Clássicos | Chinatown

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Chinatown certamente teve influência de um dos períodos mais negros da vida conturbada de seu diretor, o extremamente talentoso Roman Polanski. O filme foi feito apenas cinco anos após o assassinato de sua esposa grávida Sharon Tate por membros da gangue de fanáticos liderada pelo notório criminoso Charles Manson. Embora penda constantemente para o humor negro, a trama cheia de reviravoltas se encerra com uma nota tão triste e pessimista que acaba transformando o filme no exemplar mais sombrio do gênero noir, recheado ainda pelas trevas que recobriam os Estados Unidos durante toda a década de 70.

O roteiro de Chinatown é certamente um dos mais famosos e admirados na história do cinema. Ao rever o filme, não foi muito difícil descobrir por que. Conforme a trama avança, todos os seus elementos vão se encaixando lentamente de forma tão natural e perfeita que, por vezes, soa como algo surreal ou mágico.

Mas claro que não há magia nenhuma na narrativa sórdida que envolve o detetive particular Jake Gittes (Jack Nicholson) até o pescoço. Ou até o nariz? Começando com um simples caso de traição matrimonial (que, na verdade, tem outras conotações horripilantes), o que se descortina à sua frente é um complexo esquema de corrupção que tem em seu centro o Departamento de Água e Energia da cidade de Los Angeles e o magnata Noah Cross (John Huston).

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Na história, a misteriosa Evelyn Mulwray (Faye Dunaway) surge inicialmente como uma típica femme fatale das produções do gênero na década de 40. Porém, seu papel de viúva-negra é deliberadamente revertido pelo roteiro, que a transforma na única pessoa realmente pura de toda a história.

É preciso reconhecer o trabalho fantástico do roteirista Robert Towne, mas, mais do que isso, a aguçada percepção de Polanski. De fato, uma das primeiras iniciativas do diretor foi retirar a narração em off que originalmente seria feita por Gittes. Assim, acabou trazendo à tona um dos recursos mais interessantes do longa. Ou seja, o fato de o espectador fazer as descobertas ao mesmo tempo que o detetive, algo que transforma as constantes reviravoltas do filme em uma coisa particularmente instigante de se ver.

O cineasta também foi responsável por aquela que é provavelmente a cena mais infame de toda a produção: seu chocante ato final. Nesse caso, Towne e Polanski tiveram discussões acaloradas sobre o rumo da história, já que o primeiro preferia que a trama tivesse uma conclusão mais tradicional e reconfortante. Polanski venceu e dessa maneira nasceu um dos maiores clássicos do cinema.

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Além do fato de Chinatown ser um filme maravilhoso em praticamente todos os aspectos (elenco afiado, direção precisa e inventiva, figurino apropriadamente clássico evocando a década de 30, fotografia que destaca as características arenosas e secas do ambiente, que por sua vez refletem a aridez dos confrontos humanos), é sempre interessante observar o quanto pode ser conturbada a gênese de um roteiro tão incrivelmente meticuloso. No caso específico do filme, seu nascimento se deu de forma quase tão complexa quanto a narrativa em si.

Aliás, o principal legado desta obra-prima é a amoralidade de sua história macabra sobre o poder interminável do dinheiro. Enquanto se desenvolve, a trama gosta ainda de destacar o quanto todos os outros personagens são impotentes e indefesos quando confrontados pelo terrível raio de ação desse poder. Isso é algo que se alia bem ao típico “herói torto” do noir tradicional, um detetive que age sempre com esperteza e sarcasmo, mas que acaba se revelando demasiadamente sentimental e fraco em frente aos fatos.

Em determinado momento, o público assume a identidade de Gittes, o que torna a coisa toda ainda mais difícil de acompanhar. Como uma pessoa que gosta de definir a si mesma como desonesta, o detetive acaba se revelando extremamente moralista durante sua descida às profundezas do inferno. Além dele, o público também pode acabar se arrependendo de ter dado risada em alguns momentos desta trama cínica, dura, difícil de assistir e, ao mesmo tempo, estranhamente hipnotizante.

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