Violette | Crítica

2VIOLETTE_DSC2360

A feiura em uma mulher  

é um pecado mortal.

Se você é linda,

é olhada na rua

pela sua beleza.

Se você é feia,

é olhada na rua

por sua feiura.

Violette Leduc fora uma escritora francesa a frente de seu tempo, não há a menor dúvida disso e isso é perceptível logo nos primeiros minutos do longa biográfico que estreia esta semana no país. Dirigido pelo francês Martin Provost, este já havia filmando anteriormente a biografia da pintora Séraphine de Senlis (Yolande Moreau), que assim como Violette, fora um ser que se sentia inadequado ao seu tempo e as pessoas ao seu redor e através de sua arte pode achar um refúgio para viver e suportar toda aquela inadequação que sentia.

Há muitas similaridades entre estas duas mulheres, ambas foram rejeitadas pela sociedade pelo modo de pensar que diferiam da maioria. Violette (Emmanuelle Devos) sofria de uma carência absurda, tanto fraternal quanto carnal. Se apaixonou pelo amigo Maurice Sachs (Olivier Py), escritor e gay, que foi seu ponto de partida para escrita. A sua obsessão em consegui-lo conquistar o fez até mesmo partir para longe dela, fugido. Logo em seguida, já em Paris, vivendo através de vendas no mercado negro da guerra, conheceu a escrita de Simone de Beauvoir (Sandrine Kiberlain) e logo a idealizou como ideal de amor e inspiração.

Simone não correspondeu ao afeto carnal, mas sábia e perspicaz como era, soube que Violette era um ser único e sua escrita contribuiria e muito para os ideais feministas que tanto lutava. De uma forma – podemos dizer manipuladora até – começou a incentivá-la e ajudá-la financeiramente (sem que ela soubesse), levando sua escrita até Camus. Seu primeiro livro não foi um sucesso como ela esperava a e logo sua carência se voltou a dois amigos, o escritor Jean Genet (Jacques Bonnaffé) e o empresário e mecenas Jacques Guérin (Olivier Goumert). Ambos homesexuais, também não conseguiram suprir o afeto que Violette almejava deles, porém a ajudaram no lançamento de seu segundo livro, A Faminta, que conta um pouco sobre  o amor que Leduc sentia por Beauvoir.

Violette2

Mas sua obsessão por Simone não passava, e ela resolveu por isso a limpo, como havia descoberto na forma de viver bem consigo: a escrita. Logo veio seu segundo livro e ela pode ter uma certa paz interior. Mas não se sentia plena e logo adoeceu, assim como Séraphine, que também não conseguia que sua arte fosse aceita pelos outros. Ao contrário da pintora, Violette tinha seu anjo da guarda, que apesar de se recusar ser algo mais do que isso a levou a falar pela primeira vez sobre aborto, homossexualismo na adolescência entre duas meninas e mostrou ao mundo sua força e o que uma mulher podia ser capaz de sentir.

Foi só após isso que ela pode aceitar suas inseguranças e viver bem. O momento exato dessa quebra no filme é quando pela primeira vez ela não corteja ou implora por amor, e sim o inverso, é desejada. Violette vira objeto de desejo por enfim ter encontrado a si e parado de projetar seus desejos nos outros.

violette-emmanuelle-devos

O grande mérito para a compreensão dos dramas de Leduc de forma simples e astuta é fato do diretor não transformar a história em melodrama, ele não foca em seus dramas pessoais e sim deixa que eles apareçam de forma natural, e sem cair nos estereótipos comuns de filmes biográficos. Não há como não deixar de citar o excelente trabalho de Emnanuelle Devos, que se entrega de corpo e alma a persona de Leduc. Toda transformação do desengonçar e inadequação existencial de Violette, a evolução de uma mulher de bem consigo é vista no trabalho de composição desta grande atriz. Sandrine Kiberlain também brilha ao encarnar uma Beauvoir com extrema segurança com suas convicções mais humanas, que assim como qualquer mortal, também possuía fraquezas e desejos. O mesmo vale para os sempre ótimos Olivier Gourmet e Jacques Bonnaffé.

Violette se preocupava demais com o que os outros pensavam de si e tentava ser o que eles queriam que ela fosse, mas não sentia da mesma forma como os outros, a escrita a salvou e a levou a aceitar—se e mais ainda, que o mundo à sua volta a enxergasse como ela era e que eles tinham que viver com isso. Séraphine era o oposto, não se importava com o que as pessoas pensavam dela, só queria viver de sua arte, mas não conseguiu fazer com que eles vissem o que ela sentia de forma que pudessem conviver com isso, se isolou e acabou senil. Se Violette deseja ser amada mais do que tudo, Séraphine desejava ser deixada em paz com suas árvores, tintas e pássaros.

violette-16102013

Duas mulheres que se refugiavam na natureza para escapar do modus operandi, cruel e moralista suas épocas. Duas mulheres que tiveram seus anjos, um que se assemelhava e não desistiu por saber da importância que ela possuía para o mundo. O outro, que não possuía nem mesmo uma segurança consigo mesmo e que assim mal sabia como lidar com o talento daquele ser único e acabou por não conseguir apresentar ao mundo seu trabalho no momento que ela pediu.

Duas mulheres que viveram épocas diferentes, mas que felizmente tiveram seu reconhecimento, uma no tempo que puderam usufruir. Outra, infelizmente, não pode ver o que o mundo havia lhe aceitado, finalmente.

Cotação-5-5

Violette (Violette)

Violette - poster nacionalDireção: Martin Provost

Roteiro: Martin Provost, Marc Abdelnour e René de Ceccatty

Elenco: Emmanuelle Devos, Sandrine Kiberlain, Olivier Gourmet, Catherine Hiegel, Jacques Bonnaffé, Olivier Py, Nathalie Richard, Stanley Weber, Jean Toscan, Frans Boyer, Nicole Colchat, Fabrizio Rongione, Erwan Creignou, Vincent Schmitt, Jean-Paul Dubois, Paulette Frantz, Valérie Kéruzoré, Sylvie Jobert, Thierry Nenez, Marie-Aline Thomassin, Alexandre Massonet, Josette Ménard, Richard Chevalier, Florent Bigot de Nesles, Isabelle Sprung, Claudine Acs, Pierre Gribling, Marc Faure, Pierre-Alain Chapuis, Laure Sirieix, Yvonne Gradelet, Hugo Malpeyre, Audrey Quoturi.

Gênero: Drama

Duração: 132 minutos

Anúncios

Deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s