Especial CL 3 anos: Diretores Autorais – Joel e Ethan Coen

coenPoucos diretores possuem uma reputação tão bem estabelecida no cinema atual quanto os irmãos Joel e Ethan Coen. Eles, que começaram a fazer filmes ainda na metade dos anos 80, acabaram se tornando, junto com Tarantino, David Fincher e alguns poucos, parte do cânone cinematográfico da década de 90. Foi inclusive nesse estreito espaço de dez anos que separava o século XX do novo milênio que os dois irmãos de descendência judaica, nascidos no estado do Minnesota, fizeram três de seus mais importantes filmes: Barton Fink – Delírios de Hollywood, O Grande Lebowski e, é claro, Fargo.

Quando pensamos nos Coen, é difícil nos referirmos a eles de maneira individual. Cinematograficamente falando, um não existe sem o outro. Embora haja uma vaga divisão entre seus talentos e campos de atuação (Joel é graduado em cinema e acabou levando o irmão, que tinha pretensões literárias e se formou em filosofia, a participar de seus filmes) e Joel tenha recebido os créditos de direção por mais da metade das produções da dupla, o que hoje se sabe é que ambos participam em conjunto de todas as etapas de realização. Algumas das pessoas que trabalharam com a dupla afirmam inclusive que os irmãos pensam de maneira semelhante, o que explicaria a harmonia de ideias encontrada em todos os seus trabalhos.

Também é difícil saber muito sobre a história dos Coen, até porque eles são mestres na arte de iludir e inventar novas versões de si mesmos. Um exemplo. Em 2008, Roderick Jaynes foi indicado ao Oscar pelo trabalho de edição em Onde os Fracos Não Têm Vez. Tudo parece bem, exceto pelo fato de que Jaynes não existe. Foi completamente inventado pelos irmãos, que haviam editado o filme eles mesmos. E também não há como se esquecer de Fargo, a “história real” mais falsa do cinema.

Por seus filmes, é possível perceber que a dupla teve uma enorme gama de influências. A maior parte delas de um passado distante. Frank Capra, François Truffaut, Franz Kafka e, talvez a maior de todas, o diretor de comédias dos anos 40 Preston Sturges. Tudo se mescla em um caldeirão que acaba resultando em misturas bizarras, mas estranhamente intrigantes. Para entender melhor o que isso quer dizer, farei a seguir análises de seus filmes separados por alguns critérios temáticos e estilísticos.

O Crime Não Compensa

coen2A primeira categoria contempla os filmes que tratam de crimes e criminosos. Considerando que grande parte de sua filmografia aborda o tema de alguma forma, fiz uma restrição ainda maior, escolhendo apenas aqueles filmes sobre bandidos que acabam pagando de alguma forma por seus malfeitos, criando uma espécie de gigantesca lição de moral.

Gosto de Sangue, a estreia da dupla na direção, já trazia muitos elementos que fariam parte da história cinematográfica dos dois. O filme é um conto neo-noir sobre um homem que contrata um mercenário para matar sua esposa, que está tendo um caso com um bartender. As circunstâncias, porém, acabam fugindo de seu controle.

Os paralelos com Fargo são óbvios demais. Curiosamente, as heroínas dos dois filmes são vividas pela atriz Frances McDormand, esposa de Joel. Os longas compartilham atmosferas carregadas, embora o primeiro se passe constantemente à noite e o segundo seja dominado pela brancura nevada da região norte dos Estados Unidos. Em ambas as histórias, uma relação conjugal problemática é o centro do conflito. Os homens são a parte fraca. Incapazes de levar a cabo seus planos, contratam outros para fazê-lo, o que acaba se virando contra eles. Os dois filmes são assombrados por seus próprios demônios. O investigador diabolicamente sádico Loren (M. Emmet Walsh, simplesmente genial) no caso de Gosto de Sangu, e o sequestrador quase catatônico de Peter Stormare em Fargo.

Apesar de suas semelhanças, há uma diferença fundamental entre os filmes. O primeiro é ótimo, mas apenas o segundo se tornou uma verdadeira obra-prima. Fargo é um conto sobre a brutalidade humana muito mais contemplativo e filosófico, além de emocionalmente complexo. Todos os personagens têm seus medos e anseios bem definidos na tela. E é preciso lembrar que os dez anos que separam os filmes também representaram uma evolução estética impressionante para a dupla, que filma como ninguém, em Fargo, paisagens típicas do lugar onde cresceram.

coen3Ajuste Final é uma das obras menos conhecidas dos cineastas, o que é uma pena. Ofuscado por outros clássicos de maior escala sobre a máfia, como O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros, ele é um elegante conto sobre duas gangues rivais e um homem que arrisca tudo para ajudar um dos lados. O filme vai na contramão do que geralmente vemos no gênero, traçando personagens pouco glamurizados em uma trama repleta de melancolia.

Em Queime Depois de Ler, essa elegância assume ares de sátira e autoparódia. O filme tem características marcantes da fase mais recente dos irmãos, que incluem uma incrível sensação de vazio e aleatoriedade. Os próprios personagens são incapazes de compreender os acontecimentos que os cercam. Aliás, todos dentro desse universo são tão exagerados e cômicos que poderiam muito bem pertencer a uma outra categoria.

Por fim, Matadores de Velhinhas é um remake e uma homenagem dos irmãos a um filme dos anos 50 que adoravam. Talvez porque o roteiro não tenha vindo inteiramente da cabeça da dupla ou porque acabaram carregando demais a mão na construção dos personagens, é complicado descobrir o motivo, mas este é também um dos poucos trabalhos realmente ruins dos diretores. Afinal, todo mundo dá suas tropeçadas de vez em quando.

Um Homem Contra o Mundo

coen4Este subgênero típico dos cineastas se iniciou com Barton Fink, um filme sobre a crise criativa que os irmãos sofriam na época. Todas as obras dessa subdivisão apresentam personagens centrais incapazes de lidar com o universo ao redor. No caso de Fink (John Turturro), seus maiores pesadelos se materializam e o colocam dentro de um verdadeiro inferno na Terra.

Já Ed Crane (Billy Bob Thornton), de O Homem Que Não Estava Lá, sofre de graves problemas de comunicação. Ele só é capaz de se comunicar com o público através de um voice over, uma ótima sacada que novamente remete aos filmes noir. A estética sombria e repleta de linhas tortas do filme lembra o impressionismo alemão. É difícil para o personagem compreender as pessoas de sua vida porque ele mesmo parece não ter ambições ou sonhos. A maior ironia é que sua vida despenca justamente quando tenta buscar algum ganho pessoal por conta própria.

Um Homem Sério e Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, frutos da safra mais recente do cinema, refletem a atração que os Coen sentem pelo azar. Ambos judeus, são personagens perseguidos pela má sorte e incapazes de enxergar qualquer vislumbre de sucesso no futuro. Llewyn Davis, o grande artista fatalmente considerado medíocre pela sociedade, talvez constitua a melhor mescla entre comicidade e depressão dentre todos os trabalhos da dupla. É também uma obra, em última análise, bastante autorreferencial.

Comédias Abobalhadas

coen5As comédias escancaradas dos irmãos Coen costumam ter alguns detalhes predominantes. Personagens exagerados e caricaturais, com características físicas facilmente reconhecíveis, além de uma trilha musical vibrante, uma trama intrincada e um senso de humor fora do convencional, que em alguns casos beira o cartunesco. As comédias também são o tipo de filme em que os irmãos Coen escorregam com mais frequência em termos de qualidade.

Do lado positivo, há o excelente O Grande Lebowski, que levou à fama o personagem desligado e relaxado conhecido como The Dude (Jeff Bridges). Como usual, ele percorre um labirinto povoado por pessoas estranhas que sempre querem algo dele, embora o próprio raramente mova um dedo para botar os acontecimentos em marcha. No filme, também tem destaque a estrutura de poder vislumbrada pelos cineastas, que geralmente colocam em cena homens odiosos atrás de grandes mesas em escritórios sombrios e prédios gigantescos.

Arizona Nunca Mais é uma divertida aventura sobre um casal improvável que decide raptar um bebê. O tom leve acaba caindo bem para os diretores, que fazem uma comédia beirando o cartunesco, sempre cheia de referências sarcásticas aos filmes de criminosos de décadas passadas. E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? segue o mesmo caminho mais leve, com uma trilha sonora excelente e atuações extremamente divertidas. Apesar da comédia, a história é baseada na Odisseia de Homero.

coen6Do lado negativo dessa conta, ficam Na Roda da Fortuna e O Amor Custa Caro. O primeiro é uma homenagem aos filmes bem intencionados de Frank Capra e o segundo faz referência às comédias românticas dos anos 30. Novamente, os Coen parecem ter ficado presos demais a sua proposta, criando filmes exagerados sem a tradicional carga cômica que deveria acompanhá-los, apesar das boas tiradas visuais.

No primeiro caso, o personagem Norville Barnes (Tim Robbins) é mal desenvolvido e bobalhão demais. Em vez de adorável, acaba sendo uma presença particularmente irritante. Já O Amor Custa Caro é um projeto inteiramente errado, que nem parece ter saído das mãos dos dois cineastas. Uma coisa que pode explicar o fracasso é o fato de o roteiro não ter sido originalmente escrito por eles.

Faroestes

coen7Os dois longas restantes poderiam ter sido integrados à categoria de filmes sobre crimes, mas eles têm tantas características próprias e únicas que acabam merecendo uma nova definição. Onde os Fracos Não Têm Vez e Bravura Indômita são obras com muitas referências ao faroeste tradicional, mas terminam por subverter o gênero.

Em primeiro lugar, há em ambos a figura do grande pistoleiro (Javier Bardem como Anton Chigurh e Jeff Bridges como Rooster Cogburn). Os filmes também dividem uma crueza que é um pouco rara nos demais trabalhos dos Coen, compartilhando uma impiedade aparentemente excessiva em relação a todos os seus personagens. Além disso, há a fotografia e paisagens áridas e ensolaradas, típicas do oeste americano.

Porém, o mais impressionante em ambos os casos é como eles tratam de desmistificar o poder de seus personagens. Rooster, velho e bêbado, já não possui mais a grande pontaria da juventude. E, embora tenha seu momento heroico, acaba morto e esquecido como atração de um circo itinerante. Já Chigurh tem sua imagem destruída em uma das cenas mais impressionantes de Onde os Fracos Não Têm Vez. Depois de acompanharmos por mais de duas horas sua dureza e impiedade contra os inimigos, vemos o vilão se despedaçando completamente devido a um simples acidente de carro.

Os Coen sempre adoraram heróis e personagens caricatos, mas gostam ainda mais de colocá-los sobre o pano de fundo da realidade. E, nesse caso, ninguém é exatamente o que parece ser. Os irmão parecem se divertir ao mostrar que frequentemente os imprevistos se encarregam de destruir as mais concretas máscaras.

Anúncios

Deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s