Inside Llewyn Davis: Balada de Um Homem Comum | Crítica

Inside Llewyn Davis: teaser trailer - video

Ao longo de sua carreira, os irmãos Joel e Ethan Coen demonstraram sempre grande interesse pela trajetória do homem comum. Desde sua estreia com Gosto de Sangue, em 1984, o homem do povo, com seus defeitos e qualidades, foi retratado em dezenas de diferentes papéis no mundo subvertido dos cineastas.

O olhar sobre esse personagem variável é quase sempre sarcástico. Às vezes mais bondoso, como no caso da Marge (Frances McDormand) de Fargo. Em outras, implacável. Um exemplo desse segundo caso é o recente Um Homem Sério, filme que aliás tem muitos paralelos com Inside Llewyn Davis: Balada de Um Homem Comum.

De fato, o novo filme da dupla se relaciona mais diretamente com duas obras anteriores dos irmãos. Além de Um Homem Sério, há muitos pontos de semelhança com Barton Fink – Delírios de Hollywood. Do primeiro, refere-se ao homem constantemente sabotado pelo mundo e pelas pessoas ao seu redor, em uma espiral de infelicidade e desilusão. Com o segundo, faz uma relação bastante próxima ao inferno vivido pelo artista em fase de criação.

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Porém, ao invés do hotel demoníaco enfrentado pelo roteirista em crise de criatividade naquele, vemos o labirinto de impossibilidades que cercam um artista talentoso em um mundo incapaz de compreender. Na realidade, é a mediocridade dos outros que faz com que o músico Llewyn Davis (Oscar Isaac) nunca consiga levar para frente sua carreira.

Desde o início, o universo de Llewyn é rodeado de incertezas e frustrações. Vivendo na Nova York dos anos 60, iluminada pela depressiva fotografia de Bruno Delbonnel, o personagem sobrevive de tocar em bares no bairro de Greenwich Village, recanto de músicos de folk no período, e depende da solidariedade de conhecidos para ter uma cama e um teto sobre sua cabeça. Entre seus melhores amigos estão o simpático e também músico Jim Berkey (Justin Timberlake) e sua esposa Jean (Carey Mulligan), que despreza Llewyn, apesar de estar secretamente grávida dele.

Esse mundo restrito, no entanto, não seria típico dos Coen sem sua parcela de personagens surreais. Os mais notáveis são o lacônico Johnny Five (Garrett Hedlund) e o insuportável Roland Turner (John Goodman), com quem o protagonista pega uma longa carona. Esse é o momento mais divertido de todo o filme e representa com habilidade impressionante todo o irrealismo que impregna a narrativa. Outra exemplificação perfeita do absurdo da história é o gato malhado, presença que acompanha o músico praticamente ao longo de toda a sua jornada.

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Por outro lado, também há momentos dolorosamente reais. Após uma interpretação belíssima da música The Death of Queen Jane, canção folclórica inglesa, o megaempresário musical Bud Grossman (F. Murray Abraham) permanece quase indiferente.  A melancolia das canções de Llewyn se choca com um público que procura entretenimento fácil e barato. Não vejo dinheiro aí, diz o empresário.

É o pesadelo para qualquer artista. Ter certeza do próprio talento, mas se ver ficar cada vez mais para trás devido ao mau gosto do restante do mundo, que prefere porcarias como as compostas pelo jovem Troy Nelson (Stark Sands) ou o próprio Jim.

A ironia do filme, entretanto, vai além disso. Afinal, não é que o mundo não tenha interesse no talento em geral. Isso na realidade se aplica apenas ao caso do amargo, ressentido Llewyn Davis. Assim, sua jornada ganha ares de James Joyce e se conclui de forma kafkiana, em um mundo com pitadas de melancolia e humor tão características que só poderiam mesmo ter saído da cabeça de dois dos cineastas mais talentosos da atualidade.

Cotação-5-5Inside Llewyn Davis: Balada de Um Homem Comum - poster nacionalInside Llewyn Davis: Balada de Um Homem Comum (Inside Llewyn Davis)

Direção: Ethan Coen e Joel Coen

Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen

Elenco: Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, Ethan Phillips, Robin Bartlett, Max Casella, Jerry Grayson, Jeanine Serralles, Adam Driver, Stark Sands, John Goodman, Garrett Hedlund, Alex Karpovsky, Helen Hong, Bradley Mott, Michael Rosner, Bonnie Rose, Jack O’Connell, Ricardo Cordero, Sylvia Kauders, Ian Jarvis, Diane Findlay, Ian Blackman, Steve Routman, Susan Blommaert, Amelia McClain, James Colby, Charlotte Booker, Mike Houston, Samuel Haft, F. Murray Abraham, Jason Shelton, Frank Ridley, John Ahlin, Jake Ryan, Declan Bennett, Erik Hayden, Daniel Everidge, Jeff Takacs, Nancy Blake, Stephen Payne, Roberto Lopez, Benjamin Pike, Genevieve Adams, Paul Rocco Amato.

Gênero: Drama/Musical

Duração: 104 minutos

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