A Busca | Crítica

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A paternidade talvez seja o desafio mais complicado na vida de um homem. Crescemos com várias críticas e ressalvas ao comportamento dos nossos pais, jurando agir diferente quando chegar a nossa vez, só para a vida nos pregar a maior das peças e ironicamente percebermos que nossos filhos também acabam crescendo discordando de nós.  Desta maneira, torna-se quase impossível não haver nenhum conflito nesta relação, e o distanciamento parece inevitável.

É nesta situação que se encontra Theo (Wagner Moura) com seu filho Pedro (Brás Antunes), no filme A Busca. Com o casamento em crise e preocupado com o futuro do filho, o médico insiste que ele entre para um intercâmbio, ficando distante para não testemunhar o conflito. Mas mesmo agindo com a melhor das intenções, o personagem não parece se importar com aquilo que é mais essencial: a própria vontade do garoto.  As coisas só pioram quando ele vê que o menino ganhou de presente uma cadeira de seu avô (Lima Duarte), de quem Theo guarda grande ressentimento. A briga estoura e Pedro acaba fugindo, para desespero de sua mãe, Branca (Mariana Lima).

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O primeiro ato de A Busca é competente ao retratar de maneira econômica toda a situação caótica em que se encontra aquela família. Empregando sempre planos fechados nos rostos dos seus atores, o diretor estreante Luciano Moura se preocupa em focar seu filme principalmente no estado emocional de seus personagens, e para isso se apoia completamente na performance de seus atores. Contribuem também para esta ambientação a trilha sonora, sempre empregando pianos tristes e sintetizadores que evocam um sentimento desorientador, e a direção de arte, que deixa a varanda da casa devidamente bagunçada por conta da piscina em obra – num óbvio reflexo da situação caótica em que se encontra aquela família. Não é à toa que, no decorrer da história, a obra vai se desenvolvendo até a piscina estar cheia d’água, significando que os personagens enfim arrumaram suas emoções.

E se o diretor se apóia em seus atores para dar força ao filme, sorte a dele poder contar com Wagner Moura como protagonista, já que o ator é sem dúvida o grande destaque do projeto. Retratando o desespero de Theo de maneira incrivelmente competente, Moura emprega sempre um olhar desolador e triste, um cabelo despenteado e investe várias vezes na mania de interromper seus interlocutores apenas para pedir atenção repetidamente, sem nunca realmente dizer nada. Uma estratégia óbvia e desesperada de não apenas calar quem está discutindo com ele, mas também de ganhar tempo para pensar numa resposta que solucione o problema em questão. Uma pena que seus colegas não se mostrem tão inspirados, à exceção da marcante participação de Lima Duarte.

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A partir da fuga do menino, o filme assume ares de road-movie, com o pai seguindo os passos do filho. Interessante notar que, ao interagir com as pessoas que passaram pelo caminho de Pedro, Theo acaba por conhecer seu filho de maneira que jamais imaginou, e conhecer o filho assim lhe dá condições de também conhecer a si próprio e finalmente se resolver emocionalmente (não à toa que Wagner Moura aos poucos vai se entregando ao riso e à expressão de passividade no decorrer da história). Entendendo também que é necessário alguns alívios cômicos para uma história tão dramática, o roteiro recorre aos coadjuvantes que vão aparecendo pela estrada para tirar graça através do surrealismo da situação (como no momento em que Theo briga com um sujeito no meio do mato).

Também é com talento que o roteiro de A Busca desenvolve sutilmente cada contexto desses coadjuvantes sem recorrer à grandes explicações. Ao notar a foto de uma menina na casa de um solitário senhor, Theo apenas escuta para que ele “não diga nada quando encontrar o garoto” e fica a cargo do espectador imaginar a história por trás daquilo. Uma atitude elegante e econômica, sem dúvida. Mas se isto funciona com os personagens menores, talvez o grande revés do filme esteja na falta de explicações para a trama principal. O que aconteceu entre Theo e seu pai? Por que o casamento dele com Branca está em crise? O filme não se preocupa em detalhar.

Mas talvez isso não seja tão comprometedor. Afinal, o que importa aqui é a jornada, e não propriamente o motivo dela.

Cotação-4-5

 

 

 

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Direção: Luciano Moura

Roteiro: Elena Soarez e Luciano Moura

Elenco: Wagner Moura, Lima Duarte, Mariana Lima, Brás Moreau Antunes, Alex Sander, Germano Haiut.

Gênero: Drama

Duração: 96 minutos

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