Bem-Vindo a Nova York | Crítica

a86a5cd0-fdc2-4b59-876b-5e32ccf6523c.jpgO dia 14 de maio de 2011 é inesquecível para duas pessoas: o ex-presidente do banco do FMI Dominique Strauss-Kahn e a camareira Nafissatou Dialo. Ele por ter sido preso em pleno aeroporto JK em NY e ela por ter sido submetida a uma agressão sexual. A vida destes dois teve uma mudança abrupta. Ambos viviam em seus mundos opostos, tiveram um forte encontro que mudou para sempre suas vidas. Através de um acordo sacramentado em um tribunal americano, nenhum deles precisará tocar no assunto nunca mais perante a justiça ou em qualquer lugar. Dialo, que sofreu o abuso, recebeu de Dominique 1,5 milhão de dólares para se calar. Ele não terá mais que prestar qualquer pena em nenhuma cadeia, mesmo tendo várias acusações e escândalos de abusos sexuais e orgias com prostitutas acumuladas em sua carreira profissional, naufragada após o fato.

No filme de Abel Ferrara, que estreou nesta quinta, acompanhamos a luxúria e gula que vive Monsieur Devereaux (personagem inspirado em Dominique Strauss-Kahn e vivido por Gérard Depardieu), em seu Éden, até a sua derrocada a um umbral seco e cinzento. Claro que, em sua posição diplomática, a queda não se dá na mesma proporção de uma pessoa comum e Abel deixa bem explicito esta diferença de consequências, uma das principais críticas que ele faz ao modus operandi social. O próprio personagem, em um monólogo inspirado, assume toda a crueldade imposta pelos governantes ao redor do mundo a sociedades menos abastadas economicamente. É através desta forma de domínio, pela exploração de sua pobreza, que se obtém o lucro e o poder para uma minoria egocêntrica, que, por se caracterizar como melhor e mais intelectualizada, seria merecedora da posição em que se encontra. E o pior, ele não se sente chocado e nem culpado por isso. É sua religião.

welcome_to_new_yorkO asco ao personagem se dá logo no começo quando o ator Depardieu inicia o filme como se estivesse dando uma entrevista. Ele explica o porquê de ter aceitado fazer este personagem, “Odeio este tipo de gente, odeio políticos”. Ódio, nojo, repulsa e até mesmo pena são os sentimentos que este imprime durante duas horas da versão de Abel ao escândalo ocorrido em 2011. Devereaux é um doente, ele admite isso à mulher (Jacqueline Bisset) logo após o escândalo estourar, o mais absurdo disso é que esta já sabia e mesmo assim permaneceu ao seu lado, tudo pelo status e poder. Os dois não são muito diferentes se formos comparar a forma como lidam com suas ambições. Se o político é um depravado sexual incorrigível, ela é ambiciosa e esfomeada por poder. Não importam as consequências de seus desejos, ambos vão até o fim. E nenhum arca com elas, não da forma que deveriam, por terem a qualificação social e intelectual que possuem.

A irregularidade, exageros e a crueza de cenas gráficas habituais nos filmes de Ferrara, aqui exerce a forma de narração. O silêncio é onipresente. O sexo, as drogas e a violência saltam da tela como elementos de voz. Eles são componentes fundamentais não só no comportamento do personagem principal mas de todo o seu círculo social. Para eles, ter uma festinha com prostitutas em um quarto de hotel luxuoso é tão normal quanto é para nós ir ao cinema num sábado à noite. É a maneira como convivem entre si e se relacionam com o mundo, é a forma de diálogo com o exterior.

welcome-to-new-york-gerard-depardieu-636-380Ferrara não se contém e escancara esses habitués da vida de Devereaux tanto como para denunciar esse comportamento como para humilhar. Se há cenas gráficas de sexo que exibem sua falta de limite, há também as que mostram a humilhação de possuir um sobrepeso (corporal e social) e se ver obrigado a desnudar-se perante civis e mostrar o quão asqueroso e nojento eres.  Esse mix comum e perigoso é utilizado por Ferrara em seus filmes para explicar as crises existenciais dos seres humano e sua busca por respostas. Aqui ele não possui essa função de explicação para o comportamento humano, mas de denúncia de quão podre podemos ser e o quanto estamos caminhando para nos tornarmos uma sociedade sem consciência de civilidade e compaixão pelo próximo.

Devereaux não se arrepende do que fez, acha inclusive que não fez nada de errado porque o que possui não é um desvio de caráter e sim uma doença. Possuir uma enfermidade o livra de toda a culpa, mas ser rico e poderoso mais ainda. O ônus disso tudo é causado pelo controle obsessivo de sua mulher com sua carreira e a frieza com que mantém o casamento. “Nunca quis ser político, só um intelectual.” Mesmo depois de toda a humilhação, a perda de status e poder que possuía, Devereaux mantém-se na mesma forma pensante em que deu início à sua queda. A de que um ser, por ser inferior a ele, na sua visão, não importa quem seja, é um objeto que deve servi-lo sem o reclamar. Um doente, definitivamente.

Cotação-4-5

Bem-Vindo a Nova York (Welcome to New York)

Bem-Vindo a Nova York - poster nacionalDireção: Abel Ferrara

Roteiro: Abel Ferrara e Christ Zois

Elenco: Jacqueline Bisset, Gérard Depardieu, Drena De Niro, Paul Calderon, Amy Ferguson, Paul Hipp, Maria Di Angelis, Ronald Guttman, Natasha Romanova, Shanyn Leigh, Anh Duong, Aurelie Claudel, Claude Jade, Marie Moute, Brett G. Smith, Anna Lakomy, Pascal Yen-Pfister, John Patrick Barry, José Ramón Rosario, Joe Lawless, Nneoma Nkuku, Kathryn Lill, Norm Golden, Elizabeth Kemp, Frank Aquilino, Ilinca Kiss, Lee Godart, Ged Dickersin, Jean-Stéphane Sauvaire, Pamela Afesi, Emmanuelle Vill, Lucy Campbell, Tania Santiago, Raquel Nave, Stephen Reich, James Heaphy, Pablo Gonzalez, JD Taylor, Nikki James, Spelman M. Beaubrun, Jackie Raynal, Ify Enemuo, Armand Dahan, Teresa Kelsey, Caroline Huet, Tarikk Mudu, Paul Mitchell, Charlotte Silvera, Jeremy Brena, Louis Zaneri, Brian McCabe, Agnes Caballa, Brooke Chaffee, Samantha Allison Josephine Opitz, Victoria Reton, Larry Davis Jr., Robert Dvorin, Chris Zois, Tony Armstrong, Antoine Blech.

Gênero: Drama

Duração: 125 minutos

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