Malévola | Crítica

malevolaA infância é um terreno delicado. Se alguém pretende remexer muito a terra, provavelmente terá que lidar com a oposição de um agricultor irado, preocupado em manter intactas as plantas que levou tanto tempo a cultivar. Caso você esteja se perguntando sobre o que diabos estou falando, na verdade é bastante simples.

O agricultor é o público, que tem a cabeça recheada das muitas historietas de infância, além de suas adaptações em filmes da Disney, e os insistentes remexedores são as produtoras de Hollywood, desesperadas por constantes sucessos de bilheteria e que cismaram em empurrar goela abaixo de todo mundo a necessidade de refazer grandes filmes infantis do passado com uma roupagem mais “moderna” e “adulta”.

Foi por causa dessa mentalidade que a história de Branca de Neve se transformou em Branca de Neve e o Caçador e Espelho, Espelho Meu. A viagem de Alice ao país das maravilhas ganhou nova roupagem pelas mãos de Tim Burton. Fomos ao mundo de Oz desta vez sem a presença de Dorothy em Oz: Mágico e Poderoso. João e o Pé de Feijão, que sequer tinha recebido uma grande adaptação cinematográfica, também entrou na roda. E seria melhor nem ter de falar sobre o atroz João e Maria: Caçadores de Bruxas, cuja ridícula verve da premissa fala por si mesma.

malevola2Já que nenhum desses filmes foi particularmente bem sucedido em termos de qualidade (embora alguns tenham feito muito dinheiro), era de se esperar que uma produtora experiente como a Disney não procurasse remexer o baú e correr o risco de macular uma de suas histórias mais clássicas. Infelizmente, foi exatamente isso que fez em Malévola.

Apropriando-se do discurso da história real por detrás da lenda (falácia das mais vagabundas, diga-se de passagem), o filme é protagonizado pela bela Angelina Jolie no papel de uma das vilãs mais famosas dos desenhos animados. A jovem Elle Fanning é a princesa Aurora, a bela adormecida.

As ideias e temas do filme se confundem de tal forma que é preciso analisá-las por uma única linha geral: basicamente, a Disney quis transformar Malévola em uma pobre coitada explorada pelos humanos, enquanto o rei Stefan (Sharlto Copley), pai de Aurora, era o verdadeiro vilão. Essa é a grande ideia por trás da história.

malevola3Dirigido por um cineasta estreante no posto, o mago dos efeitos especiais Robert Stromberg, não é nenhuma surpresa que o design do filme seja muito parecido com o de Alice no País das Maravilhas ou Oz: Mágico e Poderoso, produções em que Stromberg atuou anteriormente. É esquisito, colorido e enjoativo, tão artificial quanto praticamente tudo ali.

Jolie, nadando contra a corrente, está surpreendentemente bem no papel principal, conferindo dignidade às aflições da fada (ou bruxa?) Malévola. Fanning não faz muito mais do que sorrir despreocupadamente, que é tudo o que o papel exige dela. Imelda Staunton, Lesley Manville e Juno Temple, um trio respeitável de atrizes, ganham a triste função de alívios cômicos, o que é ainda mais triste pelo fato de as três fadas madrinhas serem muito mais irritantes do que propriamente engraçadas.

O filme ainda arrisca uma pincelada na nova fórmula de sucesso da Disney, que inclui personagens femininas fortes e a exclusão do príncipe encantado como salvação final. Mas tudo é realizado de forma tão boba e previsível que não chega a fazer muita diferença.

malevola4Não que Malévola seja o pior exemplar desse novo gênero de adaptações. O que é ainda mais preocupante, talvez seja o melhor deles. Há tão pouco para se contar e a linha narrativa é tão ingênua que na verdade parece ter sido escrita por crianças ao invés de para elas. Aliás, é bem possível que eu esteja subestimando a capacidade criativa dos pequenos. Muitos certamente fariam melhor que isso.

Cotação-2-5Malévola - poster nacionalMalévola (Maleficent)

Direção: Robert Stromberg

Roteiro: Linda Woolverton, baseado na história de Charles Perrault, Jacob Grimm e Wilhelm Grimm e baseado no roteiro de Erdman Penner, Joe Rinaldi, Winston Hibler, Bill Peet, Ted Sears, Ralph Wright e Milt Banta

Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley, Brenton Thwaites, Kenneth Cranham, Sarah Flind, Hannah New, Isobelle Molloy, Michael Higgins, Ella Purnell, Jackson Bews, Angus Wright, Oliver Maltman, Gary Cargill, John O’Toole, Harry Atwell, Anthony May, James Hicks, Stephan Chase, Mark Caven, Chris Leaney, Jamie Maclachlan, Shaun Smith, Vivienne Jolie-Pitt, Eleanor Worthington-Cox, John Macmillan, Tim Treloar, Peter G. Reed, Marama Corlett, Lima McKenna, Steven Cree, David Boat, Janet McTeer, Karen Anderson, Lasco Atkins, James Ayling, Adam Bond, Scott Bradley, Sophie-Anna Brough, Alfred Camp, Charlotte Chatton, Hermione Corfield, Nick Donald, Terri Douglas, Damon Driver, Josh Dyer.

Gênero: Ação/Aventura/Fantasia

Duração: 97 minutos

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3 comentários

  1. Não acho que esse filme seja bom, mas não concordo com a opinião sobre como é errado recontar essas histórias.

    “O agricultor é o público, que tem a cabeça recheada das muitas historietas de infância, além de suas adaptações em filmes da Disney, e os insistentes remexedores são as produtoras de Hollywood”.

    Só porque crescemos com certas versões dessas histórias, ninguém pode criar outras versões? Somos tão importantes assim?

    “Apropriando-se do discurso da história real por detrás da lenda (falácia das mais vagabundas, diga-se de passagem).”

    A ideia parece cretina, mas pode render algo bom, basta saber o que fazer com ela. Como Neil Gaiman quando escreveu o conto Neve, Vidro e Maçãs, ou como o roteirista e o diretor de Ever After.

    As animações Disney são versões mais modernas e diferentes dos contos, assim como algumas boas adaptações em live-action que já foram feitas. Essas histórias têm um apelo enorme, atravessaram séculos sendo recontadas de diferentes formas e vão continuar muito além da nossa passagem pelo mundo. Não existe o filme definitivo sobre A Bela Adormecida ou qualquer outro dos contos. O que eu lamento é a qualidade dos filmes que estão fazendo.

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