Diretores | As Ondas de Lars Von Trier

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Lars Von Trier é um diretor obcecado por trilogias temáticas. Dessa forma, praticamente todos os seus filmes se encaixam em uma série cinematográfica razoavelmente coerente.  Ondas do Destino, um trabalho da fase inicial de sua carreira, é o primeiro filme daquela que é conhecida como a trilogia do Coração de Ouro, que também inclui Os Idiotas e Dançando no Escuro.

A principal característica da trilogia é a presença de uma protagonista extremamente ingênua e de coração puro, que consegue manter seus ideais intocados apesar da série de tragédias com a qual é confrontada.  Von Trier já confessou que a série é resultado da leitura feita quando criança de um livro de contos de fadas sobre uma menininha boa, que dá tanto de si mesma para os outros que acaba ficando sem nada.

Em uma entrevista, Trier revelou que a frase final dita pela personagem no livro era “eu ficarei bem de qualquer forma”. Essa referência explica muito do trabalho do diretor não apenas na trilogia, mas também em filmes posteriores, como Dogville e Manderlay.

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Ondas do Destino conta a história de Bess McNeill (Emily Watson, em uma atuação maravilhosa), a jovem moradora de uma comunidade extremamente religiosa e rígida localizada em algum lugar da Escócia. Com um histórico de problemas psicológicos, Bess precisa enfrentar a desconfiança dos outros moradores da comunidade quando decide se casar por impulso com um forasteiro.

O principal tema do filme é a cega devoção religiosa, logo transferida para uma inacreditável confiança no poder do amor. Quase uma criança em sua forma de pensar, Bess acredita que a forma como se porta pode interferir nos acontecimentos que envolvem seu marido, Jan Nyman (Stellan Skarsgard).

Toda a evolução da trama é uma inteligente transferência do conceito de que quando fazemos coisas boas e pensamos primeiramente nos outros, coisas boas também deverão ocorrer em nossas vidas. Uma ideia predominantemente religiosa, que lida com o dar e o receber. Não é à toa, portanto, que Bess é no início uma pessoa fortemente devotada à igreja.

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O grande conflito da personagem é que sua forma de pensar não é exatamente a mesma dos membros da igreja local, que acreditam em uma vida comedida, regrada e autopunitiva. Bess, por outro lado, tem uma capacidade intensa para o amor, que se reflete em sua dificuldade de dizer adeus para o marido, que vai trabalhar por meses em uma plataforma de petróleo. Ela dobra a figura de Deus a suas próprias crenças e empresta sua voz à divindade, ditando a si mesma um rol de sacrifícios que podem muito bem ser reflexo da criação rigorosa que teve.

Além de apresentar um discurso que separa completamente a igreja de atos necessariamente bons, Von Trier vai mais longe no filme e dissocia o ato sexual do amor, transformando o sexo em um verdadeiro autossacrifício para a personagem. O mais interessante, contudo, é que isso em nenhum momento a corrompe por dentro, fazendo com que, ao final do filme, embora malvista em toda a cidade, sua bondade permaneça intacta.

O notável no trabalho de uma fase tão inicial do cineasta é a diferença de abordagem que Von Trier mostra em relação à psique de seus personagens, se comparado a obras posteriores. Os personagens aqui não são cruéis em si mesmos ou sádicos, mas representam claramente um resultado do meio onde vivem e das situações extremas que são obrigados a enfrentar (com exceção da protagonista, que se destaca como uma pessoa única, quase santa).

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O estilo do diretor aqui é muito mais naturalista, embora desde então ele já demonstrasse uma preferência por paisagens desoladas e perturbadoras. Além disso, não manipula tanto o público para que compre a mensagem que ele tenta passar. A própria mensagem é bem mais aberta a interpretações do que alguns de seus filmes mais categóricos, com destaque para Dogville e o recente Melancolia.

O mais impressionante, no entanto, é a diferença da atmosfera psicológica apresentada, que se mostra até mesmo moderadamente otimista. É a marca da impressão de um homem que ainda crê em uma bondade inerente ao ser humano apesar de tudo, apesar das dificuldades, das regras e crenças. Apesar de si mesmo. Tudo isso, é claro, muda radicalmente já a partir de seu próximo filme.

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