Sob a Pele | Crítica

Film Review Under the SkinQue Scarlett Johansson é uma linda mulher ninguém põe em dúvida. Por essa razão, muitos diretores acabam por escolhê-la para papéis sensuais e provocadores em que possa exercitar à vontade seu sex appeal. À primeira vista, nada poderia parecer mais adequado do que escalá-la para personificar uma mulher que seduz homens e se alimenta deles para sobreviver.

O interessante é que, em um decisão claramente proposital, a protagonista anônima de Sob a Pele tem muito pouco de sedução. No que parece ser uma lúcida percepção do diretor Jonathan Glazer (que tem apenas outros dois filmes em sua carreira: Reencarnação e Sexy Beast), os homens desse sombrio mundo urbanizado, de uma Escócia moderna, não precisam de mais que a beleza física e um chamado à ação para se sentirem atraídos.

Sob a Pele é um filme que se desenvolve em ritmo lento e com uma estratégia de repetição fria e calculada. Suas primeiras cenas mostram contra um fundo escuro o que pode ser a chegada de uma nave alienígena ao planeta. Embora as cenas remetam diretamente a 2001: Uma Odisseia no Espaço, sua execução é ainda mais hermética e insondável, a ponto de deixar o espectador desnorteado, sem saber o que está acontecendo.

Pouco depois, uma nua Scarlett Johansson despe com vagar o corpo de uma prostituta contra um fundo completamente branco. A escolha da cor é compreensível se levarmos em conta o breu que toma conta da tela toda vez que a armadilha da moça se fecha sobre as presas do sexo masculino. É a oposição entre nascimento e morte.

sob_a_pele2Poucas vezes vi na tela tamanho alheamento à vida humana como o representado pela atriz na primeira metade do filme. Com uma inexpressividade que beira a catatonia, a personagem presencia e protagoniza atos horrendos sem se abalar. O momento mais chocante acontece quando deixa uma pobre criança indefesa abandonada chorando em uma praia. Os pais acabaram de se afogar no mar sem que a moça tenha movido um dedo para ajudar.

O filme ainda traz uma estranha reviravolta, que acontece por meio de uma percepção do ser humano através de uma das pessoas mais prejudicadas e excluídas de nossa sociedade. O evento transforma e inverte a balança de poder do filme, o que finalmente passa um certo entendimento do que a narrativa está querendo dizer.

Mesmo que pouco claro em sua mensagem (se é que essa é realmente a mensagem do filme ou se há mesmo uma única mensagem), Sob a Pele causa estranheza por sua violência raramente física e quase sempre psicológica. Há um comentário bastante contundente sobre a sexualidade masculina e feminina em nosso mundo e pode muito bem ser que a primeira metade do filme não passe de uma preparação para compreender em toda sua extensão os abusos demonstrados na segunda parte.

O que com certeza permanecerá por mais tempo na memória e deverá render ao filme o título de cult são os apurados detalhes visuais trazidos à tela pelo diretor Jonathan Glazer, que em conjunto com a perturbadora trilha sonora do músico britânico Mica Levi causa um impacto duradouro. Ao mesmo tempo que aproxima o público também o preenche com um intenso desejo de afastar-se de tudo aquilo.

sob_a_peleQualquer um que passa a aceitar a realidade deste mundo e decide fazer parte dela também precisa compartilhar da dor da qual ele é repleto, o que representa um fardo muito mais pesado para quem é diferente dos demais e incapaz de se defender. Ou também, como o filme parece querer dizer, para quem é mulher.

Cotação-5-5Sob a Pele - poster nacionalSob a Pele (Under The Skin)

Direção: Jonathan Glazer

Roteiro: Walter Campbell e Jonathan Glazer, baseado no livro de Michel Faber

Elenco: Scarlett Johansson, Jeremy McWilliams, Lynsey Taylor Mackay, Dougie McConnell, Kevin McAlinden, D. Meade, Andrew Gorman, Joe Szula, Krystof Hádek, Roy Armstrong, Alison Chand, Ben Mills, Oscar Mills, Lee Fanning, Paul Brannigan, Marius Bincu, Scott Dymond,Stephen Horn, Adam Pearson, May Mewes, Michael Moreland, Gerry Goodfellow, Dave Acton, Jessica Mance, Jerome Boyle, Antonia Campbell-Hughes, Robert J. Goodwin, Steve Keys.

Gênero: Drama/Ficção/Suspense

Duração: 108 minutos

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3 comentários

  1. Spoilers:

    Há muito não sentia uma violência psicológica tão sutil em uma história. Primeiro a sexual, que me atingiu porque, embora seja perversa para ambos os lados (masculino e feminino), noto nos parceiros que escolhe, uma progressiva decadência afetiva e emocional que parece deixar tudo muito pior, mesmo que a moça não se aperceba disso – mais à frente, a desconstrução é mais agravante, mas eu já estava detonado. Depois o jogo das cores e da filmagem, sempre sombria, lenta, introspectiva, não natural, os rumos do enredo se delimitando pela conexão lógica da imagem apenas (nossa lógica comum não funciona) e “construindo” lugares que representam zonas de conforto que se perdem com o tempo de projeção (como as feições de Laura cuja frieza muda de forma espetacular e os ângulos da van como ambiente de proteção que é abandonado). E finalmente as crises e a solidão. De tudo. De valores, de busca, de parâmetros, de moral, de felicidade, de objetivos. Achei genial.

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