Clássicos | O Poderoso Chefão

I believe in America.

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Com esta emblemática frase, “Eu acredito na América”, dita por um imigrante italiano ao explicar o motivo de seu pedido de ajuda a Don Corleone que começamos a vislumbrar a saga de uma família, alguém que conquistou tudo – ou quase tudo – que o conceito do American dream pode oferecer, sua derrocada e renascimento através de onde menos se espera. A vida e morte e vida da famiglia Corleone.

Na trama, Don Vito Corleone (Marlon Brando), conhecido por todos como o “padrinho”, é o patriarca de uma família a de praticamente toda uma comunidade ítalo-americana em Nova York nos anos 1940, a história, aliás, começa pouco depois do fim da II Guerra Mundial, e nos deparamos com Don ouvindo as súplicas de um compadre, que pede por vingança contra os que abusaram de sua filha, mas o padrinho não faz nada por vingança a terceiros, tampouco mata por dinheiro, ele só aceita ajudá-lo em troca de sua amizade – e subsequente lealdade – na promessa de um dia retribuir o “favor”.

E assim vemos em todo o filme essa dialógica, o pedir um favor e depois o retribuir, o faltar de lealdade e depois sofrer as consequências. Todos os personagens apresentados, por menores que sejam, têm uma função prática na narrativa e são essenciais para a formação – do crescimento ao fim – dos personagens centrais. E aí é que está o brilhantismo do filme, o que o torna um clássico absoluto.

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Muitos devem achar que o escopo central de O Poderoso Chefão (1972) é a batalha entre as cinco maiores famílias mafiosas da costa leste dos EUA (principalmente Nova York) por poder, devido a chegada de um traficante de heroína turco e aquilo que viria a ser no futuro um negócio milionário, mas que Don Corleone, que detém em sua “lista de pagamento” políticos e grandes magistrados, se recusa a entrar, gerando então uma reação em cadeia de traições, vinganças e atentados entre as famiglias. Ah…e as mortes são filmadas de formas tão impactantes, sob ângulos tão inimagináveis que chegam a ser belas. Bem, cinematograficamente são mesmo, perfeitas. E o diretor Francis Ford Coppola ainda nos faz nos importarmos com os personagens momentos antes de seus fatídicos destinos.

Mas devo alertar que o grande tema do filme é a queda do poderoso chefão, que abre espaço a seu herdeiro sobre seus negócios, mas quem toma seu lugar não é o primogênito, o invocado Sonny (James Caan), tampouco o filho do meio, o submisso Fredo (John Cazale) ou o fiel agregado, o consiglieri Tom Hagen (Robert Duvall). Já a filha Connie (Talia Shire), que é a noiva da festa que cobre quase todo o primeiro ato do filme, reflete como aquela sociedade extremamente machista e patriarcal tratava as mulheres; como meras progenitoras, sem voz, que devem viver à parte dos negócios obscuros da família, em negação, ou senão iriam sofrer as consequências, como ela.

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Mas não, quem herda o lugar do pai é justamente o caçula, aquele que foi poupado dos negócios até então, aquele que foi educado, foi herói de guerra e era poupado pelo pai que sonhava vê-lo como um grande político. Michael Corleone (interpretado por um jovem e inexperiente Al Pacino) surge no primeiro ato como um personagem secundário, mas as ações da família o tratam de colocá-lo no lugar que lhe é de direito, não por ser herdeiro de sangue, mas por pertencer àquele mundo, por mais que tenha passado a vida afastado dele. É de forma natural, quase orgânica, que Michael vai assumindo o poder na máfia.

Al Pacino foi uma escolha controversa na época, já que era pouco conhecido e Coppola teve que brigar para tê-lo no elenco, mas sua escalação não poderia ter sido mais acertada, não só pelo próprio fator novidade, afinal quem não conhecia o livro do qual o filme se originou não imaginaria que aquele rapaz meio apático se tornaria o novo grande chefão, mas pela estupenda atuação de Pacino, que confere um olhar genuíno a Michael,  que vai da vulnerabilidade a inteligência, frieza e o gosto pelo poder.

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E o que dizer de Marlon Brando? Este já era considerado um deus do cinema há muito tempo e este papel apenas catapultou sua mitologia aonde nenhum outro ator jamais chegou (e duvido que chegará, os grandes astros acabaram). Sua interpretação de Don Corleone é de uma precisão metódica que merece estudos, sua voz, seus gestos, a forma como conseguiu agregar vários anos a mais sobre as costas e sua presença em cena, tão forte, que tirou o protagonismo do jovem Pacino. Brando se despiu sem medo algum do título de galã e se eternizou no imaginário popular como o padrinho poderoso.

O Poderoso Chefão ainda está em cartaz esta semana em horários e cinemas selecionados da rede Cinemark.

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