Fargo – 1ª Temporada | Review

Esta é uma história real. Os eventos mostrados aconteceram em Minnesota em 2006. A pedido dos sobreviventes, os nomes foram trocados. Por respeito aos mortos, o resto foi contado exatamente como ocorreu. FARGO -- Pictured: Martin Freeman as Lester Nygaard -- CR. Matthias Clamer/FXA desconfiança que cercava o projeto de uma série baseada no filme Fargo, de 1996, foi imensa. Parecia uma loucura pensar em adaptar a obra-prima dos irmãos Joel e Ethan Coen para um outro formato, inclusive sem os dois na direção do projeto (ambos exerceram apenas funções menores como produtores executivos). É por essas e outras que a recepção extremamente positiva ao episódio piloto, cerca de três meses atrás, pegou todo mundo de surpresa.

O que o criador e roteirista da série, Noah Hawley, deixou bem claro para todo mundo desde o início foi que a história não tinha a mínima pretensão de copiar o que os irmãos Coen fizeram em 1996. Em vez disso, a ideia era construir uma narrativa original com personagens e cenários baseados no universo coeniano, mas que poderia tomar rumos imprevisíveis.

A história se passa em 2006, exatamente dez anos após o longa-metragem. O protagonista é Lester Nygaard (Martin Freeman), um papel equivalente ao de William H. Macy no original. Baixinho, oprimido pela própria insignificância, é o tradicional zero à esquerda, constantemente humilhado pela esposa ignorante e pelo irmão bem-sucedido, que o considera desde cedo um estorvo em sua vida. FARGO - Pictured: Allison Tolman as Molly Solverson. CR: Chris Large/FXEsse é o ponto de partida para uma história que, a princípio, parece repetir quase exatamente o que vimos na narrativa coeniana. Entretanto, o final do piloto já representa uma virada de 180°, deixando o futuro em aberto para o telespectador. O roteiro de Hawley, que assina a narrativa de todos os dez episódios dessa primeira temporada, traz consigo um grande respeito pelo universo cinematográfico dos Coen. O vilão Lorne Malvo (Billy Bob Thornton), por exemplo, é uma grande homenagem ao Anton Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez, embora seja em si um personagem bastante único.

Malvo não é apenas o típico cara mau que visa o próprio lucro. Suas motivações lembram as do Coringa da era Nolan: ver o circo pegar fogo e prejudicar a vida de todos que se envolvem com ele. Um sorriso irônico sempre no rosto, sua presença significa ameaça em qualquer situação, para quem quer que seja. O personagem é despido de convenções sociais e não tem o mínimo problema em deixar defuntos pelo chão. O roteiro garante que ele se safe quase sempre, em uma irônica piscadela para a competência (ou incompetência) da força policial americana. fargo3Do outro lado da questão, a praticamente desconhecida Allison Tolman é lançada ao estrelato com uma performance impressionante, reprisando o papel da policial perspicaz que deu o Oscar a Frances McDormand. Neste caso, reprisar é apenas uma forma de dizer, já que também há diferenças fundamentais entre as personagens. Na série, a detetive Molly Solverson encontra obstáculos que Marge, do filme original, não teve que enfrentar. Sua inteligência não é respeitada na pequena delegacia da cidade de Bemidji, onde o pacato delegado vivido por Bob Odenkirk (o Saul Goodman, de Breaking Bad) se recusa a crer que o caso investigado seja mais complexo ou abrangente do que parece na superfície.

A chave para a personagem são suas expressões faciais, que denotam a frustração de ter que lidar no cotidiano com pessoas de nível intelectual inferior, incapazes de reconhecer seus esforços e sua aguda compreensão do mundo. É uma atuação contida e ao mesmo tempo maravilhosa, pois em sua fisionomia de decepção está incluído também o conformismo que reina entre os habitantes da cidadezinha e que Solverson rejeita veementemente por meio de suas ações. FARGO - Pictured: Billy Bob Thornton as Lorne Malvo. CR: Chris Large/FXIsso explica o envolvimento mais profundo com Gus (Colin Hanks), um policial que, apesar de não ser nenhum modelo de coragem, é movido por um senso de justiça muito próximo do dela. Ele também parece estar de olhos abertos dentro de um sistema policial em constante sonolência, embora muitas vezes prefira se eximir de uma participação mais ativa para não comprometer a si ou a sua filha Greta (Joey King), única família que lhe resta.

Além do elenco afiado, o que faz de Fargo uma das grandes séries desse novo período de ouro da TV norte-americana é o reconhecimento da oportunidade que os criadores têm em mãos e da força das histórias que colocaram os Coen entre os melhores cineastas da atualidade. Os roteiristas e diretores sabem muito bem aonde querem levar o público, sabem o que os telespectadores que conhecem o filme esperam e sabem quais são as melhores formas de surpreendê-los sem ferir o material original.

Assim como True Detective, o trabalho de um único roteirista garante uma unidade narrativa impressionante, acentuada ainda pelas ótimas escolhas para a direção, transformando esta em uma das séries de qualidade mais regular dos últimos tempos. Não há um único episódio fraco ou inconsistente. A edição jamais deixa de remeter à estética do filme de 96. A direção entrega momentos impressionantes, entre eles uma cena de tiroteio em meio a uma nevasca (em que a fotografia também é destaque), uma sequência de invasão a um quartel-general e todo o crescendo que leva ao confronto final no excelente último episódio. fargo6Dentro de uma história tão modificada, é preciso ainda bater palmas para a manutenção do clima de irônica comicidade e frustração que persegue os personagens. Enquanto o humor negro do filme estava contido na estranheza desse mundo particular, onde coadjuvantes caricatos pareciam ainda assim tão vivos e carismáticos, e na dura violência que rodeava ambientes aparentemente pacíficos, o peso da série é transferido para uma protagonista que, apesar de fazer tudo certo, não consegue encontrar satisfação em lugar algum.

A genial conclusão dessa história lhe nega o alívio de levar a cabo prisões que ela, e somente ela, tornou possível com a forte insistência durante as investigações. Provar-se certa enquanto os outros estavam errados não representa a vitória que ela imaginava. O que realmente assombra os últimos acontecimentos da narrativa é o sorriso irônico de Malvo, um ser imoral carregado de pura crueldade, comparado diversas vezes a um predador impiedoso. Uma força que corrompeu e destruiu até o fim. O mal não pode ser derrotado tão facilmente, seu sorriso parece dizer. Talvez, em uma última e significativa reviravolta, ele tenha mesmo vencido.

P.S. Assim como True Detective, a próxima temporada da série terá uma outra história e personagens diferentes.

Anúncios

Deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s