Clássicos | Quanto Mais Quente Melhor

some-like-it-hot-bfi-00m-e8mQuanto Mais Quente Melhor foi eleita pela AFI em 2007 como a melhor comédia e o vigésimo segundo melhor filme de todos os tempos. Para seu diretor, o grande Billy Wilder, foi sua obra-prima. Está na lista do Vaticano dos filmes condenados aos fiéis. São honras de enorme importância. Após ver e rever este CLÁSSICO três vezes em uma mesma semana, concordo em gênero, número e grau com todas a honrarias que ele obteve, inclusive a da Santa Casa, que é ótima para fazer listas dos filmes que devemos ver, justamente proibindo-os.

O filme conta a história de dois músicos falidos de jazz, Joe e Jerry, que, após presenciarem uma chacina (inspirada no Massacre de São Valentin) e serem as únicas testemunhas vivas do ocorrido, fogem vestidos de mulheres em uma banda feminina que está de partida para uma turnê na Florida. Durante a fuga, ambos conhecem e se encantam por Sugar Kane, a ingênua e bela cantora que está à procura de um marido rico.  Os tais tipos são vividos pelos grandes atores Tony Curtis e Jack Lemmon (esse foi indicado ao Oscar de melhor ator, justíssimo por sinal) e a moça, por nada mais nada menos que Marilyn Monroe.

some-like-it-hot-image-1A história não tem nada demais, foi inspirada em um remake alemão dos anos vinte. Mas com a maestria de Wilder, pulsa na telona uma fantástica crítica ao sexismo. O filme é sobre sexo; dois homens vestidos de mulheres mais o grande sex symbol de Hollywood esbanjando o que sabia fazer de melhor, em uma velada e irônica demonstração de como as mulheres eram vistas pela sociedade: um objeto de uso sexual.

O tema é seríssimo e Wilder, com seu talento para escrever diálogos de extrema inteligência, consegue velar nele um humor que dá uma certa leveza a essa crítica. Não que em alguns momentos você não se sinta incomodada com o machismo operante ali, mas a fala de Tony Curtis no instante em que “Daphne” reclama do assédio que sofreu por parte de um homem faz ressurgir a crítica presente: “Agora você sabe o que a outra metade passa”. E já emenda em outra piada amenizando o tom.

some-like-it-hot-marilyn-monroe-02É claro que tudo é levado para o extremo; e justamente por isso funciona perfeitamente. Tony é o galã cômico, Marilyn o objeto de desejo dele. Ela abusa de todo o conceito de loira ingênua e sensual para atraí-lo e este, de sua esperteza para tirar uma casquinha. O “absurdo” das situações e diálogos deste relacionamento só não gera mais graça do que o do outro presente, que na verdade serviria de escada para o principal. Mas, com o timing de comédia de Jack Lemon e de seu pretendente Osgood Fielding III vivido por Joe E. Brown, roubam a cena em um dos momentos mais hilários que eu já vi em tela.  Não é à toa que Lemon viria a trabalhar com Wilder por mais seis vezes. Os dois são o verdadeiro par perfeito do filme.

Em alguns momentos, Curtis, que muitas vezes viveu o galã em tela, parece desconfortável. É de fato e de consciência geral que Marilyn já estava passando por problemas pessoais e, tendo a maioria das suas cenas com ele, acabou afetando-o em uma série de takes.  Aconteceram até mesmo rusgas com o próprio Wilder, que já havia jurado nunca mais trabalhar com ela. Mas este sabia do poder dela em cena. Mesmo já aparentando visível dificuldade em atuar (em uma cena é possível perceber que ela está lendo o texto), todo seu charme fascina a todos, fazendo com que as dificuldades presentes fiquem em segundo plano. Marilyn é a perfeição de sensualidade e beleza no cinema. Ao meu ver, nunca houve outra persona que fascinasse a câmera como ela fazia. Como é dito em sua entrada no filme, “É um outro tipo de sexo”.

Well nobody is perfect - Some Like It Hot - wallpaperHá também a presença dos gângsters, uma homenagem do diretor a Scarface e aos filmes deste gênero. O ator George Raft tornou-se reconhecido pelo clássico de 1932. Seu Spats Colombo é claramente inspirado em Al Capone. Esse segmento acaba ficando em segundo plano, retornando à história somente nos últimos vinte minutos. Um acerto, pois deixa que toda a trama cômica flua e se desenvolva sem pressa.

Algumas pessoas consideram Crepúsculo dos Deuses como a grande obra de Wilder. Ele discorda, preferindo esta. Podemos fechar a discussão concordando com a AFI, é a melhor comédia de todos os tempos… ao menos a mais inteligente e irônica.

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