O Espadachim de Carvão e os Círculos de Affonso Solano

O-Espadachim-de-Carvao Figura bastante conhecida no meio nerd da internet, o podcaster e a gora escritor Affonso Solano (Matando Robôs Gigantes) lançou este ano seu primeiro romance pelo selo Fantasy da Editora Casa da Palavra/Leya. Intitulado O Espadachim de Carvão, o livro narra a história de Adapak, filho de um dos quatro deuses do mundo de Kurgala, que cresceu na morada de seu pai tendo acesso a todo conhecimento divino, mas completamente isolado do mundo externo. Um dia, porém, ele é atacado por um misterioso grupo de assassinos e é obrigado a fugir, se aventurando pela primeira vez em um mundo desconhecido. Affonso-Solano-266x300Indo um pouco contra a maré dos recentes autores brasileiros de fantasia (como os colegas Eduardo Spohr e Raphael Draccon), Solano emprega um estilo de escrita mais clássica, dando foco às descrições do cenário e dos personagens. Isto é particularmente importante nos primeiros capítulos, quando o protagonista encontra-se predominantemente solitário e os diálogos são mais escassos.

Não que o livro seja enfadonho, pelo contrário, já que o autor consegue dar uma dinâmica para a narrativa ao inserir sucessivas sequências de ação que dão um bem-vindo tom de urgência ao primeiro ato. Afinal, a vida de Adapak está ameaçada e é preciso agir rápido. Contribui para esse dinamismo o talento de Solano em fornecer informações de maneira simultaneamente econômica e precisa, sendo feliz em conferir um ritmo impecável para o desenvolvimento da história. Não à toa a virada para o segundo ato de O Espadachim de Carvão se apresenta num momento de repentina surpresa, naquela que é a melhor sequência do romance. Sempre intercalando capítulos que narram a fuga do protagonista com outros de flashbacks (uma lógica que propositalmente não fica muito clara de início), o autor aproveita essas idas ao passado não apenas para dar ao leitor detalhes sobre a vida do personagem, mas também para situá-lo dentro daquele universo, tão recheado de referências.

Adotando elementos derivados sobretudo da mitologia suméria (que confesso que não me é muito familiar), Kurgala se revela tão rica e diversa que em vários momentos senti falta de algum glossário que catalogasse todas aquelas espécies, já que tive dificuldade para memorizar o aspecto de cada uma à medida que iam aparecendo. Quem sabe na próxima edição. O-Espadachim-de-Carvão-Adapak-266x300Outro ponto forte de O Espadachim de Carvão está na caracterização dada à Adapak. Tendo crescido alheio ao mundo, o espadachim de carvão (apelido dado devido à sua pele negra) se revela uma criatura extremamente inocente, apesar de muito culta. E a maneira como isso é retratado, através das suas interações com os coadjuvantes que vão aparecendo (uma pena a participação de Jakernum ser tão pequena), é bastante eficaz.

Também é interessante a solução encontrada para explicar sua perícia no combate com as espadas, uma técnica denominada Círculos de Tibaul, um conceito que assume ares de verdadeira sobrenaturalidade justificada por uma analogia precisa em um – não único – momento inspirado do livro (“o próprio caminhar não parece impossível, aos olhos de um recém-nascido?”). E como deixar de comentar as citações a Tamtul e Magano? Aparecendo num intrigante conceito de “livro dentro do livro”, essa fictícia série é lida pelo protagonista desde a infância e serve de referência constante em sua vida (numa alusão clara ao próprio caráter nerd do autor). Parecendo ter sido inspiradas pelas histórias de aventuras típicas dos anos 80, a mera presença das frases no início de cada capítulo já serve para aguçar a curiosidade do leitor por aquelas histórias, e a publicação futura delas é esperado desde já. Sendo talvez o único ponto mais grave do livro inteiro, o terceiro ato de O Espadachim de Carvão apresenta uma conclusão da história um tanto apressada.

Nada que afete demais o livro, mas o clímax da narrativa, a luta final, surge de maneira muito súbita e toda a solução do mistério aparece de uma vez só nessa sequência. Talvez fosse o caso de ter estendido mais o livro, que é relativamente curto (cerca de 250 páginas), para poder ter preparado melhor as peças. Certamente ninguém reclamaria de passar mais tempo em Kurgala. O-Espadachim-de-Carvao-iggi-e-sumi

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