Clássicos | Bonequinha de Luxo

Tiffanys 1

Holly Golightly: Sabe aqueles dias em que você sente que tudo está vermelho?
Paul Varjak: Vermelho, você quer dizer como blue?
Holly Golightly: Não. Sentir-se blue é quando você engordou ou talvez porque tem chovido por muito tempo, você se sente apenas triste e isso é tudo. O sentimento vermelho é horrível. De repente, você está com medo e você não sabe do que você tem medo. Você já teve essa sensação?
Paul Varjak: Claro.
Holly Golightly: Bem, foi quando eu entendi que a única coisa que me faz bem é pegar um táxi e ir para Tiffany’s. Me acalma imediatamente. O silêncio e o visual orgulhoso dela; nada de muito ruim poderia acontecer com você lá. Se eu pudesse encontrar um lugar da vida real que me fizesse sentir como na Tiffany’s, então…então eu ia comprar alguns móveis e dar um nome ao gato!”

Bonequinha de Luxo começa assim, com Holly Golightly em seu icônico vestido preto, descendo de um táxi na 5ª Avenida em Nova York na luxuosa joalheria Tiffany’s, para em frente a vitrine e toma seu café da manhã calmamente. Esta sequência fez do filme um clássico e imortalizou a atriz Audrey Hepburn no imaginário popular como símbolo de elegância e delicadeza.

Bem, na verdade ela já era conhecida por estas qualidades antes de Bonequinha de Luxo, tanto é que o autor do romance que gerou o filme, Truman Capote, ficou deveras decepcionado com sua escalação – ele e o estúdio queriam a sex symbol Marilyn Monroe no papel da menina pobre e de espírito livre que saiu do interior do Texas para ganhar a vida na Big Apple fazendo a toalete de cavalheiros.

Tiffanys 5

Holly Golightly é descrita como um animal selvagem, uma mulher livre de convenções sociais que desde muito cedo percebeu que poderia sair da miséria usando seu corpo, que seu maior talento era o da sedução e seu maior objetivo é casar-se com um homem rico, não apenas rico, mas tem que figurar na lista dos 50 mais ricos, pelo menos. Holly pode ter crescido roubando ovos, mas ela aprendeu o que é o luxo, tomou gosto por ele e não abre mão de uma vida glamourosa, mesmo que sua conta nunca ultrapasse 200 dólares. Holly também é tida como uma garota perdida, que não sabe quem é, que foge da realidade, mas como sobreviver num mundo que foi tão cruel consigo desde tão cedo, senão criando seu próprio universo? Acho que ela foi muito competente na criação de seu mundo sem regras, vivendo como um gato sem nome.

E quem iria imaginar a doce Hepburn no papel? Feliz ou infelizmente, Marilyn não pôde ficar com ele, e Audrey ganhou até uma indicação ao Oscar. Sua delicadeza e elegância, em contraste com a personalidade livre e imoral (?) de Holly – tal qual foram as décadas de 1950 e 60 (o filme é de 1961) – fizeram da personagem única e irresistível. Mesmo assim a própria atriz se sentia inadequada para a personagem. Uma impostora, mas uma impostora verdadeira.

Dirigido por Blake Edwards, o filme tem aquele toque de charme que tornam cada sequência cheia de vigor, mesmo que seja num simples diálogo. A direção de arte e fotografia, que exaltam a beleza de Hepburn em closes que parecem sonhos tornam a obra uma peça de arte. Seu único defeito talvez seja o final um tanto quanto clichê, mas não, isso passa batido, talvez defeito mesmo seja a bizarra caracterização de um ator branco interpretando um japonês, tão surreal que até o diretor admitiu tempos depois sentir vergonha.

Tiffanys 3

Bonequinha de Luxo, apesar de ser uma comédia romântica e ter tirado muito da acidez do livro de Capote, ainda assim é fora dos padrões da época, e mesmo de hoje em dia, com a preocupação pelo politicamente correto. Afinal, Holly é uma prostituta (mesmo que esta palavra nunca seja mencionada), e seu par romântico, o escritor Paul Varjak (George Peppard), mesmo que motivado pelo desejo de macho protetor de “salvá-la” do mundo de luxúria, ele mesmo também se vende, pois é sustentado por uma mulher rica e casada.

É curioso que para Holly é natural dizer abertamente como ela ganha a vida, seja fazendo a toalete (adoro este termo!), seja repassando informações codificadas do chefão da máfia da cadeia para seu “advogado”. Já para Paul, cada vez que sua condição é insinuada ele demonstra desconforto e fica até mesmo ofendido. E quem o tira desta condição é justamente Holly, que o inspira a voltar a escrever e desperta nele o amor, mesmo que a princípio ela mesma se recuse a receber este amor. Afinal, “there’s such a lot of world to see…” como diz a canção que entoa o filme, Moon River.

Tiffanys 4

Bonequinha de Luxo ainda está em cartaz esta semana em horários e cinemas selecionados da rede Cinemark.

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