A Gangue | Crítica

Filme assistido durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
a_gangue2No que você pensaria se lhe dissessem que ia assistir a um dos primeiros filmes gravados inteiramente em linguagem de libras, somente com personagens surdos? É possível que pense em uma infinidade de coisas, mas dificilmente algo como A Gangue virá à sua mente.

A Gangue, do diretor estreante ucraniano Myroslav Slaboshpytskyi, conta a história de Sergey (Grigoriy Fesenko), um jovem enviado a uma instituição de ensino para surdos. Lá, acaba se envolvendo com uma gangue de violentos delinquentes que, patrocinados por membros da própria instituição, assaltam, matam, extorquem e incentivam a prostituição.

O mais impressionante é o quanto toda essa narrativa é compreensível sem que uma única palavra audível seja trocada entre os personagens. Somente enfáticos movimentos corporais. No começo, é difícil. Depois, passamos a entender e acompanhar a trama de forma quase instintiva. Mesmo que os detalhes se percam, e só sejam compreendidos inteiramente por quem pratica a linguagem de sinais, isso acaba tendo pouca ou nenhuma consequência para o filme. Assim como seus personagens, passamos a entender esse mundo apenas por meio de nossas emoções mais primitivas.
a_gangue3A história é relativamente simples e não tem nada de muito inovador. O jovem Sergey passa a participar dos atos criminosos do restante do grupo, se apaixona pela jovem Yana (Yana Novikova), que é compulsivamente prostituída para financiar a gangue, e acaba caindo em uma espiral de ódio e violência quando vê seus desejos lhe serem constantemente negados.

Tudo isso é contado praticamente sem nenhum som, já que o filme corta, além dos diálogos sonoros, também músicas, seja incidentais ou inseridas posteriormente. Ouvimos apenas passos, ruídos, barulhos de portas, tapas, socos, roncos de motores. A escolha, curiosamente, dá à narrativa uma característica hipnotizante.

Ainda mais interessante do que isso é a opção de filmar cada cena em longos planos-sequência cuidadosamente estruturados, que nem sempre dirigem nosso olhar a algo, mas geralmente o deixam vaguear livre pela cena. O filme acompanha de forma minuciosa a trajetória de seus personagens, muitas vezes em momentos que teriam sido cortados em obras mais tradicionais. Isso ajuda a dar o tom de naturalidade que preenche a produção e também torna mais crua a violência gráfica e psicológica, cujo tom vai subindo acentuadamente conforme a história avança.
a_gangue4Uma cena mostra um homem se encostando calmamente contra um caminhão, sem perceber que ele começa a se mover. É atropelado, incapaz de dar um único grito. Outra ainda apresenta, sem nenhum corte, uma das mais dolorosas cirurgias de aborto já vistas no cinema. Embora também não consiga falar, a garota geme e é tão expressiva que tudo fica ainda mais difícil de assistir. Uma terceira mostra assassinatos nem tão gráficos, mas que, de forma inteligente, deixam a pior parte para nossa imaginação.

Sequências como essas são polêmicas por si próprias. Não é muito difícil que descambem para a violência gratuita, com o único intuito de chocar e impressionar. No caso de A Gangue, a motivação não é apenas de mostrar a situação desesperadora da juventude da Ucrânia, um país atualmente marcado pela guerra e divisão, mas também de enfatizar a inexistência de vítimas dentro desse contexto. Frutos do hábitat em que vivem, a violência é natural e um evento tão comum quanto tantos outros que a câmera acompanha com minúcia.

O fato é que A Gangue nem de longe parece um trabalho de estreia. É uma obra com uma visão extremamente bem desenvolvida, dirigida por alguém que demonstra a cada nova cena saber exatamente o que pretende.
a_gangue5Em termos diretos, o filme não traz nenhuma inovação significativa para o cinema, diferente do que tem sido alardeado por aguns críticos. Porém, ele ressignifica uma série de aspectos já existentes, em prol de uma narrativa contada de forma criativa e única. O resultado final tem um vigor, uma força e um impacto impressionantes, que obrigarão você a se lembrar deste filme por muito, muito tempo.

Cotação-5-5a_gangueA Gangue (Plemya)

Direção: Myroslav Slaboshpytskyi

Roteiro: Myroslav Slaboshpytskyi

Elenco: Grigoriy Fesenko, Yana Novikova, Rosa Babiy, Alexander Osadchiy, Alexander Dsiadevich, Yaroslav Biletskiy, Ivan Tishko, Alexander Sidelnikov, Alexander Panivan, Kirill Koshik.

Duração: 130 minutos

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