.

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  12. Filme com enredo profundo, sutil, para quem conhece ou quer descobrir o quão intrincado é envolver dois universos humanos, por mais simples que pareçam ser. Gostaria de dar um abraço emocionado de parabéns ao cineasta Tristan Aronovich pela direção, interpretação, trilha sonora, roteiro, etc.(e a todo elenco e produção) por elevar o cinema nacional ao nível de excelência e por nos sensibilizar reflexivamente.

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  13. Este critico precisa conhecer mais o nosso País…., existem pessoas assim…. que mesmo morando em cidades ditas desenvolvidas, tem sua vida em uma simplicidade tanta, que, passam sua vida de certa forma escondidas. Pena este critico ser AZEDO, (foi a melhor palavra que encontrei) cuidado, pois depois disto, apodrece…

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  14. Não concordo com nada que o critico. C
    Comecei a assistir o filme sem mesmo ler a sinopse, e o filme é muito bom, bom mesmo. Fazia tempo que não via um filme nacional com uma historia e um final tão bom assim!! O que posso dizer de Tristan Aronovich pela direção, interpretação, trilha sonora, roteiro, câmera… um gênio!!

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  15. Esse tal de Leonardo Maran não tem senso crítico! personagem do Zé retrata o caipira do interior que vem para a cidade grande em busca de dias melhores. A parente se apaixona por causa da proximidade; O filme deixa transparecer um grau acentuado de autismo da figura central, mas compensa pela sensibilidade e ternura com que exerce seu trabalho e suas habilidades com trançado do vime. Merecidos os prêmios angariados.

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  16. Parabéns Tristan Aronovich pela direção, interpretação, trilha sonora, roteiro, e principalmente, por todos os comentários que fez aqui no site. MUITO EFICIENTE!!!!! GÊNIO. MELHOR FILME DE TODOS OS TEMPOS.
    E quem não concorda não tem sensibilidade. Não tem alma. Curte Transformers. Dança funk. Velozes e Furiosos.
    O crítico é amargo, azedo, RECALCADO.

    agora vou vazar porque amanhã tenho serviço, né?

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  17. O crítico é muito severo, entretanto, concordo c/ ele em alguns aspectos. Falta profundidade em algumas passagens e o “Zé” provoca ansiedade com sua fala. Mesmo assim tem um fundo p/ reflexão.

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  18. EXCELENTE Filme… Só tem um problema, é brasileiro… ai caem matando de pau… Bumba meu boi, Maracatu, Baião, Maculelê… vamos esquecer tudo né! Bom é Walking Dead, Atividade Paranormal, Super heróis com problemas existenciais, vamos falir de vez… parar de pensar no que temos… quanto mais explosão, sangue melhor… É isso que presta? Epa… “Pensar no que temos!!!” Será que era essa a mensagem do filme, acho que nosso crítico Leonardo Maran é bem rico e não deve saber bem o que tem… Alias, ele não tem a menor idéia do que é alguém com problemas mentais… Mais atenção em como leva a vida e vê as limitações dos menos favorecidos… Hoje você tem, mas em breve, verá que não levará um centavo… só restará o que fez e aprendeu dessa vida… Acho que nada disso faz sentido para você… nem fará… Desculpe, não estou sabendo lidar com suas limitações.,,

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  19. Gente,acabei de assistir o filme e vendo os comentários aqui,tenho a impressão que não é o mesmo filme…o filme é uma bosta!Me desculpem,não sou critica,sou público,poxa vida,quando que esse povo vai aprender que o “Zé”,tal homem comum,nâo é uma caricatura?!Eu vivo em uma comunidade cheia deles e posso dizer, com certeza, que nada tem a ver com a personagem desse filme,tenha dó!

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  20. Você vai me desculpar, mais o Tristan fez milagre, sabe o que eu acho, dependendo do nível social da pessoa, ela não conviveria com um personagem deste, pagaria um médico, mas os mais humildes conviveriam, ao ponto de ama los, parabéns ao filme, que no fundo sim, toca e muito!

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  21. Menino Maran ou má aranha, deixe de ser critiquinho. Um dia você vai aprender apreciar filmes para além das formuletas que aprendeu. Tenho quase sessenta anos, muitos anos de cinema e de estudos de literatura. Adorei o filme e assumi minha emoção, pois formuletas iguais às suas fui jogando fora ao longo da vida. Um dia você amadurece e vai perceber que sua genealidade precoce era um baita engano.

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  22. Nossa,nunca vi uma crítica tão cruel quanto essa.Como pode dizer essas coisas do filme e dos personagens?Você é crítica de verdade mesmo?
    O filme é muito bom sim e emociona até não poder mais.

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