Especial CL 3 anos: Diretores Autorais – Woody Allen

Woody Allen em um de seus primeiros sucessos "Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar" (1972)
Woody Allen em um de seus primeiros sucessos, “Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar” (1972)

Não deve haver no cinema norte-americano um diretor tão genuinamente autoral e prolixo quanto Woody Allen. Quem conhece pelo menos uma pequena parte de seus filmes e tem um olhar mais sensível, consegue identificar seu estilo impresso em todos os filmes que escreve, dirige e, por muitas vezes, atua. O personagem neurótico, pessimista, sempre em conflitos românticos que denotam seu complexo de Édipo aguçado surge sempre em contraste com sua visão de mundo liberal e por muitas vezes amoral, já que seus heróis jamais defendem convenções sociais pré-estabelecidas.

Seus protagonistas são o próprio autor, o narrador onisciente, sempre um alter-ego explorando a imensidão da confusão de uma mente brilhante que é a de Allen. E por isso mesmo, juntando com o volume de obras que produz – praticamente uma obra por ano desde 1966, somando-se cerca de 50 filmes – por vezes soa repetitivo. Mas o cinema é para Allen sua melhor forma de extravasar os anseios que confessaria numa sessão de terapia. O psicanalista no caso, somos nós, os espectadores.

Nascido em 1º de dezembro de 1935 como Allen Stewart Kognigsberg, no bairro nova-iorquino do Bronx, mas crescendo no Brooklyn, o cineasta estreou no cinema em 1962, quando escreveu o roteiro do curta-metragem The Laughmaker. Em 1966, lançou seu primeiro filme, O que há, Tigresa?, uma comédia protagonizada por ele mesmo, na qual interpretava um espião japonês.

Allen e Diane Keaton em "Noivo Nerótico, Noiva Nervosa" (1977), reparem na referência do pôster.
Allen e Diane Keaton em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977), reparem na referência do pôster.

Allen costuma fazer referências aos seus ídolos cinematográficos nos longas que filma. Entre eles estão Ingmar Bergman, Groucho Marx, Cole Porter e Federico Fellini. Inspirado em Fellini, por exemplo, ele fez “Memórias”, de 1980. Já Ingmar Bergman e Sergei Eisenstein são lembrados em “A Última Noite de Boris Grushenko”, de 1975.

Casamento, relacionamento e sexualidade são temas recorrentes nos roteiros de Allen. As discussões que propõe quando aborda esses assuntos geralmente são permeadas de ironia e muitas vezes, pessimismo. O cineasta, porém, oscila bem do drama existencial para comédias de humor ácido e sagaz. Foi durante os anos 1970 que Allen passou a acumular prestígio, seus filmes tornaram-se mais populares e começaram a ser percebidos pelo público europeu, principalmente o francês (afinal, os franceses combinam muito com o estilo do diretor).

Em 1977 lança um de seus melhores filmes, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (péssimo título em português para “Annie Hall”), e recebe o Oscar de Melhor Filme, Diretor, Atriz (para Diane Keaton) e Roteiro original. Aí se inicia uma fase de filmes mais lapidados artística e tecnicamente, como “Manhattan” (1979), uma declaração de amor em preto e branco à sua cidade, Nova York. Um filme absolutamente autoral.

Cena clássica de "Manhattan" (1979)
Sob a ponte do Brooklyn, cena clássica de “Manhattan” (1979)

Diane Keaton, aliás, pode ser considerada a primeira “musa” de Woody Allen, pois fez parceria com o cineasta nos anos 1970, desde “O Dorminhoco” (1973). Depois dela, Mia Farrow tomou o lugar de musa (e também tornou-se esposa), participando de nada menos do que 13 filmes, incluindo, claro, clássicos como “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985), mas encerrou sua parceria após um escândalo que não só terminaria com o casamento como mancharia a reputação de Allen por um bom tempo, o romance dele com a filha adotiva de Mia, Soon Yi Previn. Depois de um período conturbado, com bons filmes, mas sem muitos sucessos (com exceção do premiado “Tiros na Broadway”, de 1994), Allen retornaria aos bons tempos quando decide partir para a Europa, e em 2005 realiza no Reino Unido “Match Point” (e encontra sua nova musa, Scarlett Johansson). Sua excursão pela Europa também rendeu os sucessos “Vicky Cristina Barcelona” (2008) e “Meia-Noite em Paris” (2011).

Suas produções nunca se propuseram a grandes orçamentos. O cineasta evita o emprego de efeitos visuais caros e complicados. Allen sempre voltou suas concepções para elencos reduzidos, poucas locações, muitos interiores e observação existencial. Com isso, seus filmes que quase sempre são sucessos de um público segmentado e de crítica, pagam seus custos, mas nunca são mainstream. Essa situação dentro da indústria cinematográfica norte-americana proporcionou-lhe uma autonomia de autor, criando uma forma de orquestrar sua carreira fora do sistema Hollywoodiano. Deste modo pôde realizar filmes com influências em Bergman e Tchecov, como “Interiores” (1978), “Hanna e Suas Irmãs” (1986) e “A Outra” (1988).

Woody Allen e um de suas "musas", Scarlett Johansson, com quem fez 3 filmes.
Woody Allen e um de suas “musas”, Scarlett Johansson, com quem fez 3 filmes.

Allen também chegou a escrever roteiros a partir de canções que lhe remetiam a memórias de sua infância e juventude, como “A Era do Rádio”, filmou biografias de músicos como “Poucas eBboas”, mas acima de tudo costuma tornar dados de sua própria biografia em ficção, ridicularizando-os, como judeu comum norte-americano inserido no show business Nova-Iorquino. Todos esses ensaios estilísticos o fizeram amadurecer como cineasta ao longo destes quase 50 anos de carreira.

Abaixo uma pequenina lista de alguns dos considerados melhores filmes do cineasta, em ordem cronológica (clicando no título, assista ao trailer). Mas é claro que sua filmografia é vasta e a busca por todas as suas obras vale a pena.


WA Bananas bAnos 1970

Bananas (1971) – Um analista de testes de produtos viaja a um país da América Latina de férias, e acaba tornando-se o líder daquela nação, liderando uma rebelião contra os EUA. Este é o primeiro sucesso de Allen, ainda na fase das comédias nonsense.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) – O filme mais adorado de Allen é um romance sobre as idas e vindas entre o humorista Alvy Singer e a cantora iniciante Annie Hall, num relacionamento visto em flashback desde a gênese até o momento em que a ruptura é inevitável. Hall é o sobrenome de batismo de Diane Keaton, cujo apelido, olha só, é Annie.

Manhattan (1979) – Um filme sobre apaixonar-se. Uma declaração de amor por Nova York em cada quadro do filme, que possui uma das melhores cenas de abertura da história do cinema, ao som de “Rhapsody in Blue”, de George Gerwis. A trama é sobre um roteirista de TV divorciado que está num relacionamento com uma garota recém-saída da adolescência, mas sua vida se complica quando se apaixona pela amante de seu melhor amigo.


WA Zelig bAnos 1980

Zelig (1983) – Um ‘documentário” sobre um homem que pode parecer e agir como qualquer um a sua volta, e encontra em seu caminho várias figuras famosas.

A Rosa Púrpura do Cairo (1985) – Uma sonhadora espectadora de cinema que sonha encontrar o protagonista de seu filme preferido. Num passe de mágica, o personagem que brilhava na tela grande escapa da película e resolve viver um romance com sua maior fã.

Hanna e Suas Irmãs (1986) – Allen sabe escrever grandes personagens femininas, em neste ele encontra seu ápice. Sobre 3 irmãs que num espaço de um ano experienciam diferentes tipos de amor. Entre elas, o cineasta conseguiu criar personagens complexas compostas por medos e desejos.

WA Poderosa Afrodite bAnos 1990

Tiros na Broadway (1994) – Nesta subversão do gênero noir, Allen retrata a Broadway dos anos 1920. Um escritor fracassado e egocêntrico só consegue dirigir uma peça bancada por gângsteres. Por isso tem que escalar a namorada do chefão, que não é capaz de decorar as falas, e está seu guarda-costas que vive dando conselhos (ironicamente corretos) sobre a peça. Sem contar que a principal estrela do espetáculo está em crise.

Poderosa Afrodite (1995) – Aqui Allen interpreta mais um escritor, desta vez colunista de esportes, que tem um filho adotivo que descobre ser um gênio, então decide ir atrás da mãe biológica do menino, uma prostituta.

Desconstruindo Harry (1997) – Como o próprio título já indica, aqui Allen desconstrói seu “eu-lírico” por assim dizer, elevando às últimas consequências aquela persona que está presente em praticamente todos os seus filmes, o neurótico. Um escritor sofrendo com bloqueio criativo relembra seu passado e as histórias de seus best-sellers, enquanto personagens, reais e ficcionais vêm atrás dele.

WA Vicky Cristina Barcelona bAnos 2000

Match Point (2005) – Chris Wilton é instrutor de tênis em Londres. Aquilo que lhe privou das quadras profissionais lhe apresentou a Tom Hewett. Quando a bola bate na rede, resta torcer para que caia no outro lado. E caiu. Chloe, irmã de Tom, se apaixona por Chris. A família Hewett passa a proporcionar uma vida que o irlandês podre jamais pensaria ser possível. Mas a estabilidade não é o forte das pessoas, principalmente quando se conhece Nola, namorada de Tom. Sobre desejo, culpa, crime e castigo.

Vicky Cristina Barcelona (2008) – Duas norte-americanas, melhores amigas, estão passando o verão na colorida Barcelona, Vicky, aqui como o alter-ego de Allen, pragmática e pessimista, e Cristina, uma garota que só sabe o que não quer. Mesmo tão diferentes, acabam apaixonadas pelo mesmo home, o pintor Juan Antonio, mas tudo se complica mesmo com a volta de sua ex-mulher, a louca Maria Elena.

Meia-Noite em Paris (2011) – Mais uma incursão de Allen ao realismo fantástico. Sobre um escritor (como sempre), que de forma mágica se transporta todas as noites para a Paris dos anos 1920 e entra em contato com grande nomes da época, desde Ernest Hemingway, passando por Picasso, Salvador Dalí, Luis Buñuel e F. Scott Fitzgerald e sua esposa Gertrude Stein. Claro que o personagem, Gil, tem que retornar ao presente, e acaba percebendo que romantizar demais o passado pode ser apenas uma válvula de escape para os problemas do presente.

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