Clássicos | Lawrence da Arábia

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Era normal filmes épicos de determinado período terem uma introdução musical sobre uma tela preta. A ideia era que ela ajudasse os espectadores a entrar no clima do filme antes que ele tivesse início propriamente. Não é normal hoje, quando qualquer pequena pausa ou cena mais parada ao longo da exibição, ou mesmo um diálogo um pouco mais reflexivo, faz com que o público se inquiete e já saque do bolso seus tablets e celulares para não passar um segundo sequer sem o entretenimento de qualidade que lhe é de direito.

Na sala de cinema em que fui assistir a Lawrence da Arábia, os três minutos musicados foram responsáveis por uma semirrevolução por parte da plateia. Eu sabia, ou ao menos desconfiava, da existência dessa introdução, mas acabei deixando o circo pegar fogo. Pode parecer maldade, mas a cena me interessava profundamente.

Foi uma sinfonia de gritos e assobios para que o projetista colocasse na tela as imagens que, acreditava-se, deveriam estar ali para acompanhar a música. Duas pessoas se levantaram das poltronas para reclamar com funcionários do cinema. Um casal falou que era assim mesmo, nada funcionava direito neste país. Estávamos à beira de um colapso geral, que abalaria as estruturas daquele mundo cinéfilo habitado por uns 15 ou 20 gatos pingados, quando as imagens finalmente apareceram. Rapidamente, as pessoas voltaram a seus lugares. O show seguiu.

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Lawrence da Arábia é uma narrativa de aventura e, ao mesmo tempo, uma tragédia de imensas proporções. O filme conta a história da ascensão e queda de T. E. Lawrence (primeiro papel de destaque de Peter O’Toole) no deserto árabe, onde alcançou status de herói e messias entre as tribos locais. Enviado com a missão de ajudar os habitantes da região na luta contra os turcos, ainda durante a Primeira Guerra Mundial, o tenente do exército britânico Lawrence tinha pouca ou nenhuma experiência de batalha, além de ter atraído fama de culto, insubordinado e meio lunático no ambiente militar.

É difícil compreender os objetivos do político Dryden (Claude Rains) para enviar esse jovem estranho ao deserto. O que se pode imaginar é que ele viu algo no homem que nós, espectadores, só enxergaríamos no decorrer da história. A grandeza de Lawrence é tema de uma das mais interessantes reflexões mostradas no filme. Torna-se impossível quantificá-la, definir sua origem ou sequer saber se ela realmente existe. É provável que ela estivesse presente apenas nos olhos de pessoas sedentas por liderança, bravura e heroísmo, no que a imprensa prestou uma bela ajuda.

O cineasta britânico David Lean é largamente conhecido por seus épicos ambiciosos, dos quais Lawrence da Arábia é certamente o que tem maior relevância e tamanho. A primeira parte do filme, que mostra a trajetória de Lawrence junto aos beduínos até a conquista da cidade de Aqaba, que era dominada pelos turcos, é regida por uma fotografia e direção de arte espetaculares.

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A grandiosidade dos cenários remete aos filmes de faroeste, principalmente pela presença constante do deserto, mas reflete também noções de outras produções colossais, como E o Vento Levou e Os Dez Mandamentos. O uso de cores fortes é tão harmonioso e calculado que dá a muitas das cenas o aspecto de verdadeiras pinturas. As sequências no deserto, principalmente aquelas em que Lawrence está apenas junto a um pequeno grupo de pessoas, são construídas de forma habilidosa, com um uso constante do silêncio que ressalta não somente a quietude do ambiente, mas também um lento suspense que se compõe aos poucos, através da calma alternância de imagens.

A segunda parte do filme tem pouco ou quase nada dessa meticulosidade visual. A escolha reflete a derrocada do protagonista, que é colocado em cenários mais sombrios e desolados. Há pelo menos três momentos em que somos apresentados a cenas chocantes de solos coalhados de corpos mutilados e homens moribundos, minando o relativo otimismo demonstrado na primeira metade do filme.

Essa derrocada se inicia a partir da prisão e tortura de Lawrence, na qual há também a sugestão de um estupro que teria, finalmente, dobrado o personagem até o ponto de uma quase loucura. Desde o final da metade anterior, fica claro o risco que ele corre de se transformar de herói em vilão, um homem completamente dominado por instintos de ódio e violência. Enquanto no começo da segunda parte o protagonista parece exagerar em suas pretensões de grandeza, depois da tortura ele se torna uma pessoa frágil e pessimista, percebendo finalmente que será incapaz de dar aos árabes a liberdade tão prometida. Em uma conclusão deprimente, é dispensado do serviço e considerado inútil tanto por ingleses quanto pelo príncipe árabe Faisal (Alec Guinness), descobrindo que foi tratado como um joguete na mão de poderosos durante todo o tempo.

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Omar Sharif está muito bem como o comedido líder árabe Sherif Ali e ainda melhor se encontra Anthony Quinn na pele do ganancioso Auda abu Tayi. Mas ambos estão ali também para servir de escada à grande atuação de Peter O’Toole, que tem a difícil tarefa de construir camadas de transformação entre um homem bom e um homem mentalmente perturbado, no limite de suas forças. É uma interpretação sutil e complexa, que rendeu ao ator a primeira de suas 8 malfadadas indicações ao Oscar (o recorde de número de indicações sem nenhuma vitória).

Lawrence da Arábia é considerado um dos maiores (se não o maior) épicos de todos os tempos, e de forma completamente merecida. David Lean filma como ninguém e conta com um elenco e uma equipe de produção à altura para levar a cabo uma obra gigantesca como essa. Juntando a isso o roteiro primoroso e a narrativa fora do comum, que em sua conclusão se mostra um conto sobre as áreas mais sombrias da natureza humana, temos uma das grandes obras-primas da história do cinema. E, mesmo que eu já tenha visto o filme alguns anos atrás, nunca o tive em tão alta conta quanto agora, após assisti-lo em toda a sua majestade, com suas cores e cenários deslumbrantes explodindo lindamente na tela do cinema.

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