Django Livre | Crítica

Django Livre

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”. Certamente Quentin Tarantino nunca ouviu a pérola de sabedoria popular madruguiana, ou se a ouviu, fez questão de guardar para si, devidamente escondido em um canto de sua alma, bem distante do lado que influencia suas criações fílmicas. Com seu mais recente trabalho, Django Livre (Django Unchained), o cineasta juntou alguns milhões de dólares para dirigir um filme que é movido, basicamente, pela vingança.

Tarantino é reconhecidamente o mais talentoso plagiador de Hollywood, no bom sentido. Rótulo que ele parece insistir em querer carregar, mesmo que saiba que, na verdade, todas as influências do seu arsenal cinéfilo são repassadas para os seus filmes não só como forma de homenagens, mas como uma forma de obrigação pelos serviços prestados no seu amadurecimento como indivíduo.

E dentre os gêneros idolatrados pelo cineasta está o western spaghetti, o que torna Django Livre o seu lar. Inesperadamente, no entanto, ele aparece mais contido na questão da influência do gênero. Não que não haja os elementos de fácil reconhecimento e eles estão ali justamente para isso. O letreiro com fontes características, os zooms agressivos, as panorâmicas nas paisagens. Até Ennio Morricone está presente.

Django Livre

Pode-se dizer que mesmo a condução do diretor está mais discreta. Os tais “diálogos tarantinescos” aparecem mais atenuados, bem como a tradicional montagem bagunçando a ordem cronológica (que aqui rende a ótima piada com a Ku Klux Klan). Tudo sem muitos abusos, quase meio calculado para que o exagero se apresente de outras formas, especialmente na sua marca registrada, a estética única e absurda com que ele pinta a violência.

E no que tange a violência, o cenário e a trama de Django Livre são perfeitos para isso. No sul dos Estados Unidos, no período pré abolição dos escravos, a aridez das paisagens encontra eco na aridez da sociedade escravagista da época. O negro Django (Jamie Foxx) acaba de ganhar sua alforria para ajudar o alemão King Schultz (Christoph Waltz) em um trabalho como caçador de recompensas. A jornada segue a linha uma mão lava a outra, com Schultz fazendo as vezes de mentor e Django da mão justiceira dos negros, como um herói libertador que chicoteia e atira naqueles que maltrataram sua raça. Mas a missão maior aqui é encontrar a esposa de Django, Broomhilda (Kerry Washington), que se encontra presa em uma fazenda controlada pelo terrível Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) no sul do Mississipi.

Não deixa de ser engraçado um alemão fazer o papel de agente modificador do status quo. Está na afetação de Waltz uma forma de Tarantino resgatar o valor alemão que ele tanto demonizou em Bastardos Inglórios.

Django Livre

E a vingança de que trata o filme? Está lá movimentando toda a trama e é mais uma vingança para o rol. Tarantino parece querer fazer sempre o mesmo filme, ou tem sido assim desde 2003, com Kill Bill. Mulheres, judeus e agora os negros, todos historicamente perseguidos e passados de vítimas à donos de seu próprio destino pela ótica do diretor. Não deixa de ser mais do mesmo, apenas mudando os personagens e os cenários. Se a vingança é um prato que se come frio, Tarantino é especialista em requenta-lo. Sorte do espectador que ele o faz sempre com um sabor único.

Cotação-4-5

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