Cães Errantes | Crítica

caes_errantesO cinema é, em si mesmo, a própria definição da imagem em movimento. Nascido no final do século 19, ele só se tornou possível graças à invenção do cinematógrafo por uma dupla de franceses, os hoje notórios irmãos Lumière. Você já deve ter ouvido falar daquela famosa primeira sessão de cinema, em que a plateia teria fugido assustada da imagem de um trem que seguia em direção a eles. Bem, talvez não tenha acontecido exatamente dessa forma, mas a história é tão marcante que não resisto a acreditar nela.

Assim como foi na pintura, na música e literatura, diferentes cineastas ao longo dos anos procuraram de toda forma subverter os princípios da arte, rompendo barreiras antes consideradas intransponíveis e por vezes quebrando paradigmas, de forma a abrir os olhos de alguns grandes mestres que vieram depois.

Com medo de me alongar demais em uma explanação teórica, me explico: escrevi esses dois parágrafos para introduzir melhor a proposta do cineasta malaio Tsai Ming-liang e todas suas implicações contestadoras. Isso porque Cães Errantes, seu longa mais recente, é uma obra tão única e perturbadora que vai além do simples gostar ou não gostar.

A “história” se passa em um bairro miserável de Taipei, capital de Taiwan, onde um pai e seus dois filhos sobrevivem a duras penas. Fora isso, é quase impossível traçar uma linha narrativa para o filme, que mantém uma aura de mistério surrealista em sua composição, sem jamais entregar de bandeja os rumos da narrativa para o público.

caes_errantes2Sabemos que o pai alcoólatra acaba se envolvendo com uma mulher e que ainda sofre com a ausência de sua ex-esposa. Uma cena particularmente perturbadora de um brutal ataque a uma boneca com cabeça de repolho demonstra os sentimentos divididos que ele tem em relação a sua antiga mulher. É bem possível que a moça que vagueia pelas paisagens desoladas de Taipei seja essa esposa e mãe que retorna, embora o filme jamais confirme essa suposição.

Na verdade, Cães Errantes é o exemplar mais radical de uma tendência que o diretor malaio explorou de forma abundante ao longo da carreira. De certa maneira, o filme desafia a própria existência do cinema ao se firmar como uma narrativa quase exclusivamente estática, poética e filosófica, indo contra a natureza primariamente cinética da atividade cinematográfica.

Ming-liang já revelou que é avesso às exigências do público atual, que procura cada vez mais rapidez e agilidade em absolutamente tudo. Para combater essa tendência à sua maneira, o cineasta deixa a câmera de filmagem paralisada por longuíssimos minutos em planos quase totalmente imóveis.

Apenas mudanças sutis ocorrem, como a lenta transformação de uma expressão facial ou o movimento de um corpo nas sombras, tudo com uma lentidão arrasadora. O resultado é um filme bizarro, confuso, ousado e com certeza diferente de tudo o que você já viu em uma sala de cinema. Para o bem ou para o mal, uma experiência inesquecível.

caes_errantes3Como apreciador da arte em suas diversas formas, tenho uma certa relutância em falar mal de uma iniciativa tão corajosa e inovadora. No entanto, ao menos para mim, a experiência de Cãos Errantes acaba sendo mais tediosa do que recompensadora ou hipnotizante, o que parece ter sido o objetivo maior do cineasta.

Não há como negar que, como um todo, o filme é uma verdadeira maravilha estética, com uma fotografia pesada e intensa. Cenas como a do repolho, citada mais acima, também mostram um grandioso talento por parte do diretor. Porém, não há muito a que a plateia possa se apegar em termos narrativos para manter o interesse por intermináveis 13 minutos de imagem focada no rosto quieto de seus dois protagonistas.

Há aqui também uma clara crítica social feita de maneira fora do convencional, centrada no marasmo de vidas modorrentas e sem esperança. Mas Ming-liang não faz um filme que possa ser apreciado pela vasta maioria do público de cinema. O longa, anunciado como o último do diretor, que disse ter “perdido o interesse pelo cinema”, é uma ode a si mesmo e a uma visão bem particular de mundo, sem nenhum tipo de concessão. É também um prato cheio para quem busca experiências cinematográficas extremas, mesmo que estas incluam algo como observar uma série de fotografias por um longo, longo tempo. A aposta é que sua percepção sobre essas imagens possa mudar, mesmo que as próprias continuem praticamente idênticas.

Cotação-2-5Cães Errantes - posterCães Errantes (Jiao You)

Direção: Tsai Ming-liang

Roteiro: Peng Fei-Song, Tsai Ming-liang e Chen Yu Tung

Elenco: Shiang-chyi Chen, Kang-sheng Lee, Yi Cheng Lee, Yi Chieh Lee, Yi-Ching Lu.

Gênero: Drama

Duração: 138 minutos

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