Especial CL 3 anos : Diretores Autorais – Edgar Wright

Todos sabem que o ambiente em Hollywood é cheio de desconfianças e intrigas, e quando um diretor autoral assume um grande projeto, imediatamente falam que ele será um peão nas mãos dos executivos dos estúdios. “Impregnar sua própria assinatura a um filme? Praticamente impossível.” O cativo público do diretor prontamente responde. O que não deixa de ser verdade, como já aconteceu recentemente com alguns diretores.

Mas o que acontece quando um diretor autoral não se deixa controlar por Hollywood, e ousa desafiar as decisões e dos executivos e do estúdio? Ora, a resposta é simples, ele é demitido! Isso é o que aconteceu com o britânico Edgar Whight. Demitido da Disney/Marvel quando cuidava da pré-produção de O Homem-Formiga, o filme o qual lutou por vários anos para produzir. A desculpa dada por Kevin Feige, executivo da Marvel, foi devido a diferenças criativas entre Whight e a equipe de produção.

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Edgar Wright começou sua carreira profissional escrevendo e dirigindo várias séries de comédia para as redes de televisão inglesas. Em 1996, Wright dirigiu Simon Pegg, um jovem e talentoso ator cômico na série Asylum para a Paramount Comedy. Em 1998 juntou-se a Pegg novamente para criar Spaced, a sitcom de sci-fi e terror que revolucionou o gênero na Inglaterra. Com Wright na direção e Pegg no roteiro, a série do Channel 4 foi um sucesso, o que permitiu que a dupla levassem ao cinema Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead), uma sátira aos filmes de terror com zumbi que deu início a trilogia do sangue e sorvete, popularmente conhecida como Trilogia dos Três Sabores de Cornetto, que também conta com Chumbo Grosso (Hot Fuzz) e Heróis de Ressaca (The World’s End).

Todo Mundo Quase Morto conta a história de Shaun, a tradicional figura de um perdedor sustentado pela namorada e seu amigo Ed (Nick Frost), que assume o papel de salvador fazendo o que sabe fazer de melhor, sobreviver. O filme imediatamente chamou atenção do público e crítica, em grande parte pela forte identidade narrativa e fotográfica impregnado pelo Wright. O maior destaque do filme é sua dinâmica sempre ágil, com uma edição muito primorosa, com cortes extremamente rápidos e secos em close-up, se tornaram a principal marca de Wright que se repetiria em todos seus filmes subsequentes.

Wright baseou-se em vários filmes de zumbis para a realização desta sátira, entre eles Madrugadas dos Mortos, Noite dos Mortos-Vivos, Um Lobisomem Americano em Londres, Extermínio, entre outros. Porem, diferente de outros filmes de sátira, a inteligência é o ponto forte das histórias. Wright utiliza um humor negro bastante ácido, característico dos ingleses. Em certos momentos, lembramos muito dos esquetes e dos filmes do Monty Phyton, o grupo de comédia mais famoso da Inglaterra, que fez muito sucessos nos anos 70 e 80.

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Em Chumbo Grosso, Wright e Pegg retornam sua parceria para satirizar os filmes de ação policial e suspense como Máquina Mortífera, Duro de Matar, O Iluminado, Assassinato no Expresso do Oriente, entre outros. A história é ao redor de Richard, Simon Pegg novamente, um policial eficiente que é enviado para uma cidadezinha no interior da Inglaterra, e lá se depara com um culto de uma sociedade secreta que domina a cidade. Outra marca do filme é seu elenco de apoio que conta com Timothy Dalton, o eterno 007, e as participações especiais de Peter Jackson e a ganhadora do Oscar Cate Blanchet, que aparece apenas de costas.

O terceiro filme é Heróis de Ressaca, que satiriza filmes de sci-fi e apocalipse como Blade Runner, Os Meninos do Brasil, Guerra dos Mundos, O Dia Que a Terra Parou, entre outros. Wright mostra Simon Pegg novamente como um perdedor que tenta reunir os amigos para relembrar seus dias de glória na adolescência. E durante seu percurso de pub em pub, descobrem que todos os habitantes da cidade foram substituídos por aliens robôs.

Assim como em Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Heróis de Ressaca mantiveram toda a agilidade narrativa que encantou o público, com uma pequena diferença, esses dois últimos filmes tiveram muito mais sequências de ação. Porém sequências limpas e super ágeis, assim como toda a narrativa. As cenas de ação se mesclam perfeitamente com o teor cômico presente no filme resultando em tomadas muito divertidas e hilárias.

O nome da trilogia se dá devido a uma piada recorrente dos protagonistas, onde se é dito que um Cornetto é a melhor cura para a ressaca. Em Todo Mundo Quase Morto o personagem de Pegg come um Cornetto de morango, em Chumbo Grosso um clássico e em Heróis de Ressaca um de Menta, fazendo assim uma associação das cores com a temática dos filmes: Vermelho = Sangue, Azul = Polícia e Verde = Alienígenas. Até mesmo essa associação de cores é uma sátira com a Trilogia das Cores do diretor polonês Krzystof Kieslowski.

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Já em Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. The World), Wright fez uma verdadeira homenagem aos videogames, principalmente aos jogos de 8 bits que marcaram sua adolescência. Scott Pilgrim é baseado em uma HQ de mesmo nome que conta a história de um adolescente normal, que hora faz as vias de um perdedor e hora assume o controle para si, que precisa lutar contra 8 ex-namorados malignos da Ramona Flowers para conseguirem viver em paz. O filme conta com um grande elenco de vários atores que fazem parte da atual cultura pop do cinema, nomes como Michael Cera, o personagem título, Chris Evans, que na época tinha acabado de fazer o Tocha Humana em Quarteto Fantástico e Brandon Routh, de Superman O Retorno.

Mas as influências de Scott Pilgrim vão além dos games, podemos dizer que todos os ícones da cultura pop estão representados no filme. Que vai desde Kill Bill, passando por jogos de RPG e quadrinhos. O filme continua com a narrativa ágil, e seus cortes secos, mas dessa vez Wright utiliza vários recursos de quadrinhos para agregar valor a sua obra. Onomatopeias, descrições em tela, transições quadrinescas são a marca deste filme. Além do abusivo uso de efeitos visuais e lutas coreografadas. Isso sem contar com uma trilha sonora inspirada, mesclando perfeitamente pop, tecno e rock de acordo com o inimigo enfrentado pelo personagem título, o que torna toda a experiência ainda mais completa.

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Curioso notarmos, que em todos os trabalhos do Wright há sempre uma constante, a personalidade do personagem principal. Tanto Simon Pegg e Michael Cera são fisicamente parecidos, e sempre começam as histórias desacreditados e humilhados em relação a todos a sua volta. E com o passar dos atos dos filmes, vão se desenvolvendo até se tornarem extremamente confiantes e símbolo de esperança de seus companheiros ao final do terceiro ato.

A disputa com a Marvel

A história de Edgar Wright com a Marvel é bem antiga. Antes mesmo de O Homem de Ferro estrear o universo cinematográfico da Marvel nos cinemas, Wright tentava convencer os executivos da Marvel a deixá-lo filmar seu personagem preferido: O Homem-Formiga. Ele tinha até um roteiro base pronto.

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Mas apenas após o sucesso que Scott Pilgrim fez com o público e crítica, conseguiu convencer os executivos da Marvel a deixar Wright fazer o filme que ele tanto queria. Mas precisamente o diretor geral da Marvel Kevin Feige, que após o estrondoso sucesso da franquia Marvel no cinema, deu sinal verde ao Wright com um discurso bastante animador:

O Homem-Formiga será o filme mais autoral da Marvel, o filme é do Edgar e ele o fará como bem entender, iremos apenas adequar sua história dentro do universo Marvel.

Com essa declaração tínhamos uma certeza. O Homem-Formiga estava em ótimas mãos. Porém, sempre há um porém, Wright aparentemente não conseguiu aguentar a pressão de trabalhar em um grande projeto. Principalmente no que se dizia a respeito de cumprir seus prazos.

Em seu trabalho anterior, Heróis de Ressaca, que foi adiado duas vezes justamente por conta de atrasos em sua produção, mostrou que Wright é bastante controlador e preza pela qualidade, tudo tem que ser feito de sua maneira, e que não gosta de interferências externa na execução de sua obra. Algo que não foi compreendido pela Marvel.

BoZHChVIgAEYQUpSua busca pela perfeição o fez reescrever o roteiro inúmeras vezes, incluir e retirar personagens a seu bel-prazer. Basicamente a pré-produção do filme não andava, o que irritou bastante Kevin Feige e os demais executivos, com medo que o cronograma não fosse cumprido. Resultado, como já foi dito, foi sumariamente demitido do projeto o qual existe apenas devido a ele.

Mas quando se trabalha em um blockbuster, está sempre sujeito aos mandos do estúdio. Vários outros diretores, como o próprio Joss Whedon que trabalha na Marvel, postaram nas redes sociais mensagem de apoio a Wright. E sua saída da Marvel abriu uma grande discussão sobre o trabalho autoral x genérico em Hollywood nos dias de hoje em várias mídias diferentes.

Felizmente, esse revés no projeto de Wright parece que não o afetou muito, e já foi anunciado que ele irá fazer mais um trabalho autoral, dessa fez para a Sony, chamado Grasshopper Jungle. Ainda sem data de estreia, mas vamos torcer que Wright continue a fazer os filmes do jeito dele sem ter um estúdio podando suas asas.

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