Clássicos | Laranja Mecânica

“Uma coisa que eu não suportava era ver um velho bêbado sujo uivando as canções sujas de seus pais e fazendo blurp, blurp no meio como se houvesse uma velha orquestra suja em suas tripas podres e fedorentas. Não suportava ver alguém assim, não importa a idade, mas mais especialmente quando ele era realmente velho como este era.”

laranja_mecanicaAo me sentar em frente à tela inicial vermelha, vibrando ao som dos primeiros acordes de sua trilha original, estava preparado para ver um filme que nunca havia visto antes. Isso porque Laranja Mecânica é um daqueles raros clássicos capazes de manter seu vigor através das décadas, transmitindo significados e leituras diferentes a cada nova exibição. Apesar de já tê-lo assistido algumas vezes, suas pouco mais de duas horas permanecem mutáveis e surpreendentes ainda hoje.

Junto com Dr. Fantástico, esta é a obra em que o diretor Stanley Kubrick teve a oportunidade de destilar com maior liberdade sua ironia e seu sarcasmo característicos. Eles surgem no exagero cômico de algumas interpretações e vão até o absurdo do roteiro e dos cenários, passando por algumas escolhas de direção, fotografia e enquadramento que reforçam os aspectos oníricos da história, deturpando conceitos e imagens a ponto de criar não apenas um futuro distópico, mas toda uma nova lógica visual e narrativa inserida em uma realidade fictícia. E essa é uma das principais razões pelas quais o senso estético do filme é tão icônico até os dias atuais.

laranja_mecanica2Alex (Malcolm McDowell) não é um cara legal. Alex é fundamentalmente cruel, preconceituoso e depravado. Com sua gangue de drugues, ele assalta, espanca e estupra indiscriminadamente nas ruas de uma Inglaterra degenerada. Uma das principais razões para que parte da audiência responda mal a Laranja Mecânica é o fato de o filme tornar o personagem interessante e estranhamente charmoso em seu sarcasmo quase ilimitado.

Desta vez, tive algumas dúvidas sobre as reais intenções do diretor para a narrativa. Ele nos apresenta, através da pessoa de Alex, ao insolúvel dilema de uma sociedade em franca decadência. A população que sofre com a crueldade pura e sem sentido de milhares de outros jovens que seguem o mesmo padrão do protagonista é a mesma que condena medidas drásticas contra eles, como o malfadado método Ludovico aplicado em Alex.

laranja_mecanica3De acordo com o que vemos, tirar de alguém seu poder de escolha e, consequentemente, uma boa parte do que significa existir como ser humano é uma monstruosidade igual ou pior do que os atos chocantes praticados por pessoas à margem dessa sociedade. A prova é o fato de Alex, que em diversos momentos simboliza a maldade em sua forma mais pura, ainda assim despertar pena ao perder sua capacidade de se defender de ataques externos. Largado, foi despido de sua violência. Sem essa capacidade, não passa de um fantoche manipulado por pessoas tão ruins quanto ele.

Por um certo ângulo, pode-se dizer que Alex está apenas colhendo o que plantou, mas diversas outras pequenas dicas ao longo do filme indicam que a brutalidade é recorrente e imperativa entre os jovens ingleses dentro dessa realidade. Agir como ele e seus drugues pode ser um mecanismo natural, embora errôneo, de resposta à hipocrisia desse mundo.Afinal, toda sociedade é responsável por seus próprios monstros.

laranja_mecanica4A cena final é uma amostra da tragicômica realidade mostrada no filme. “Sim, eu estava curado mesmo”, diz Alex enquanto em seus sonhos transa selvagemente com uma garota e é aplaudido por duas fileiras de senhores e senhoras da alta sociedade. Tão errado quanto era tirar de um homem sua humanidade e forçá-lo ao suicídio também parece ser deixar solta no mundo a perversão e maldade naturais ao personagem.

Em vez de procurar uma solução impossível, Kubrick zomba dos dois lados da questão, mostrando as fraquezas de nossas demandas. À audiência, resta rir, mesmo quando deveria estar chorando.

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