Disney e a releitura dos contos de fadas | Frozen, Malévola e o adeus ao Príncipe Encantado

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS DOS FILMES ‘MALÉVOLA’ E ‘FROZEN’.

“E viveram felizes para sempre…”. Frase clássica, presente em 99% dos contos de fadas adaptados pela Disney e que minha geração cresceu assistindo. Geralmente era inserida em um final onde, após dançarem e/ou cantarem alguma canção romântica (e quem não viu Encantada debochando um pouco disso, corre pra assistir!) e se beijarem sem nunca terem trocado uma palavra sequer, Príncipe e Princesa após o tal “beijo do amor verdadeiro” se casavam e sim, viviam felizes para sempre. Como isso era possível sempre foi uma questão que perseguia os mais atentos. À mulher, cabia o papel de dama sofisticada, indefesa, pura e casta. Ao homem, cabia o papel do valente, corajoso e honrado que fazia de tudo para salvar a mulher incapaz de se defender e viver sozinha.

mulan
Mulan, 1998

Essa ideia foi impregnada ao longo dos anos. A “síndrome de Cinderela” está aí, até hoje, na cabeça de diversas mulheres. Com o passar dos anos, o mundo mudou. E a Disney mudou junto com ele. Se em Aladdin já temos a ideia do Príncipe Encantado quebrada junto com a ideia da Princesa obediente (Jasmine não aceita ordens do pai, o Sultão, de se casar contra sua vontade; Aladdin é pobre, rouba para comer e conquista Jasmine quando não está disfarçado de Príncipe), em Mulan temos uma emblemática heroína; honrada, corajosa e que conquista o respeito através de seus méritos em um ambiente totalmente masculino: o exército.

E assim como o ótimo Mulan, a Pixar lançou em 2012 Valente (em inglês, Brave), com a ótima personagem feminina Merida, filha de reis que se recusa a se comportar de acordo com as regras da monarquia para Princesas. Merida gosta de andar a cavalo e praticar com seu arco e flecha. Ela mantém seus cabelos sempre despenteados e não suporta usar vestidos apertados. Sua principal discussão é com a mãe, que insiste que ela deve se portar como uma dama. O filme todo se desenvolve a partir da relação das duas, que inicialmente não se entendem, mas por causa de uma determinada situação recordam-se da importância de seus laços e de como a relação entre mãe e filha deve se basear não só no amor que sentem, mas também no respeito de uma para com a outra, mesmo que suas opiniões sejam divergentes.

"BRAVE"
Valente, 2012

Frozen e Malévola: a mudança definitiva?

Em 2013, a Disney lançou a animação Frozen. Vencedora do Oscar de Melhor Animação e Melhor Canção Original, a trama que se tornou a mais lucrativa da Disney envolve duas irmãs, princesas. Elsa, a mais velha, possui magia: ela cria gelo. Anna é a irmã mais nova, e as duas são extremamente ligadas e apegadas uma à outra. Após um acidente em que atinge sua irmã com gelo, Elsa é isolada por seus pais, forçada a esconder seus poderes e quem realmente é no mundo. Anna, dia após dia, tenta de todas as formas contato com a irmã sem saber o motivo pelo qual ela se isola. Elsa pode ser considerada a personificação da opressão feminina que não pode deixar mostrar quem realmente é. Sua música “Let It Go” expressa isso perfeitamente com as frases “não deixem ver, não deixem saber, seja a boa menina que você sempre precisou ser”.

Após anos com as portas do palácio fechadas para esconder Elsa, elas devem ser novamente abertas após a morte dos reis já que a garota agora deve assumir o trono. Enquanto Anna vibra com a possibilidade de ver e conhecer novas pessoas, Elsa teme que descubram seus poderes e a recriminem. Anna logo conhece um Príncipe e os dois, após trocarem poucas palavras, se apaixonam e já desejam se casar. Ao pedir a bênção da irmã, que se recusa a dar (“você não sabe nada sobre amor verdadeiro)”, as duas discutem e Elsa, irritada, mostra seus poderes ao público, que ao temê-la, passa a persegui-la. Isolada de todos, Elsa se liberta da opressão que viveu durante anos e se sente, pela primeira vez, livre.

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Frozen, 2013

Anna, tomada pelo amor que sente por Elsa e também pela culpa de ter brigado com a irmã e a exposto, vai atrás dela. Nesta jornada, conhece Kristoff, que a ajuda e acaba se tornando mais que um amigo. Em mais um acidente, Elsa atinge novamente a irmã, desta vez no coração. Anna só pode ser salva por um “ato de amor verdadeiro”, e tudo nos conduz a Kristoff. Além de toda a história ter como base duas mulheres, assim como em Valente, a introdução do interesse romântico também mudou. O Príncipe Encantado do início logo nos remete aos clássicos Disney e o pensamento do espectador automaticamente deduz que Anna, no fim, se casará com ele. Porém, a história nos surpreende: o Príncipe, no fim, se transforma e se revela o vilão antes de Anna ser salva. Mais uma vez o público automaticamente deduz “ah, entendi! Ok! Quem irá salvá-la será Kristoff”. Errado! Frozen surpreende novamente: ao perceber que Elsa será assassinada pelo Príncipe-Nada-Encantado, Anna corre em sua direção e se posiciona entre os dois, salvando a irmã e também se salvando, mesmo que inconscientemente. O “ato de amor verdadeiro” veio do amor das duas irmãs.

Quando a Disney anunciou um filme live-action sobre Malévola, a vilã de A Bela Adormecida, confesso que não me animei. Os motivos eram totalmente pessoais: sempre detestei, mesmo quando pequena, o desenho. Achava a Aurora uma das piores Princesas. Me irritava o fato de ela espetar o dedo em uma agulha (sim, eu sei que estava sob um feitiço zzZzZz) e dormir “para sempre” para somente ser despertada pelo beijo do “amor verdadeiro” que ela tinha encontrado naquela tarde, ao passear pelo bosque. E óbvio que, ao acordar, os dois dançam, se casam e vivem felizes para sempre. Sem mencionar as fadas que a presentearam com o “dom da beleza”. Quer dizer… dentre tantas características positivas em uma mulher, vamos prestigiar apenas a pele branca, os olhos azuis e os cabelos loiros, né?

AngelinaJolieasMaleficent
Malévola, 2014

Mesmo assim, fui assistir de coração aberto à adaptação deste ano onde a personagem principal seria a vilã, que no desenho é tratada como uma mesquinha recalcada que lança a maldição na Aurora apenas por não ter sido convidada para a festa. Risos. Interpretada por Angelina Jolie, que fisicamente ficou ótima na caracterização da personagem, Malévola conta a história da fada desde sua infância até a fase adulta. Com algumas ressalvas aqui e ali em relação ao filme, cuja crítica você pode conferir aqui, ele cumpre seu papel nessa fase Disney do “adeus ao Príncipe Encantado”.

Malévola foi vítima da ambição humana do pai de Aurora. Cega pelo ódio e desejo de vingança, é por esse motivo que ela lança a maldição na criança. Mesmo assim, vigia todos os passos de Aurora e a vê crescer. As duas criam um laço de respeito e amizade, e a pequena Princesa só a chama de “madrinha”, por ser assim que ela a considera. Arrependida do feitiço que fez, Malévola tenta revertê-lo, mas suas palavras ao lançá-lo foram fortes e ele não pode ser retirado. Sob o feitiço, Aurora espeta o dedo na agulha e cai em sono profundo. Desesperada, Malévola leva o Príncipe Philip (que Aurora havia conhecido na Floresta mais cedo) para o castelo, na expectativa de que, ao beijá-la, ela acorde. A cena é debochada e poderia até ser um meme no estilo “beijo ocorre nada acontece feijoada”. Em um discurso arrependido ao lado de Aurora, Malévola revela seus puros sentimentos pela menina e beija sua testa. Aurora desperta do sono. Ahá! Assim como em Frozen.

Confesso que desde o início sabia que o final seria assim. Logo percebi que tudo seria resolvido entre as duas, o que é ótimo. Quando o Príncipe foi introduzido, porém, ficou óbvio demais. E essa foi minha única ressalva com o filme. Poderia ter sido mais bem conduzido nessa questão e também no clímax. Todo um drama de ela dormir “para sempre” que foi resolvido em uma cena de 3 minutos… No entanto, mais uma mensagem prevalece em seu fim: juntas, Malévola e Aurora restauram a paz entre o reino dos humanos e o reino das fadas.

Frozen5

Por isso, é interessante destacarmos o fato de que as histórias vistas em Frozen, Mulan, Valente e Malévola deveriam ter sido sempre o normal, o natural. A ideia de Príncipe Encantado (+) dama perfeita-casta-and-prendada-que-cozinha-cantando-com-os-animais (+) “felizes para sempre” criada pela Disney sempre foi extremamente conservadora e sim, machista. Mesmo que devagar e com lutas ideológicas diárias, o mundo está mudando… Ainda bem. E ainda bem, também, que a Disney está mudando junto com ele.

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9 comentários

  1. Até hoje eu nunca entendi essa lógica de ”feliz para sempre”,de fato isto não existe.E o pior é que cansamos de ver isto nos filmes da Disney,felizmente mudaram isto atualmente e estão fazendo histórias mas imprevisiveis(nós agradecemos a isto!…Exceto quem ama o ”feliz para sempre”’).

    Confesso que não sou um adorador dos filmes da Disney mas com estas mudanças com certeza irão tornar as coisas mais interessantes.Contudo há um preço em mudar tudo isto e nós sabemos bem,mas…Dane-se,tem que ousar mesmo.

    Ótimo artigo Karina! Você é realmente boa nisto.

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  2. gostei muito da nova dinamica dos filmes sem essa historia chiclê de principe encantado e felizes para sempre, assim fica mais real, amor de irmã, amor até de um estranho que vai crescendo com o tempo igual ao da malevola com a aurora pensei que no final ela morria mais não, se arrependeu e quem morreu foi, quem jurava a amar de verdade, e a apunhalou pelas costas. Que os filmes continuem a evoluir …

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  3. chatooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo de mais e cade aquele filme que nao passa mais ate que tem uma princesa que faz vestido com cortina em ? ??????????? porque vcs nao passam mais ele???? seus chatos!!!!!!

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  4. Claro acho digno, inferiorizar mulheres não é o certo já que diferença sexual não é nada, mas não deviam incriminar qualquer elemento que valoriza o sexo masculino, ou seria sexismo.

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