Clássicos | Império do Sol

Christian Bale in Empire of the Sun (1987)Em maio de 1987 chegava às telonas norte-americanas o décimo longa metragem de Steven Spielberg. Império do Sol foi o segundo longa do diretor que foge do termo “blockbuster,” os quais ele havia se tornado tão conhecido por dirigir. Após os clássicos como Tubarão e E.T., Spielberg começou a se aventurar em filmes mais densos e não tão pipocas. Não que Contatos Imediatos do Terceiro Grau seja de fácil compreensão, mas agora, nesta fase iniciada com A Cor Púrpura, a narrativa se tornou menos fantasiosa e infantil do que nos seus trabalhos anteriores. Steven, que já havia sido tachado pela imprensa como um “Peter Pan” do meio cinematográfico, começa finalmente a sair da zona de conforto. Como qualquer crescimento, há alguns tropeços. Até chegar em seu ápice em 1993, ele teve que amadurecer sua condução em drama com este clássico antes.

Em Império do Sol, presenciamos a história de James (Christian Bale, estreando no cinema), um garoto de onze anos que vive com seus pais (Rupert Frazer e Emily Richard) em um condomínio de luxo, onde só moram estrangeiros riquíssimos como eles, no ano de 1941 em Xangai. No momento, estão acontecendo duas guerras, a Segunda Mundial e uma outra, entre o Japão e a China. É através dos olhos deste garoto que tomamos conhecimento do que está ocorrendo no mundo ao mesmo tempo em que não. Sim, não conseguimos ter noção do que está ocorrendo além do campo de concentração em que James vai parar quando os japoneses invadem o país. Esse garoto habita vários lugares durante as duas horas e meia de filme, mas não a realidade em que se encontra o mundo.

vlcsnap-2010-09-09-17h13m32s144Ele começa em um elegante, confortável e fino lar, cheio de mimos e sonhos, como toda criança de seu nível econômico, e isso inclui a total alienação à situação do país em que vive. Não tem o menor contato com os chineses, a não ser por seus empregados. Seus pais demonstram uma falta de consideração com seus “vizinhos” tanto quanto se pode esperar de qualquer imigrante colonizador da época. No começo do filme, há uma cena especifica que mostra o nível de arrogância colonial; James está ao lado do seu pai. Enquanto este joga golfe ao redor da piscina da mansão, o menino questiona quem ganhará a guerra. O pai logo responde que eles, mas então o jovem retruca que estava falando da outra guerra, a qual o pai rebate com um “Esta não é nossa guerra”.

Após a ocupação do país pelo Japão, Jimmy, como se torna conhecido no campo, passa a viver uma dura jornada, mas mesmo assim continua a sonhar com seus aviões e a enxergar um mundo divertido e até mesmo audacioso, com personagens da vida real auxiliando-o a povoá-lo. Nesse mundo novo há vários estrangeiros de todos os níveis sociais. Basie (John Malkovich) logo se torna seu herói, um golpista norte-americano, que, apesar de continuar a tirar vantagem das pessoas, mesmo na situação em que todos se encontram, mostra um certo grau de simpatia para com o garoto. Claro que ele se aproveita o quanto pode da inocência do menino e acaba se tornando um dos responsáveis pela perda dela.

Durante os quatro anos em que permanece prisioneiro, o jovem sofre um cruel amadurecimento, em que se inclui até mesmo a puberdade. A Sra. Victor (Miranda Richardson), sua vizinha de cama, representa a figura materna e também a da descoberta de desejo sexual, cuidando dele e cativando-o como mulher. O Dr. Rawlins (Nigel Havers), acaba por ser um pai, dando aulas de inglês, enquanto se esforça para manter viva a vida, tanto física quanto moral, desses pobres seres.

7095_4Jimmy é um escapista, assim como todos nós hoje em dia. Mesmo com toda crueza em que se encontra, mantém viva sua paixão por aviões e ela é responsável por criar o respeito entre ele e os seus raptores e afastá-lo da guerra. Consegue até mesmo estabelecer uma amizade com um jovem kamikaze (piloto suicida), nos mostrando momentos de esperança em contraponto a toda a rivalidade e sangue em meio aos quais vivia a humanidade.

Claro que o nível de sensacionalismo spierlbergiano, que passou a enjoar com o tempo, se encontra a todo momento presente. Mas a história é tão bela e cativante que não importa quão clichê os diálogos soem. Nem mesmo a trilha, lindíssima mas carregada no melodrama – como em qualquer obra de John Williams – e o fato do filme ter sido feito exclusivamente para ganhar prêmios, fazendo com que finalmente Stevie mostrasse ao mundo que cresceu.

Adaptada da autobiografia de J.G. Ballard por Tom Stoppard, o roteiro mais o talento do jovem Christian Bale se sobressaem a todo grau de enfado que a direção e trilha tenta nos causar. A fotografia acompanha a falta de vida em que se encontram os personagens e suas habitações – isso nos ajuda a ter um vislumbre do quão mal está o mundo –, outro ponto de mesmice dramática do gênero, mas que aqui acerta em cheio em sua apresentação. Era como se ela fosse a única realidade que permeia a fantasia de Jimmy. Para o menino não importava quem vencesse, só queria pilotar um avião e encontrar seus pais um dia novamente.

christian_bale_empire_of_the_sun_04 O filme não é sobre nenhuma das guerras, nem deve ser caracterizado como de tal gênero. É sobre a jornada de um garoto que quando pensava que tinha tudo não tinha nada e quando acha que perdeu esse tudo encontra no nada o que realmente precisava para sobreviver com dignidade. E Spielberg não ganhou nenhum Oscar aqui. Talvez Império e A Cor Púrpura tenham sido a seu campo cheios de perdas e quedas, mas essenciais para o ganho de conhecimento e amadurecimento que vieram com Schindler.

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4 comentários

  1. Ontem eu aproveitei para assisti-lo no cinema porque este filme tem um significado pra mim. Até mesmo porque não tinha idade o suficiente na época em que foi lançado. A experiência foi diferente ao comparar com qualquer longa recente a ponto de pensar em escrever sobre isso. E de repente estou aqui lendo seu texto sobre o clássico, do qual concordo plenamente pela sua importância quanto pelo exagero do spielberg. Muito bom ler sobre clássicos da minha época.

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    • Não foi exclusivamente, mas foi a grande motivação de Spielberg. Foi muito dito isso na época por que ele mudou de linha narrativa, mesmo sendo bem sucedido com o que fazia antes. Porém, seu estilo “Peter Pan” não lhe rendia o Oscar que ele tanto ambicionava.

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