O Abismo Prateado | Crítica

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O Abismo Prateado tem início em lugares profundamente negros. As ondas que batem na areia da praia logo no início da projeção são uma espécie de prenúncio da instabilidade e imprevisibilidade do minúsculo homem que as desafia, adentrando suas escuras entranhas sem pensar duas vezes.

Djalma (Otto Jr.) parece estar fora de si. Faz amor com sua esposa Violeta (Alessandra Negrini) como se sua intenção fosse machucá-la. E, na verdade, machucar os outros e a si mesmo parece ser um ponto-chave para entender o que o diretor Karim Aïnouz pretendia fazer aqui.

Baseado na canção Olhos nos Olhos de Chico Buarque (que tinha outras músicas aparentemente muito mais “adaptáveis” do que esta), o longa mostra a queda no abismo de Violeta depois que seu marido a abandona, deixando uma mensagem nada sutil em seu celular. Diferente do que se costuma ver, esta é uma mulher que ama o marido a ponto de esquecer da existência do filho ou mesmo de sua segurança pessoal para sair em uma louca corrida atrás do fantasma de uma paixão que há muito deixou de existir.

Sem saber o que fazer, Violeta começa a rodar pela cidade em busca de uma resposta, ou melhor, procurando uma forma de punir a si mesma. É o que acontece quando ela tira uma fina de um carro que a derruba da bicicleta ou simplesmente quando cai, parece que de propósito, de cara no chão. Ela demora um tempo longuíssimo para apreender um pouco que seja o fato de que seu marido a largou pra valer.

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A câmera de Aïnouz gosta de acompanhar todos os passos de seus personagens em suas desesperadoras jornadas, praticamente colada em suas costas a todo momento. Os ambientes ao redor são na maioria das vezes desfocados, como se as pessoas não estivessem ligadas ao mundo que as cerca.

O uso do som é quase sempre bastante inspirado. Em um momento o ruído de uma broca impede que entendamos o que a protagonista está dizendo. Em outro, a toada de um funk que toca na rua permite que surpreendamos apenas uma ou outra palavra que ela grita para o marido ao telefone em um dos momentos mais importantes da história.

Mas talvez o ponto mais acertado do filme seja mesmo a forma como mostra a autodestruição causada por um evento como esse. Em um melancólico quarto de motel, Violeta escuta repetidamente as últimas palavras do marido em seu celular, “eu não te amo”, uma frase que tem mais de maldade quanto mais é repetida, transformando o prazer sádico de Djalma ao dizê-la no masoquismo despido de prazer de Violeta ao ouvi-la.

Infelizmente, se tudo o que foi dito antes parece contribuir para a construção de um filme no mínimo muito bom, tudo acaba indo por água abaixo ainda mais rápido que o casamento da protagonista. Inserindo de forma ridiculamente artificial na narrativa uma garotinha (Gabriela Pereira) que tem a ingrata função de fazer com que a história fique mais feliz e descontraída, o filme joga pelo ralo o denso desenvolvimento de personagem que vinha montando até então, em parceria com uma excelente atuação de Negrini.

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Daí pra frente, o longa apela para a simplicidade e pobreza dos novos personagens para comover o público e tornar menos pesado o fardo de Violeta. Caindo em contradição consigo mesmo, essa última parte do filme funciona como uma espécie de comédia romântica sem romantismo ou humor. De fato, a única coisa que se sobressai aqui é a chatice e falta de coerência da garotinha, além da péssima atuação de Thiago Martins, que interpreta seu pai.

Quando os primeiros acordes de Olhos nos Olhos previsivelmente começam a soar, já próximo dos letreiros finais, é impossível não pensar nas oportunidades desperdiçadas pelo filme. Tudo termina em uma espécie de feel-good movie e a última frase de Chico ressoa como uma grande ironia: Quero ver como suporta me ver tão feliz.

Cotação-2-5


abismo-prateado-posterO Abismo Prateado
(idem)

Direção: Karim Aïnouz

Roteiro: Beatriz Bracher e Karim Aïnouz

Elenco: Alessandra Negrini, Otto Jr. Thiago Martins, Gabriela Pereira, Camila Amado, Milton Gonçalves, Sérgio Guizé, Carla Ribas, Alice Borges, João Vitor da Silva, Rebbeca Orenstein.

Gênero: Drama

Duração: 83 minutos

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