Superman – Os Filmes | De Donner à Busca da Paz

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Junho de 1938 – Há 75 anos, nascia o primeiro super-herói do planeta. Em meio a grande depressão que passavam os Estados Unidos na época, Superman surgiu como símbolo de esperança, verdade e justiça (e por um bom tempo, do “American Way”), em histórias em quadrinhos, passando depois para a televisão e série animada, até enfim conquistar, em 1978, seu espaço no cinema e assim tornar-se uma das figuras pop mais reconhecidas do mundo até hoje.

Não foi fácil trazê-lo ao cinema, havia grande resistência da Warner Bros. (estúdio que faz parte do grupo dono da DC Comics, editora das histórias do Superman), pois até então nenhum filme baseado em super-heróis dos quadrinhos havia sido produzido, e muito menos levado a sério, e as lembranças das bobas séries do Superman e do Batman ainda estavam frescas na memória de todos, afinal os anos 1960 ainda eram um passado recente.

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Foi então que dois produtores europeus, pai e filho, Alexander e Ilya Salkind, propuseram a produção à Warner. Negócio fechado, e eles primeiro conseguiram um roteirista de renome, Mario Puzo (que escreveu ‘apenas’ O Poderoso Chefão) para escrever a primeira versão do roteiro, e em seguida ninguém mais, ninguém menos do que Marlon Brando no papel do pai biológico do Superman, Jor-El, fazendo com que os valores dos cachês dos grandes astros de Hollywood inflacionassem de maneira irreversível. Hoje em dia nenhum ator de renome aceita um cachê dentro dos padrões do sindicato numa grande produção. Brando quebrou barreiras ao receber a astronômica quantia na época de mais de U$ 3 milhões por apenas duas semanas de trabalho.

Outro ator de renome que foi contratado logo no começo foi Gene Hackman, para o papel de Lex Luthor. O ator não aceitou logo de cara, pois temia que um filme destes prejudicaria sua imagem de ator sério. E pensar que hoje atores Oscarizados e de grande reputação correm atrás de um filme de super-herói…

Com estes nomes, o financiamento do filme estava garantido, e só precisavam encontrar o diretor. Engana-se quem acha que Richard Donner foi o primeiro, ele entrou para substituir Guy Hamilton (que dirigiu vários filmes do James Bond lá na época de Sean Connery e Roger Moore), que estava impossibilitado de filmar na Inglaterra, onde o filme seria rodado. Richard Donner acabara de vir do sucesso A Profecia e quase não acreditou na oferta de U$1 milhão por Superman I e II, que seriam rodados simultaneamente.

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Mas Donner não gostava do tom do roteiro, que em muito se assemelhava a uma paródia, e por isso contratou seu braço direito Tom Mankiewicz, que foi quem realmente encontrou o tom certo do filme, tornando-o o clássico que conhecemos e amamos. Os dois primeiros filmes do Superman acabaram se tornando padrão para o gênero, tendo influenciado muitos filmes de sucesso mais recente, como os Homem-Aranha de Sam Raimi, por exemplo. Superman então abriu a porta para todos os filmes do gênero, afinal, antes dele, nenhum era levado muito a sério.

Christopher Reeve em seu teste
Christopher Reeve em seu teste

Encontrar o ator certo para viver Superman não foi tarefa fácil, enquanto o estúdio sugeria galãs da época, como Robert Redford e Paul Newman, Donner foi na direção contrária e procurou por um desconhecido. Christopher Reeve fez o teste, e mesmo suando debaixo do uniforme e sendo um magricela, provou a todos que era perfeito para o papel. Ele mal imaginava ali que se tornaria um ícone que influenciaria até os desenhos dos quadrinhos, e é, para muitos, até hoje o Superman definitivo. Será que Henry Cavill o superará?

A escolha de Lois Lane foi outra novela. Praticamente todas as atrizes dentro do perfil e disponíveis foram testadas na época, mas Margot Kidder superou todas por seu senso de humor, delicadeza e até mesmo a falta de glamour, já que Lois Lane é uma mulher real, como qualquer outra, um retrato da mulher forte e moderna que luta por seu espaço no mundo. Ela foi uma das primeiras mocinhas a ser retratada desta forma no cinema, quebrando paradigmas e estabelecendo padrões que valem até hoje. Afinal, ninguém mais aguenta a princesa perfeitinha e passiva, não é?

Ao praticamente criar a tecnologia para fazer todos acreditarem que o homem poderia voar, Superman entrou no imaginário de várias gerações, que guardam o filme com carinho nas memórias de infância. Se você se diverte indo ao cinema para assistir Batman, Homem de Ferro e cia hoje em dia, agradeça a ele.

 Superman – O Filme (Richard Donner, 1978)

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Clássico dos clássicos do gênero, o filme se divide em três períodos distintos. Começando por Krypton, com um visual que remete a filmes de ficção científica, Donner criou um planeta branco, frio, minimalista e elegante, cuja tecnologia é composta por cristais, uma ideia genial para se afastar da tecnologia terráquea. Este conceito dos cristais foi incorporado depois nos quadrinhos durante algum tempo.

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O filme começa com um texto requintado e uma atuação impecável de Marlon Brando, que está julgando o general Zod e enviando-o, junto com seus comparsas, à Zona Fantasma. Em seguida aparece alertando o conselho Kryptoniano do fim iminente do planeta através de seu Sol vermelho que se aproxima. Mas a teoria de Jor-El não é levada a sério e ele fica proibido de fugir de Krypton e causar pânico na população. Ele então decide salvar apenas seu filho recém nascido, Kal-El, enviando-o à Terra, pois nesse planeta ele poderia se passar por um humano, mas teria habilidades e força descomunais. Quando a nave está partindo, a destruição do planeta começa, e é uma sequência que hoje parece datada, com uma iluminação avermelhada, paredes se partindo e pessoas caindo em buracos abertos no chão. Mas tudo isso ao som da magnífica trilha sonora de John Williams.

Chegando à Smallville, o filme já parece ser outro, num estilo mais naturalista, bucólico e poético, de paisagens naturais panorâmicas, e vemos um pouco da adolescência de Clark, ele tendo que esconder seus poderes, a morte de seu pai adotivo e o chamado instintivo para busca de seu verdadeiro Eu. Clark então vai embora em direção ao norte, onde com a ajuda de um cristal que estava em sua nave, cria a Fortaleza da Solidão, onde entra em contato com mensagens de Jor El e lá passa anos aprendendo sobre o universo.

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Corta para Metrópolis (que na verdade é Nova York), e aí chegamos ao terceiro filme dentro do filme. A cidade efervescente, cheia de cores e sons, e ali o roteiro já é mais dinâmico e com muito humor. Nova York nos anos 1970 estava sendo assolada pela violência, e o país vinha de uma era pragmática, então Superman, chegando para defender os ideais norte-americanos com uma certa ingenuidade num colant colorido, teria tudo para não ser levado a sério, mas não foi o que aconteceu. O filme foi um dos símbolos de uma nova época, mais patriota, que levou os EUA a se reerguerem como grande potência durante a Guerra Fria.

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Uma pena que coube ao vilão e seus assistentes trapalhões a maior parte do alívio cômico do filme. Se bem que, para a época e por muito tempo, funcionou e de certa forma faz parte do seu charme, graças a atuação irreverente de Gene Hackman, que, diga-se de passagem, não quis raspar a cabeça de jeito nenhum para o filme (sua careca no fim é uma óbvia maquiagem). A verdade é que o plano de Luthor era megalomaníaco e maligno, sem dúvida, mas tinha sua complexidade.

Já o ato final, quando Superman encontra Lois morta e se vê no dilema de seguir os conselhos de pai adotivo ou o mandamento de seu pai biológico de não interferir na história humana, o herói se decide por seu amor humano e gira a Terra ao contrário para fazer voltar o tempo e salvar a vida de sua amada. É ainda uma das cenas mais poéticas e românticas de todos os tempos e uma das mais memoráveis deste clássico.

Superman II – A Aventura Continua (Richard Lester, 1980)

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Como disse anteriormente, Superman I e II foram filmados simultaneamente, sendo que quando o primeiro foi lançado, ainda filmavam o segundo. Porém, por divergências criativas, o diretor Richard Donner foi demitido pelos produtores antes do fim das filmagens, e em seu lugar entrou Richard Lester, que aproveitou boa parte dos 80% já filmados, mas teve que refazer sequências, já que por questões contratuais e por apoio a Donner, Marlon Brando não poderia aparecer na sequência e Gene Hackman se recusou a filmar mais cenas. Com isso, mesmo que para os mais distraídos possa passar despercebido, a qualidade do filme caiu consideravelmente em relação ao primeiro, pois muitas cenas de impacto emocional tiveram que ser excluídas e com isso muitas cenas perderam a força.

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Na trama, a ação de Superman ao jogar bombas de um ato terrorista no espaço causa a reação de libertar os três bandidos Kryptonianos da Zona Fantasma, eles então, após uma parada na Lua, matando astronautas (tudo mostrado de forma muito sutil), seguem para a Terra, onde tocam o terror à vontade, já que neste meio tempo Superman abre mão de seus poderes através de uma cápsula da Fortaleza da Solidão por amor à Lois Lane, que descobre sua identidade secreta.

Neste filme, Kal El e Lois finalmente vivem plenamente seu amor. Mas quando Zod e seus comparsas chegam à Casa Branca e Clark descobre o que está acontecendo, ele precisa fazer uma escolha: entre o amor de uma mulher ou toda a humanidade.

O que percebe-se nitidamente é a mudança de tom no filme, os Salkinds queriam mais humor, e conseguiram, mas o porquê de insistirem nisso após o estrondoso sucesso do primeiro filme permanece um mistério. Gags (cenas engraçadinhas) foram inseridas na sequência de luta entre Superman, Zod e sua gangue na ruas de Metrópolis e com isso todo o terror da invasão do grande vilão Kryptoniano foi minimizado, e Superman até teve seu momento de vingancinha pessoal contra um Mané qualquer, algo que contradiz seu discurso anti-violência do filme anterior.

Mas ainda assim é um bom filme, cheio de ação e ótimas atuações, estabelecendo de vez o sucesso do gênero no cinema dali em diante.

Superman III (Richard Lester, 1983)

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Neste terceiro filme o diretor Richard Lester já não tinha cenas para aproveitar e então Superman parte ladeira abaixo para o pastelão. E nós apenas nos perguntamos: Por que? Por queeeeee? WHY?

Depois de tanto sucesso dos primeiros filmes, única e exclusivamente por conta da visão de Richard Donner do herói, cheio de emoção e crítica à sociedade da época, se levando a sério e conseguindo imprimir realismo mesmo em meio à fantasia e ingenuidade. Pra quê mexer em time que está ganhando e retroceder levando o herói ao nível bobo em que os super-heróis eram vistos outrora?

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A primeira diferença que se nota é que qualquer indício de emoção e profundidade foram descartados. Todo o amor que Superman sentia por Lois, fazendo-o agir contra as leis da física e renunciar a seus poderes nos filmes anteriores, foram tratados como nada e a personagem de Margot Kidder (que demonstrou também insatisfação com a saída de Donner), foi relegada à mera coadjuvante do terceiro escalão, levando um fora nonsense de Clark Kent, que neste filme prefere ficar com sua paixonite de adolescência, a ruiva Lana Lang de Annette O’Toole.

Aliás, a mudança de tom pode ser sentida já desde os créditos iniciais. As habituais letras voadoras não aparecem no espaço, mas em meio as ruas de Metrópolis, em uma sequência de humor pastelão, com uma gag atrás da outra, culminando praticamente na teoria do Caos.

Superman sequer é o único protagonista do filme, tendo que dividir o tempo de tela com o comediante Richard Pryor, que vive um personagem meio vilão sem noção, que não existe nos quadrinhos e não tem razão alguma de estar ali, mas estava porque fazia um grande sucesso na televisão na época.

O ponto alto do filme, talvez o único, é uma cena em que Clark (o lado puro do herói) luta contra o Superman maligno (uma versão bad boy do Superman, afetado pela kryptonita sintética). É como se enfrentasse e superasse seus próprios demônios. Nesta sequência, aliás, podemos ver com clareza o quanto Christopher Reeve era genial, pois conseguia transmitir a ingenuidade e a força de dois personagens em um. Pena que não conseguiria mais se superar no cinema.

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Todo o dinheiro arrecadado com bilheterias recorde nos dois primeiros filmes também não foram vistos aqui. Os financiadores devem ter fugido junto com a saída dos grandes astros e com isso a ideia original de usar Brainiac como vilão teve que ser descartada. A história acabou então se tornando um remendo, com um dublê de Lex Luthor (Robert Vaughn no papel de um ricaço excêntrico) que queria usar um supercomputador para dominar o mundo. Devia ser muito moderno na época, mas vendo hoje em dia não deixa de ser engraçado.

Superman IV: Em Busca da Paz (Sidney J. Furie, 1987)

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Depois do fracasso de Superman III e a equipe de produção original fora, o próprio Christopher Reeve tentou salvar o herói, elaborando o argumento para o roteiro e produzindo o quarto filme. Mesmo com restrições orçamentárias sérias, ele conseguiu atrair o elenco original de volta, diga-se Margot Kidder – subaproveitada – e Gene Hackman – que volta de forma até satisfatória – e fazer um filme muito bem intencionado, mas que se perde num roteiro mal escrito e uma direção fraquíssima.

Richard Donner, cadê você?

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Na trama, Superman pretende acabar de vez com a Guerra Fria lançando todas as ogivas nucleares ao espaço. Lex Luthor retorna agora não como um obcecado por terra, mas querendo ser um fornecedor de armamento, e num dos poucos momentos bons do roteiro, tem um diálogo com Superman em que afirma que a guerra não lhe interessa, e sim a ameaça de uma (continua atual, não?).

Era um tema relevante para a época e poderia ter se focado nisso, mas incluíram subtramas desnecessárias, como o novo dono do Planeta Diário e sua filha, que apareceu apenas para criar um triângulo amoroso monótono e servir de interesse ao outro vilão (que em certo momento a leva ao espaço, com a roupa do corpo apenas). Sim, porque Lex Luthor não bastava, a mente criminosa mais brilhante do planeta também era capaz de clonagem muito antes da ovelha Dolly aparecer. Roubando um fio de cabelo do Superman e mandando seu DNA ao espaço com as ogivas, ele consegue criar o Nuclear Man, um patético e descerebrado vilão com poderes parecidos ao de Superman, para que houvesse um confronto físico.

O ator que o interpretou desapareceu logo depois de sua estréia nas telonas. E não tinha como, o filme foi um fracasso retumbante, um retrocesso em termos de efeitos visuais e o resultado de que uma boa ideia mal-executada é pior do que uma ideia banal nas mãos de pessoas competentes.

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Foi o fim de uma era, Superman levaria décadas para voltar ao cinema e a carreira de Christopher Reeve não iria muito longe, ainda mais sendo bruscamente interrompida pelo acidente que o deixou tetraplégico. Talvez aí o mundo tenha redescoberto o quão super-homem ele sempre foi.

No próximo artigo, discutiremos porque o retorno de Superman não deu certo.

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