Jobs | Crítica

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Toda cinebiografia tem de lidar, em maior ou menor grau, com o risco de soar episódica ao lidar com a trajetória da figura a qual destina retratar. Afinal uma vida inteira é um material considerável a ser condensado em duas horas, e é muito fácil transformar o que deveria ser um filme com narrativa fluida em apenas uma colagem dos momentos mais marcantes, sem um desenvolvimento adequado de como estes ligam-se entre si.

Este é o maior equívoco deste Jobs, sobretudo no que se refere à transição entre os atos de seu roteiro. Assim, vemos como a Apple deu seus primeiros passos despretensiosamente num fundo de uma garagem para logo em seguida já vislumbrarmos uma empresa sólida e cheia de executivos engravatados se esforçando em minar o poder de seu fundador, até novamente avançarmos no tempo a fim de vermos o retorno de Steve Jobs à casa que lhe “foi roubada”. Essas passagens temporais bruscas acabam por comprometer o retrato que o filme tenta pintar do seu protagonista, já que não fica claro como o jovem liberal se transforma no exigente (e mesmo cruel) empresário e nem como este amadurece se tornando o quase guru filosófico do ato final.

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Aliás, outra grande falha do longa encontra-se no desleixo com o qual o lado pessoal do pai do iPhone é tratado. Procurando focar sua obsessão por trabalho, o roteiro de Jobs praticamente se recusa a dar espaço para qualquer outro aspecto de sua vida. Sua rejeição à filha, por exemplo, ganha grande destaque em certo momento para nunca ser devidamente resolvida posteriormente. Desta maneira soa inverossímil quando o personagem surge como pai de família exemplar no terceiro ato, já que o filme não nos dá a oportunidade de vê-lo se redimindo neste ponto.

Por outro lado, a direção de Joshua Michael Stern é eficaz ao diferenciar com competência o caráter doméstico da fase inicial da Apple, definido pelos planos mais fechados nos personagens, do ambiente corporativo impessoal que toma conta da empresa a partir de seu crescimento, onde o seu branco tão característico praticamente toma conta da tela. Mesmo assim, o diretor acaba exagerando na reverência ao personagem título, colocando-o sempre para declamar discursos motivadores.

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Mas o que acaba mesmo surpreendentemente salvando o filme é Ashton Kutcher. Se superando em sua caracterização cirurgicamente precisa, o ator entrega aqui de longe o melhor trabalho de sua carreira. Não é a toa que na sequência de abertura seu rosto demora a ser revelado, fazendo o público se questionar se não estaria vendo imagens do verdadeiro Steve Jobs – uma clara demonstração de confiança do filme na força da sua atuação. Imitando com perfeição todos os trejeitos do sujeito, desde suas inflexões de voz características até o seu andar encurvado, Kutcher demonstra ter estudado a fundo seu personagem, e sua composição é feliz também por superar as falhas do roteiro e nos fazer torcer pelo protagonista mesmo este tendo um caráter visivelmente controverso.

Pois o fato é que se a visão e a obstinação de Steve Jobs são características admiráveis e dignas de serem seguidas, o mesmo jamais poderá ser dito sobre a forma com que tratava as pessoas ao seu redor. E gênios são figuras memoráveis não apenas por suas virtudes, mas por toda a complexidade e singularidade de seus seres. Um retrato justo e digno é aquele que não se furta em mostrá-lo em sua totalidade, sem hipocrisias.

Nesse aspecto, podemos dizer, Jobs acerta em cheio.Cotação-4-5

 

 

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Direção: Joshua Michael Stern

Roteiro: Matt Whiteley

Elenco: Ashton Kutcher, Dermot Mulroney, Josh Gad, Lukas Haas, Matthew Modine, J.K. Simmons, Lesley Ann Warren, Ron Eldard, Ahna O’Reilly, Victor Rasuk, John Getz, Kevin Dunn, James Woods, Nelson Franklin, Eddie Hassell, Elden Henson, Lenny Jacobson, Brett Gelman, Brad William Henke, Giles Matthey, Robert Pine, Clint Jung, David Denman, Masi Oka, Abby Brammell, Annika Bertea, Paul Baretto, Amanda Crew, Samm Levine, Cody Chappel, Joel Murray, William Mapother, Scott Krinsky, Evan Helmuth, Laura Niemi, Jim Turner, Clayton Rohner, Rachel Rosenstein, Christopher Curry, Mark Kassen, Dan Shaked, Duncan Bravo, Kent Shocknek, Aaron Kuban, Olivia Johnson.

Gênero: Drama

Duração: 128 minutos

Assista AQUI ao trailer legendado de Jobs

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