O Homem Duplicado | Crítica

Atenção: O texto a seguir contém spoilers sobre o filme.

o_homem_duplicadoA extensa obra de José Saramago nunca foi muito fácil de acompanhar. Tanto por causa do estilo de escrita do autor, que envolve o uso de frases extensas e propositalmente confusas, quanto pela escolha de temas desafiadores em suas narrativas. Ao longo de seus livros, Saramago utilizava-se constantemente de metáforas marcantes, ocultas dentro de histórias aparentemente simples e diretas.

Embora não tenha lido a obra escrita que originou este O Homem Duplicado, projeto colocado sob a direção do talentoso canadense Denis Villeneuve, posso imaginar que há nela um tom um pouco diferente do restante de seus livros. A julgar pelo que vemos, a história foi concebida como um gigantesco quebra-cabeça de referências psicanalíticas, tão fechado em suas próprias conclusões que apenas um leitor ou espectador afoito por respostas poderia chegar perto de desvendá-lo por completo.

O protagonista dessa trama labiríntica é Adam (Jake Gyllenhaal), um professor de história perturbado que vive com a namorada Mary (Mélanie Laurent), com quem tem uma relação tranquila e quase exclusivamente noturna. O duplo do título, também interpretado por Gyllenhaal, é um ator fracassado chamado Anthony St.Claire, casado com Helen (Sarah Gadon), que espera um filho dele.

o_homem_duplicado2A existência desse ser fisicamente idêntico é descoberta após uma dica de filme dada por um colega de trabalho. O longa tem o nome sugestivo de “Onde há uma vontade há um caminho” e St. Claire aparece nele por poucos segundos como um apagado criado de hotel. Em pouco tempo, Adam fica obcecado por descobrir mais sobre seu duplo.

Enquanto Adam é caseiro, tímido e depressivo, seu duplo é aventureiro, esportivo, tagarela e até um pouco sacana. Porém, a semelhança física entre ambos é impressionante. Compartilham inclusive cicatrizes e marcas de nascença. De fato, são, basicamente, a mesma pessoa com personalidades e vivências diferentes.

Essa é a primeira indicação de que o espectador talvez não devesse confiar 100% em tudo o que vê. As outras vêm com as reações das pessoas ao redor dos personagens. A mãe de Adam (Isabella Rossellini) não entende como ele “consegue viver desse jeito”. Mary tenta entender por que o marido está estranho e faz uma ligação telefônica decisiva. Finalmente enxergamos o que deveria ser óbvio. Não há dois Adams, mas um com uma mente dividida.

o_homem_duplicado3O que perturba seus pensamentos são as tentações que o afastam daa esposa. Enquanto está com a amante, a parte conservadora de seu cérebro retoma o comando, transformando-o em uma pessoa preocupada e circunspecta. Perto da esposa, assume uma personalidade mentalmente mais jovem, ainda preocupada com seu sonho de ser ator e atraída pela possibilidade de possuir outras mulheres. Essa parte dele culpa a esposa por acabar com seus sonhos e aprisioná-lo em uma vida indesejada, o que é representado por aranhas gigantescas construindo teias em uma cidade mental, retratada, assim como todo o filme, em uma fotografia amarelada e opressora.

O objetivo primordial dessa consciência dividida é voltar a ser uma só. Isso pode ser alcançado pela eliminação do mal que deu início a tudo: a traição. Portanto, é preciso destruir, ao menos simbolicamente, a amante e a parte do eu que procura escapar da própria vida. Torna-se necessário dar adeus a Anthony St. Claire.

Adam diz durante uma de suas aulas que a história pode ser mostrada em ciclos que se repetem ao longo do tempo. Infelizmente, a insatisfação humana também segue o mesmo caminho. Não muito tempo após ter conseguido se livrar de seu lado mais negro e incômodo,  o mesmo consegue voltar renovado e ainda mais insistente.

o_homem_duplicado4Esse é muito possivelmente o triste círculo que o diretor quer retratar aqui, de forma tão hermética que chega a ser um trabalho ingrato tentar unir todas as pequenas peças espalhadas pelo caminho. E, claro, tudo está aberto a inúmeras interpretações. Ainda assim, não é difícil perceber que, juntas, essas peças devem formar uma detalhada imagem de nosso interior através da visão de um diretor de admirável destreza aliada ao entendimento de um dos maiores escritores contemporâneos. Sem a menor dúvida, uma jornada cinematográfica obrigatória.

Cotação-5-5O Homem Duplicado - poster nacionalO Homem Duplicado (Enemy)

Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Javier Gullón, baseado no romance de José Saramago

Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini, Joshua Peace, Tim Post, Kedar Brown, Darryl Dinn, Misha Highstead, Megan Mann, Alexis Uiga, Kiran Friesen, Stephen R. Hart, Jane Moffat, Loretta Yu.

Gênero: Ação/Suspense

Duração: 90 minutos

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