Cinema Comparado | ‘Ela’ e ‘Encontros e Desencontros’

Encontros e Desencontros é o meu filme favorito. Por isso, foi inevitável perceber alguns paralelos dele com o mais recente trabalho de Spike Jonze no roteiro e direção de  Ela. Spbike e Sofia Coppola, diretora e roteirista de Encontros e Desencontros, foram casados por 4 anos, e antes de ter um relacionamento amoroso, os dois eram amigos (eles se conheceram em 92 e se casaram em 99). Em 5 de dezembro de 2003, Sofia pediu o divórcio alegando “diferenças irreconciliáveis”.

Assisti Ela ontem à noite (17/02), e desde então não consegui parar de pensar nisso. Antes de começar esse texto, fiquei me perguntando se não estava louca traçando paralelos entre os filmes. Uma breve pesquisa no Google por “Lost in Translation Her” para descobrir uma primeira página com vários artigos sobre o que andei pensando. Deixei eles de lado e só os li quando acabei o meu. Peguei inclusive um quote da Coppola para a Entertainment Weekly no segundo, portanto, vocês podem conferi-los aqui, aqui e aqui. Todos os três em inglês.

*AVISO: o artigo contém spoilers dos dois filmes*

HER LOST IN TRANSLATION

No mesmo ano em que foi anunciada a separação do casal Jonze-Coppola, foi lançado Encontros e Desencontros. Com sua estreia logo começaram os rumores de que o filme tinha como inspiração a vida da própria cineasta. No filme temos Charlotte, interpretada por Scarlett Johansson (que seria Coppola), uma jovem casada há 2 anos que decide acompanhar seu marido, John (que seria Jonze), em uma viagem de trabalho dele a Tóquio. Deixada de lado por ele, que se mostra workaholic e indiferente a ela em todos os momentos, Charlotte encontra-se estagnada e com questões que só consegue compartilhar com Bob Harris (o sempre ótimo Bill Murray), um ator americano que estava hospedado no mesmo hotel que ela e que também se encontra com as mesmas angústias de Charlotte, mas cada um com elas comuns à sua idade. Quando questionada sobre ser ou não sobre Spike, Sofia disse à Entertainment Weekly:

“It’s not Spike,” insists Coppola. “But there are elements of him there, elements of experiences. There are elements of me in all the characters.”

Podemos começar traçando o paralelo dizendo que Ela e Encontros e Desencontros são filmes sobre a solidão de seus personagens. Ambos também se passam em ambientes modernos. Encontros e Desencontros em Tóquio, com seus prédios enormes e letreiros de led que exalam tecnologia e se tornam imensos ao redor dos personagens, que ajudam a ilustrar a contraposição entre a solidão e a aglomeração da cidade escolhida como cenário da história. “Everyone wants to be found” e “Sometimes you have to go halfway around the world to come full circle” são frases utilizadas nas divulgações do filme (cartaz e trailer, respectivamente)

LOST IN TRANSLATIONHER

Ela se passa em um futuro imaginado, com também prédios enormes, cores exorbitantes e sistemas inteligentes. Nele, seguimos os passos de Theodore (interpretado pelo brilhante Joaquin Phoenix), que recentemente se separou de Catherine (Rooney Mara). Theodore trabalha como redator de cartas manuscritas. O texto das cartas é criado por ele, não por seus clientes, e enviadas a seus destinatários. Um trabalho perfeitamente possível de ser imaginado caso tenhamos uma visão pessimista de um futuro que, cada vez mais engolido pela tecnologia, causaria a alienação sentimental humana. O motivo da separação de Theodore e Catherine inicialmente não é revelado, mas também é difícil dizer o que ocorreu. O que sabemos são os fatos narrados pelo personagem em suas conversas com Samantha, um sistema operacional cuja voz é de – ora vejam só – Scarlett Johansson.

Assim traçamos mais um paralelo. Nos dois filmes temos dois personagens que ajudam Charlotte e Theodore a sair de suas situações (seja vivendo em um relacionamento que não está dando certo, no caso de Charlotte, ou em um pós-término, no caso de Theodore): Bob Harris e Samantha. Cada um com suas particularidades, sendo tudo o que os personagens precisavam no momento: uma conexão intelectual com alguém para compartilhar seus sentimentos.

LOST IN TRANSLATION HER

LOST IN TRANSLATION

A culpa que Theodore sente em relação a Catherine, é a mesma reclamação de Charlotte em relação a John: a incapacidade do marido expressar seus sentimentos, de deixar de lado e seguir em frente, ignorando as emoções necessárias para manter uma relação. Theodore só conseguia se expressar através de suas cartas, que eram seu trabalho. John só ligava para seu trabalho. Não poderíamos dizer, então, que se nos dois filmes temos em um a “acusação” e no outro a “culpa”, que Spike Jonze é realmente a junção de Theodore e John? E que as cartas de Theodore são, na verdade, seus filmes?

Charlotte, em uma conversa com Bob, diz que não sabe quem ela deveria ser, que já tentou ser escritora, mas odiava o que escrevia. Theodore conta que ele e Catherine cresceram e amadureceram juntos, e que um mostrava para o outro seus trabalhos e que assim eles evoluíam. Catherine se mostra extremamente crítica com sua escrita, e Theodore a ajudava.

E aqui entro em uma questão específica de Ela: quando Theodore começa a ter dúvidas sobre seus sentimentos por Samantha, já que ela era um sistema operacional, é justamente a conversa que ele tem com Catherine para assinar os papeis do divórcio (onde ela diz que o relacionamento dos dois era perfeito porque Samantha é um computador e, assim, ele não precisa de emoções reais) que o leva a se questionar mais uma vez sobre seus sentimentos não só por Catherine ou Samantha, mas qualquer relacionamento que ele tenha, seja do presente ou futuramente.

HERLOST IN TRANSLATION
No fim, a carta que Theodore escreve para Catherine não poderia funcionar como um pedido de desculpas à própria Coppola?

Dear Catherine,

I’ve been sitting here thinking about all the things I wanted to apologize to you for. All the pain we caused each other. Everything I put on you. Everything I needed you to be or needed you to say. I’m sorry for that. I’ll always love you ‘cause we grew up together and you helped make me who I am. I just wanted you to know there will be a piece of you in me always, and I’m grateful for that. Whatever someone you become, and wherever you are in the world, I’m sending you love. You’re my friend to the end.

Love,

Theodore.

HER LOST IN TRANSLATION

Se é uma “resposta” ou um “pedido de desculpas” de fato, ou não, só o próprio Jonze poderá dizer, o que não tira o mérito do filme, em nenhum momento, seja qual tenha sido sua intenção. Ela é um excelente filme, assim como Encontros e Desencontros. Juntos, porém, temos uma visão diferente e interessante. E se tiver sido essa a intenção de Spike e com isso ele for questionado porque tanto tempo depois, ele pode se justificar com o diálogo dito por Samantha: “the past is just a story we tell ourselves”.

Leia a crítica de Ela aqui.

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8 comentários

  1. Quando assistir “Ela” fiquei com essa mesmo pensamento… Jonze já revelou que começou a escrever há uns dez anos atrás e só retomou ano retrasado porque demorou para adquirir o suporte e a habilidade como roterista que precisava, então até as épocas batem.

    Outro ponto interessante é que Theodore toda hora comenta que depois que eles separam, sua ex-mulher virou incrivelmente bem sucedida e Sofia Coppola firmou mesmo seu nome como diretora com “Encontros e Desencontros”, primeiro filme dela depois da separação.

    Curtido por 1 pessoa

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