Especial CL 3 anos : Diretores Autorais – Christopher Nolan

Christopher NolanNo início do século passado o cinema se estabeleceu como uma das mais lucrativas indústrias do entretenimento, e muito desse sucesso decorreu da adoção de princípios estilísticos e fórmulas que Hollywood passou a impor a suas obras. Porém, o sucesso secular também foi possível graças à evolução tecnológica e à flexibilidade que essa indústria soube aplicar à suas regras, agregando novos elementos a fim de se reinventar e garantir o lucro no balanço do ano.

O britânico Christopher Nolan surgiu no cenário independente da Inglaterra e, mesmo após migrar para os Estados Unidos, manteve muitas de suas influências que o trouxeram fama, abordando com uma certa frequência personagens masculinos confusos e ambíguos que tomam para si a perspectiva da narrativa do filme, mesmo que a história esteja inserida em um realismo fantástico. Assim, por mais que você ache que blockbusters não sejam filmes de verdade – e aqui não é o local para se discutir isso – Nolan sabe unir muito bem a conformidade de Hollywood com a criatividade.

A filmografia de Nolan é marcada pela confusão, no bom sentido da palavra. O cineasta gosta de desviar a atenção e enganar o espectador, sem contudo, fazer isso de maneira desonesta, subestimando o intelecto do público. Pelo contrário, Nolan trata a plateia como um reflexo do personagem que carrega o filme, compartilhamos das angústias dos protagonistas e somos inseridos em suas estruturas narrativas amplas que embaralham o tempo e o espaço, sobrepondo universos distintos e complexos.

É possível perceber isso já desde o primeiro trabalho do diretor. Em seu primeiro longa, Following (1988), que contou com um orçamento de apenas 6 mil dólares, Nolan apresenta linhas temporais distintas, e isto só fica claro ao espectador lá pela metade do filme, quanto temos uma certa noção da história que está nos sendo apresentada. Adotando um estilo meio neo-noir, o diretor nos faz compartilhar do sentimento do personagem principal, Bill, que também não tem dimensão do problema que está envolvido ao seguir pessoas aleatórias na rua.

C NolanMas o ápice dessa brincadeira com linhas temporais se deu com Amnésia (2000), em que temos uma linha narrativa apresentada de trás pra frente, intercalada por uma linha narrativa que obedece a secessão natural do tempo. No filme Leonard não consegue gravar memórias curtas e tem dificuldade para se lembrar do seu passado, ao mesmo tempo que busca vingar a morte da esposa. Ao montar o filme seguindo uma mão inversa, Nolan nos transforma em Leonard, não sabemos o que aconteceu com o nosso passado e somos incapazes de reter memórias posto que estas sequer nos foram mostradas ainda.

Em O Grande Truque (2006) Nolan monta uma estrutura composta por dois protagonistas que perpassa por histórias dentro de outras histórias; o objeto que serve de congruência para essa narrativa é o diário de um mágico. Em certo momento, um personagem lê um diário de outro, que relata a leitura do diário do primeiro personagem! (Releia quantas vezes for necessário para entender, =P), Cada camada sobreposta revela segredos e pistas que na mesma medida que direcionam personagens e público, os engana. E claro, não bastasse a escolha de “história dentro de uma história”, ainda tempo uma linha temporal cronológica.

Em A Origem (2010), essas camadas também são expostas pelo diretor, dessa vez representadas por sonhos, cada um com sua estrutura e tempo próprio, mas que se influenciam entre si. Os vários níveis de realidade, acrescido à construção não-fantástica da representação dos sonhos, criam dúvidas no espectador, que tem dificuldades em diferenciar se aquilo que está vendo é real ou não, a mesma dificuldade, diga-se, que os personagens possuem. Dessa vez, o objeto comum em cada nível atingido é o totem de cada personagem.

Além dessa estrutura narrativa presente um pouco mais ou um pouco menos em cada um de seus filmes, Nolan também é conciso em relação à escolha de seus personagens. Os protagonistas do realizador são sempre personagens incompletos, que possuem fraquezas singulares e que estão sempre dispostos a controlar a realidade na qual estão inseridos, incluindo a percepção que o mundo ao redor possui deles.

O que muda de um filme para o outro, e isso não poderia ser diferente, é a motivação de cada personagem. Em Following, temos Bill vivendo uma vida tediosa e aparentemente sem sentido algum até que se envolve nos furtos cometidos por Cobb. Em Amnésia Leonard é assombrado pelo passado que não lembra – ou que optou esquecer. Em O Grande Truque, dois mágicos vivem vidas aparentes, a fim de manterem certos segredos, em A Origem Cobb tenta tornar em realidade o sonho de viver com sua esposa já falecida. Sem contar, claro, Bruce Wayne e seu alter-ego, Batman, que combate o crime em uma Gotham no fundo do poço (para ler um artigo completo sobre a Era Nolan de Batman, clique aqui).

Todas essas realidades dos personagens vão aos poucos sendo expostas e confrontadas por elementos externos que levam ao declínio do personagem, expondo-o e forçando-o a sair daquela zona de conforto outrora criada para manter uma realidade desejada. Também comum aos protagonistas de Nolan, está a busca, quase doentia, por uma causa, ao passo que chega a gerar conflitos com os demais personagens. O seguinte diálogo ocorre em O Grande Truque:

Nikola Tesla: Vá para casa. Esqueça isso. Eu sei reconhecer uma obsessão, nada de bom pode vir disso.
Robert Angier: Por quê? Você não conseguiu coisas boas com sua obsessão?
Nikola Tesla: Bem, a princípio sim. Mas eu a segui por tempo demais. Sou escravo delas… e um dia elas vão escolher me destruir.
Robert Angier: Se você entende de obsessão, então sabe que eu não vou mudar de ideia.

Veja o infográfico abaixo e compare a obsessão de cada personagem na filmografia do diretor:

Infográfico NolanAtravés desses passeios entre camadas, ações e reações, Nolan por vezes usa a alegoria da ficção científica para mostrar que não existe uma realidade idêntica e palpável a todo mundo. Por certo, fica claro que cada pessoa vê o mundo à sua forma, e cada uma constrói sua realidade com base nessa visão, modificando-a à sua maneira a fim de acatar seus próprios desejos, nem que para isso eles tenham que criar suas próprias verdades. Lá pelo ato final de O Grande Truque, o ilusionista Robert Angier, vivido por Hugh Jackman diz:

“As pessoas sabem que o mundo é sólido como uma rocha, mas se você as faz duvidar disso, mesmo que por um instante, então o que você vê em seus olhos é algo muito especial”.

O excesso de tramas complexas inseridas em um filme, acrescido ao fato de serem os protagonistas inicialmente a única fonte confiável de informações, fazem com que o público tenha uma maior atenção ao que está sendo exposto em tela. Conhecendo o público médio de filmes blockbusters (Thanks a lot, Michael Bay!), Nolan lança mão de uma ferramenta que é base de dos principais argumentos que o criticam: a explicação em excesso.

Por mais que em diversas vezes o filme convide o espectador a prestar atenção nos detalhes que são apresentados em tela – e não são poucos – o próprio estilo cinematográfico do diretor pede que a explicação seja feita, e embora algumas pessoas possam argumentar que alguns finais são abertos, a tendência é que Nolan sempre deixe o final redondo, não necessariamente mastigado, mas também nada muito solto. E isso não é um mau sinal. Segundo o historiador de cinema, David Bordwell, o diretor Stanley Kubrick revelou uma vez à Nicole Kidman que era essencial que um diretor repetisse informações sobre a história para que o público pudesse acompanhar. Em outras palavras, completa o autor, o padrão ajuda a organizar o filme, o que por sua vez ajuda a moldar a experiência do espectador, mesmo que inconscientemente.

E a organização dos filmes de Christopher Nolan se dá principalmente por ter o diretor um completo controle sobre as diversas etapas que compõem a produção de um filme. Atuando na maioria das vezes como produtor e roteirista, Nolan evita que sua percepção primária seja diluída no extenso processo de criação de um filme, para tanto, conta sempre com a colaboração de uma equipe fechada, desde equipe técnica até à ajuda do irmão Jonathan Nolan no roteiro.

Os principais críticos podem ainda dizer que o cinema de Nolan não passa de uma ilusão, tal qual a que ele usa em seus filmes, e que não é nada muito inovador aos demais blockbusters, estando apenas um passo à frente do que normalmente se vê, pois embora a complexidade seja jogada em nossas caras logo nos primeiros minutos, é rápido o tempo que você leva para se acostumar e se acomodar àquela situação. Eu particularmente não acho que todo filme deva ser enigmático e difícil de ser entendido, e embora o trabalho do cineasta britânico esteja longe de ser perfeito, não dá pra negar Nolan contribui para flexibilizar o conceito de cinema popular, elevando a qualidade dos blockbusters, mostrando inovação e criatividade na hora de contar uma história.

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